Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
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  • A Feira em crise

    Lílian Stein
    Estagiária de Jornalismo

    “A Feira do Livro de Porto Alegre precisa ser reinventada. Ela foi uma proposta ousada há mais de 50 anos, deu saltos de ousadia quando cobriu a praça para limitar o efeito da chuva, e agora é hora de ir além.” É dessa forma que o escritor Marcelo Carneiro da Cunha comenta a urgência de transformação do maior evento literário a céu aberto da América Latina: chegou a hora de a Feira inovar.

    A cada final de outubro, um dos pontos turísticos mais conhecidos de Porto Alegre passa a respirar literatura. A partir da última sexta-feira do décimo mês do ano, a Praça da Alfândega, no centro da Capital, recebe a Feira do Livro.

    Em sua 56ª edição, contudo, um dos eventos mais importantes do calendário cultural brasileiro pode sofrer alterações. Quem passa pela Alfândega hoje imagina ser impossível que ela vá acolher o evento, com previsão de início para 29 de outubro.

    A praça está sendo recuperada pelo projeto Monumenta. As obras começaram no ano passado e devem se estender até o final do ano. Ou seja, vão seguir durante a Feira. Isso deu lugar a comentários que vão desde uma rejeição ao restauro até a tentativa de encontrar outro lugar que possa abrigar o evento

    Alternativas para a praça

    Possíveis adaptações da praça para receber o evento dão margem a outras discussões: a Alfândega ainda é o melhor lugar para abrigar um

    Vista aérea da praça, que abriga a Feira desde a primeira edição

    evento desse porte? Quais seriam as alternativas que permitiriam à Feira inovar-se?

    O porto-alegrense Marcelo Carneiro da Cunha, autor do livro Antes que o mundo acabe, sugere a transferência do evento da Alfândega para o Cais do Porto – local que já vem abrigando a área de literatura infantil: “O espaço mais inspirador de Porto Alegre – e a Bienal já provou isso – é o Cais do Porto, junto ao rio. A Feira deveria fazer uma intervenção arquitetônica legal nos espaços internos dos armazéns e criar espaços bacanas do lado de fora, decks e jardins e palcos. Isso, sim, seria algo para marcar e oxigenar a Feira, que anda precisando disso, e muito.”

    Cláudia Laitano, editora do Segundo Caderno da Zero Hora, avalia não apenas a questão do espaço físico. Lembra que outro problema está na qualidade das obras disponíveis aos leitores: “A minha feira ideal seria um pouco menor e menos poluída por bancas que só exibem best-sellers, autoajuda e esotéricos. A Feira deveria seguir os critérios de organização de uma grande livraria, que indica para o leitor por onde ele deve circular se procura determinado tipo de livro. Seguindo essa lógica, eu teria o corredor da literatura estrangeira, o corredor da literatura brasileira, o corredor dos clássicos, o corredor dos novos autores e, vá lá, corredores também para aquelas coisas que eu não gosto de ler (auto-ajuda, esotéricos, best-sellers …)”.

    Autora do livro Agora eu era, a jornalista acredita que um dos entraves de qualquer feira desse gênero é a diversidade de ofertas que aparecem durante o ano todo. “Ficou muito mais fácil e produtivo passear em uma grande livraria do que nos vários corredores de livros ruins em que ela está organizada hoje. A Feira está espantando quem compra livros com regularidade e ‘se guardava’ para comprar lá”, sublinha.

    Cláudia também aponta outras modificações necessárias: “O bar deveria voltar para um local mais central na praça, e todas as bancas institucionais e de patrocinadores deveriam ser eliminadas. Com relação à programação cultural, faria menos atividades, mas mais qualificadas e aprofundadas”.

    O restauro

    Revitalização prevê ares retrô à Praça da Alfândega

    Desde a segunda semana de março, tapumes de alumínio têm mudado a paisagem da área entre a Rua dos Andradas e a Rua Sete de Setembro. O bloqueio esconde uma nova fase do Projeto Monumenta, que prevê a revitalização completa da Praça da Alfândega.

    A previsão inicial era de que a obra fosse concluída antes da Feira. Entretanto, no início de abril, a assessoria de imprensa do Monumenta divulgou uma nota oficial afirmando que a Alfândega não estaria em condições de abrigar o evento.

    Em junho, a coordenadora do projeto Monumenta, Briane Bicca, declarou à imprensa que até a data da Feira do Livro seria possível a entrega do trecho que compreende o calçadão da Rua Sete de Setembro até o Cais do Porto. A coordenadora afirma que as obras devem seguir até o final do ano.

