SÁBADO, 13 de MARÇO de 2010
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A reportagem na encruzilhada

Crise do impresso, retração do mercado, novas tecnologias, pouca criatividade. Tudo isso pode fazer do gênero mais nobre do jornalismo uma vítima fatal.

Mas o quadro apresenta leves alterações, e o paciente dá indícios de que pode se recuperar.

Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo

Ao mesmo tempo em que predominam na imprensa brasileira as lógicas da informação objetiva – e, muitas vezes, superficial – e as tiragens dos jornais e revistas encolhem a cada novo levantamento do Instituto de Verificação de Circulação (IVC), nunca se falou tanto em jornalismo literário, ou narrativo. A recente vinda a Porto Alegre do jornalista e escritor Tom Wolfe, um dos fundadores do New Journalism, momento maior do jornalismo literário, reacendeu o debate nas páginas de jornais e revistas.  Por mais que a proposta de Wolfe fosse palestrar sobre o espírito da sociedade pós-moderna, as perguntas feitas pela plateia do Salão de Atos da UFRGS, onde palestrou no dia 27 de novembro, recaíam sempre no futuro da profissão que ele ajudou a enriquecer nos anos 60.

Em um artigo de 2007, intitulado A (im)pertinência da denominação jornalismo literário, o jornalista Vitor Necchi, editor da revista Norte – livros, artes e ideias, e professor da PUCRS, esboçou dez motivos para o enfraquecimento das histórias bem contadas no jornalismo impresso (confira a lista no final da reportagem). Segundo o autor, a junção destes argumentos que acabam por vitimar os periódicos acarreta uma onda de descontentamento com o jornalismo “da pressa, da mesmice e da falta de espaço”. Da informação como mera mercadoria.

Domingues e Vilas Boas defendem o jornalismo "humanizado"

Domingues e Vilas Boas defendem o jornalismo "humanizado"

“É a febre do acesso ilimitado a todo tipo de informação que torna obscuro o papel da mediação do repórter neste momento do Jornalismo. Perdeu-se aquela motivação de apurar a fundo, pois os dados estão cada vez mais acessíveis”, argumenta o jornalista Sérgio Vilas Boas, diretor e co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e criador do site de experiências jornalístico-literárias Texto Vivo. Vilas Boas assina embaixo o diagnóstico de crise da reportagem. “O Jornalismo está mais cerebral, racional. Falta o olhar humanizado daquele que corre atrás de pessoas, de personagens e escreve com estilo”.

Opinião semelhante tem o jornalista e professor da Unisinos Juan Domingues. Para ele, a reportagem sobre pessoas é que está enferma. “A apuração do repórter que ouve gente, ouve histórias, e com elas busca emocionar os leitores, é reportagem. E é o que está ficando de lado. Se isso é crise, bem, então há crise”. Segundo Domingues, o que sobra na imprensa são matérias grandes, que por mais bem apuradas, não são reportagens. Ele exemplifica. “Um repórter pode fazer uma matéria sobre como estará o Brasil na Copa de 2014. Para isso, poderá conseguir números e índices de todas as áreas que envolvem o tema. Pode fazer uma grande coleta de dados. Mas o resultado será uma matéria grande. Porque a reportagem tem que se preocupar com o aspecto humano, buscar sentimento. Sair da frieza dos números para abordar o cotidiano”.

Por outro lado, Felipe Pena, jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera que o cenário não é de crise, mas de escassez. “As empresas não investem na grande reportagem, o que é um erro. A causa talvez seja essa mania pelo instantâneo, que se aprofundou com a internet. Parece que não somos mais jornalistas, somos instantaneístas.”

À espera da retomada

No mesmo artigo em que fala das mazelas do jornalismo atual, Vitor Necchi expõe possíveis causas para o paradoxal interesse pelo texto narrativo neste início de século. Entre elas, a numerosa publicação de livros-reportagem no país, principalmente a coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, que traduziu textos do New Journalism, como Hiroshima, de John Hersey, e O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, reportagens históricas e até então inéditas no Brasil. As discussões sobre o tema em numerosas comunidades do Orkut, o lançamento da revista piauí e a criação da ABJL são outras razões elencadas. Mas a última, que o autor apresenta como “subjetiva”, talvez seja a mais importante. Nas palavras de Necchi, “um desejo latente entre os estudantes por saberem sobre e de praticarem o tal jornalismo literário”.

