Maria Maurente
Estagiária de Jornalismo
Já estive do lado de dentro de um balcão de atendimento. Foi no setor de IPTU da prefeitura de Gravataí, onde estagiei por quase dois anos. Lá ouvi os mais absurdos desaforos e aguentei dias e tardes de movimento intenso e pessoas irritadíssimas com a sufocante burocracia que envolve qualquer procedimento dentro de um órgão público. E, claro, com o fato de o pagamento do imposto mexer onde mais dói: no bolso.
Por um lado, chegava até a ser engraçado. Era uma coisa meio “morde e assopra”. Metiam a boca, xingavam até a terceira geração da minha família, da família do meu chefe, do prefeito e do Lula. Mas depois se davam conta de que a culpa não era exatamente minha. Alguns procedimentos iam além da minha alçada e eu realmente pouco podia fazer. O que eu podia, fazia. Assim como os meus colegas. Assim como a maioria dos atendentes de outros malfadados órgãos públicos ou privados.
Alguns são dotados de inegável má vontade. E esses podemos reconhecer na hora. Mas outros, pobrezinhos, aguentam desaforo sem merecer. Não estou aqui falando daqueles (desgraçados) que ligam sábado de manhã para oferecer descontos de 5% em cursos que você jamais mencionou que gostaria de fazer, mas sim daqueles que são procurados para resolver “pepinos”, seja em um balcão de atendimento ou por telefone.
Por isso defendo aqui a compreensão com as pobres almas que estão do outro lado da linha, ou do balcão. Não sei, me bateu uma coisa meio Madre Teresa, de querer fazer o bem, sabe? Então, lembremo-nos que os atendentes de tele-marketing – ou de outras variações do gênero – são humanos, que na grande maioria das vezes recebem salários ínfimos para fazer um serviço chato.
Não precisamos, lógico, aceitar qualquer oferta ou quinquilharia que nos for oferecida por esses meios. Tampouco achar bom quando formos mal atendidos. Basta um por favor, um bom-dia, um muito obrigada e outras gentilezas sutis. Não custa nada. Respire fundo e tente compreender se irá adiantar descontar no atendente toda a sua fúria, caso seja verdade que ele não possa resolver imediatamente o seu problema. As empresas são burocráticas mesmo, a culpa não é do pobre coitado.
Nada disso significa, claro, aceitar gerundismos. Podemos passar por cima de qualquer coisa, caros atendentes, mas estaremos encaminhando ou solicitando ou ando qualquer coisa, aí não dá!
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23 de outubro de 2009 às 3:48 pm
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enquanto lia, pensava em escrever justamente sobre os gerúndios que somos obrigados a aguentar. realmente, acho que essa é a pior parte dos telefonemas. ótimo texto.
Concordo contigo, Maria. Sempre quando atendemos estes telefonemas precisamos lembrar que do outro lado da linha tem algum subordinado precisando de dinheiro para alimentar uma família. Não custa ser gentil também. A não ser que me venha com gerúndios.
Não nos abandona neste espaço, Maria. Teus textos são ótimos.
Beijo.
Estarei concordando contigo em teu comentário de complacência com nossos pouco queridos atendentes, mas estarei concordando mais ainda com a Ju: teus textos são ótimos.
Estarei desejando uma boa tarde pra senhora.
Sou gerente operacional e comercial de call center e estudante de Jornalismo da Unisinos. Particularmente, por questões obvias, gostei da abordagem feita pela Maria no texto acima. O mais curioso sobre a reação dos clientes é que o percentual de não-receptivos é maior em pessoas com baixo nível intelectual que se considerem “superiores” a ponto de subestimar o atendimento. Passamos da fase do gerundismo. Hoje, outros assuntos mais relevantes permeam o call center.
Concordo contigo, Maria. Uma coisa é a não termos interesse por algum tipo de produto, outra, é engrossar o coro daqueles que tratam com deselegância as pessoas que estão, afinal, ganhando a vida. Tenho uma amiga que vive disto e sei o quanto ela aguenta de gente grossa…Uma pena.
Por último: da mesma forma que ficou “moda” falar mal dos call centers da vida, cuidado com a condenação generalizada do gerúndio. Poderemos estar condenando um tempo verbal muito útil em diversas construções,ok?