    Com um custo de quase R$ 3 milhões, a ideia é dar um clima nostálgico à praça e fazer com que ela volte ao estilo da década de 1930. Calçadas mais largas, em mosaicos portugueses, jardins delimitados por cercas-vivas similares aos dos anos 20, redesenho do chafariz, do espelho d’água e da iluminação cênica da estátua eqüestre de Marechal Osório fazem parte do projeto de revitalização da área.

    Saudades da cocada

    A professora dos cursos de Comunicação da Unisinos Cybeli Moraes também imagina propostas diferenciadas para a Feira, mas prefere que o evento ainda ocorra em seu lugar de origem: “Eu subiria a Feira para os terraços do Margs e do Memorial, de onde podemos ver de cima as flores dos ipês que ficarão escondidos atrás daqueles horríveis biombos. Colocaria ali toda a área internacional. Essa é a parte mais tranquila, com um movimento diferenciado de passantes”.

    A Avenida Sepúlveda, na alternativa de Cybeli, sobraria para o enorme barracão de autógrafos, evitando os atropelos no meio do cruzamento da praça. A professora também fecharia a Andradas até a Casa de Cultura Mario Quintana – e colocaria ali toda a estrutura de alimentação, aproveitando “aqueles maravilhosos botecos”, que poderiam entrar no clima da Feira criando cardápios especiais.

    Cybeli, que durante seis anos trabalhou no Margs – cenário conhecido por quem freqüenta a Feira –, também comenta o cardápio do evento: “Exigiria a volta da cocada baiana, que não me lembro se já tinha retornado em 2009… Pra mim, Feira do Livro sem cocada não é a Feira que cresci visitando.”

    Patrono da 47ª edição, em 2001, o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan defende a permanência da Feira na Praça da Alfândega. “Tudo que se fizer para salvar a Feira e mantê-la, de preferência onde sempre aconteceu, é ato generoso. A Feira pode e precisa encontrar um lugar para realizar-se em 2010 e nos anos vindouros”, comenta.

    Ainda que proponha a permanência do evento na Alfândega, Trevisan sugere outros locais para a iniciativa: “Levem-na para o Gasômetro, para o Parque da Redenção –talvez o local mais indicado na situação presente –, para a Fiergs. Ou, então, façam-na dentro dos espaços da UFRGS, no campus central, ou na PUC.”

    A palavra oficial

    Em comunicado oficial, João Carneiro, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, entidade responsável pela realização do evento, reafirmou o compromisso da Feira com a Praça da Alfândega: “Temos um encontro há 55 anos no mesmo local, portanto, é uma tradição de todos os gaúchos e visitantes a presença da Feira dentro da praça. Mesmo com as obras, esperamos adaptar os espaços, para termos mais uma edição da Feira que agrade a todos”, diz.

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    14 de Julho de 2010 às 6:21 pm

    2 Comentários para “A Feira em crise”

    1. Luciana diz:

      Obviamente a *jornalista* Claudia Laitano propõe um evento financeiramente inviável, dispensando os espaços para patrocinadores e tirando o espaço dos best sellers. (como se o que ela escrevesse prestasse). Por que não pedem a opinião de alguns Relações Públicas especializados em eventos? Ou em gestão de crise? Ou em reposicionamento? Ou em mapeamento de públicos e detecção/melhoramento da imagem da feira? Ou para estreitar o relacionamento com aqueles que realmente fazem a feira existir até hoje, que são os leitores, os consumidores? A área de Relações Públicas é extremamente ampla e é a mais indicada para que alguém se baseie na abordagem desse assunto. Os Relações Públicas são os profissionais realmente preparados para ter uma visão global da situação, fazendo o gerenciamento dessa crise, elaborando o plano de comunicação, pesando todos os prós e contras e levando em consideração todos os atores envolvidos. Assim, uma equipe multidisciplinar da área de Relações Públicas poderia trazer uma solução satisfatória, valorizando a feira.

    2. Marcelo diz:

      Que lindo, profª Cybeli!

      Uma multidão todos os dias adentrando o Margs e o Memorial para chegar aos terraços! Gente baixa de todo tipo, crianças enlouquecidas pelos corredores, adolescentes nos banheiros… Realmente, o Margs e o memorial merecem isso.

      E esse João Carneiro… sem comentários! Um evento nasce em um local deve morrer nesse mesmo local? Por favor.

      O mais lúcido foi o Marcelo Carneiro, que sugere o Cais, Por que a Cláudia Laitano podia ter ficado quieta… Quer corredores organizados, vai pra Saraiva. O lance da feira é essa mistura. Tu vai em busca de um livro, acaba descobrindo outro. Na organização, tu vai direto no que tu quer.

      Esses intelectuais e formadores de opinião… Tsc.

      No mais, parabéns para a Lílian. Reportagem equilibrada

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