Revistas são o caminho mais importante para a retomada do espaço da grande reportagem

Revistas são o caminho mais importante para a retomada do espaço da grande reportagem

Ao mesmo tempo em que identifica a crise, Sérgio Vilas Boas vê com otimismo a retomada do gênero que nos anos 60 teve grande espaço na imprensa brasileira. E aponta os seus motivos para isto. “O Brasil tem um grande público consumidor de narrativas de não-ficção. Que assiste a documentários, compra biografias, lê revistas. Dentro disso, há o público da grande reportagem, que além de não ser pequeno, é um público fiel”. Outra razão que pode significar uma revitalização do jornalismo “humanizado”, segundo Vilas Boas, é a transição de gerações. “Os repórteres mais experientes de hoje vêm de uma escola objetivista, dos anos 80, que surgiu com o fim da ditadura e com o paradigma da Folha de S. Paulo, que moldou pelo menos duas gerações de jornalismo ‘pão-duro’. A nova geração, com 20 e 30 anos, tem buscado fugir deste padrão.”

Autor do livro Jornalismo Literário (Contexto, 2006), Felipe Pena acredita que este gênero pode “salvar a grande reportagem da tumba”, mas desconfia que haja riscos nesta retomada: “Tendo o seu diferencial no prazer da leitura, é preciso não esquecer que ele também se baseia em todo o referencial do jornalismo tradicional, como, por exemplo, uma apuração rigorosa, poder de síntese e de observação”.

Saídas digitais

Filha secular do jornalismo impresso, a reportagem pode ser a primeira vítima dos índices cada vez mais alarmantes do presente e das projeções para o futuro dos jornais como o conhecemos nos últimos quatro séculos. Pois quando o papel virar mera lembrança e o caminho for a internet, a reportagem embarca nessa?

Sim, de acordo com Juan Domingues. O editor do Portal3 considera a internet uma plataforma que só tem a auxiliar a reportagem. Ele critica a opinião comum de que só textos curtos têm vez na tela do computador. “É um conceito tomado como verdade absoluta, mas é um conceito-clichê. Quem gosta de ler no papel, vai ler na tela também. Aquele que não lê um texto longo na internet, dificilmente leria no papel”. A possibilidade de um produto multimídia também entusiasma o professor. “Vídeo, áudio, mapas, se bem utilizados, só enriquecem a reportagem. Só não pode competir com a palavra escrita, ser a reprodução do que o texto diz.” Domingues sugere a reportagem do espanhol El Pais sobre a morte de Michael Jackson. “Foi na versão online do jornal que li a reportagem mais interessante e completa sobre a morte de Jackson”.

A saga do repórter

 

Pena: "Quem apura por telefone é atendente de telemarketing

Pena: "Quem apura por telefone é atendente de telemarketing

Dado os cenários obscuros do jornalismo atual, o repórter pode ser visto como uma vítima das circunstâncias. Ou pode levar a sua parcela de culpa. Para Felipe Pena, o profissional que não busca se diferenciar, não tem fontes e se contenta com o Google, também é culpado. “Lugar de repórter é na rua, quem apura por telefone é operador de telemarketing.” Domingues aproveita para dar a receita. “Talento é só 10% do bom repórter. 50% é suor, é gastar a sola do sapato. 40% é condição de trabalho. Se não se cuidar, e confiar só no bom texto, pode virar um Mr. Google”.

Vilas Boas reconhece no mercado atual um perfil de abnegados. “O que muitos jornalistas, principalmente os mais jovens, estão buscando é uma forma de crescer individualmente, traçando um caminho próprio na profissão. Vinte anos atrás, não se falava em free-lancer, por exemplo. Hoje, o repórter autônomo é uma real alternativa ao profissional empregado das grandes redações”, opina. O autor de O Estilo Magazine considera as revistas um bom espaço para os frilas. “Rolling Stone, Piauí, Brasileiros, Bravo têm a maior parte de suas matérias compradas de jornalistas free-lancer, colaboradores. Muitos destes nunca tiveram carteira assinada, outra prática impensável anos atrás, mas que o mercado de hoje comporta. O que este repórter deve ter é uma grande lista de contatos nas redações”.

Dia 11 de dezembro de 2009



  • Rodrigo Fatturi disse:
    10 de dezembro de 2009 às 5:39 pm

    Baita matéria Andrei. É exatamente sobre esse assunto que estou fazendo meu tcc. Temos que cada vez mais questionar e criticar a maneira como fazemos jornalismo.

    Abraço!

  • Larissa disse:
    10 de dezembro de 2009 às 9:18 pm

    Amigos vêm e vão. E na faculdade, não sabemos se o colega de hoje será o amigo de amanhã. No campo profissional, o destino também é incerto. Quem de fato terá a “sorte” de seguir com sucesso nesta nossa profissão tão incerta? Mas uma coisa é verdade: vemos muito cedo que tem o brilho e a vontade de não ser apenas mais um que se diz jornalista. Eu, particularmente, continuo achando que jornalista de verdade nasce jornalista. A vida, a faculdade, as experiências apenas o moldam, o aprimoram. E tu Andrei, és jornalista. E tenho muito orgulho de também ser meu amigo. É o que desejo para nossas vidas e carreiras: que continuemos sendo bons amigos e, se Deus quiser, bons jornalistas.

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