Amanda Heredia
Estagiária de Jornalismo
Carla Mülhaus, jornalista e autora do livro Por trás da entrevista, participou do 4º Seminário Aberto de Jornalismo da Unisinos, que ocorreu nos dias 21 e 22 de novembro e que tinha como tema justamente a entrevista. Sua obra se tornou referência sobre esse tema em disciplinas de graduação em Jornalismo. O evento foi promovido pelo Pós-Graduação em Comunicaçãoe está ligado à pesquisa da professora Beatriz Marocco sobre práticas jornalísticas.
Nascida em Petrópolis – região serrana do Rio -, formada pela PUC do Rio e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carla decidiu ser jornalista devido a seu amor pela escrita, mas, anos depois, ao conversar com o articulista Wilson Figueiredo, do extinto JB, descobriu que o ofício do jornalismo não confere a liberdade almejada por alguém que realmente gosta de escrever. Hoje Carla trabalha como escritora freelancer. É co-autora, por exemplo, de Marilia Carneiro no Camarim das Oito, sobre a vida e a obra da primeira figurinista da TV Globo.
Entre os temas discutidos na 4ª edição do Seminário, estava a entrevista por e-mail e, por ironia do destino, quando o Portal3 convidou Carla para uma entrevista, a jornalista preferiu realizá-la via e-mail devido à falta de tempo.
Na conversa por escrito, ela afirma que, para se tornar um bom entrevistador, o jornalista precisa ter “uma sincera curiosidade pelo outro, pelas ideias do outro”. O entrevistador, segundo ela, deve se policiar para não buscar declarações que referendem suas próprias teorias ou que preencham suas pautas prévias. Confira:
Portal 3 – Como você define, hoje, sua experiência com entrevista? E o que está fazendo atualmente?
Carla Mülhaus – Acredito que estudar, pesquisar e praticar a entrevista, no meu caso, foi uma forma que encontrei de me relacionar com o mundo. Primeiro, como jornalista, ainda “presa” a determinadas pautas, depois como escritora, com mais liberdade de intervenção e criação. Sempre achei incrível a convenção da entrevista, algo da ordem do tradicional que abre espaço para a troca e para a voz do outro, para o conhecimento do outro. Vejo a entrevista como uma evolução da conversa, um trabalho coletivo em busca de conhecimento. É essa chave da fechadura, esse segredo de cofre, esse “abre-te Sésamo” capaz de fazer as pessoas falarem por horas que sempre me fascinou. Boa parte da humanidade pode ser lida através de entrevistas, e não estou falando apenas de grandes entrevistas históricas, mas também daquelas aparentemente banais, mas que carregam grande sabedoria.
Atualmente estou trabalhando num segundo livro com a figurinista da Globo Marilia Carneiro, com quem lancei meu primeiro livro, Marilia Carneiro no camarim das oito. Estamos realizando entrevistas livres e nos dando a liberdade de deixar o tema do livro aparecer sozinho, ao longo das conversas.
Portal 3 – Seu livro “Por trás da entrevista” se tornou referência sobre esse tema em faculdades de Jornalismo. Como você recebeu isso?
Carla – Acredito que acertei quando confiei na minha intuição, imaginando que um livro desses viria a ser útil para estudantes de comunicação. O que eu queria era, justamente, preencher uma lacuna que percebi na prática. Saber que o livro virou uma referência me deixa extremamente feliz e me faz ter certeza de que abri um caminho, um campo de estudos e reflexão. A entrevista é importante demais para ser deixada de lado. Como escrevo no meu livro, ela é a essência do jornalismo.
Portal 3 – Quanto ao livro, qual entrevista foi a mais marcante e por quê?
Carla – Acredito que posso dizer ter sido a do Joel Silveira, pelo simples fato de que ele me cobrou pela entrevista no meio da conversa. Cobrar pela entrevista é uma praxe e não acho que ela seja condenável, mas eu não esperava por isso e fiquei insegura, imaginando que, se ele estava tomando aquela atitude, era porque não estava gostando da entrevista. E eu tenho uma preocupação, sempre, de deixar o entrevistado interessado na conversa, porque acredito que só assim o conteúdo rende. Entrevistado entediado não fala nada de interessante. Por isso, quando ele tocou no assunto da remuneração, fiquei um pouco desapontada e quase perdi o rebolado. Mas conseguimos seguir adiante sem problemas e, no final, quem não queria parar de falar era ele. Essa experiência foi importante pra mim, porque aprendi a lidar com os tropeços da comunicação e fazê-la andar de novo, no sentido da cooperação amigável e genuinamente interessada.
Portal 3 – Que caminho você apontaria para um jovem que está iniciando na carreira de jornalista e quer se tornar um bom entrevistador?
Carla – Falar de caminhos no jornalismo, hoje, é algo amplo demais, mas posso dizer que para se tornar um bom entrevistador é preciso ter uma sincera curiosidade pelo outro, pelas ideias do outro, e se policiar para não buscar declarações que referendem nossas próprias teorias ou que preencham nossas pautas prévias. O interesse pela entrevista pressupõe neutralidade e falta de preconceito na maneira mais ampla possível. Entrevistar não é julgar, é ouvir. É escutar com muita unção o que o outro tem a dizer, simplesmente porque ele é uma pessoa que pensa diferente de você, é só isso já merece atenção. O bom entrevistador é aquele que não está preocupado em ter razão e nem na sua própria performance. É aquele preocupado em deixar o entrevistado à vontade, criar vínculos de confiança com ele e aproveitar a oportunidade para conhecê-lo. No fundo, o bom entrevistador também é um bom cidadão, no sentido de respeitar as diferenças e, de certa forma, acolhê-las antes de torná-las públicas.
Portal 3 – Em razão de problemas de agenda, estamos fazendo essa entrevista por e-mail, conforme sugestão sua. Quais são as vantagens e desvantagens de uma entrevista por e-mail?
Carla – Achei que essa era uma solução alternativa. Infelizmente, acho que na entrevista por e-mail não há vantagens, não. Talvez a única seja a chance de organizar com mais calma os pensamentos e responder com mais prudência. Mas até isso me parece, para o lado do entrevistador, uma desvantagem. As chances das respostas saírem frias, mais formais do que o necessário são grandes. Eu mesma, quando reler essas respostas, provavelmente vou me achar muito séria, e acho que a entrevista não precisa sempre de seriedade. Ao contrário, é às vezes no lapso, no silêncio, na piada, na insegurança de uma resposta que estão informações importantes. Pensando alto ainda, talvez a vantagem, mais uma vez só para o entrevistado, seja a liberdade de não ter de seduzir, de não precisar conquistar um olhar interessado, de não valer-se de um charme qualquer. Mas também é de vaidades que se faz uma entrevista, portanto um ponto a menos para ela.
Portal 3 – O que exatamente se tem a perder e o que se tem a ganhar em uma entrevista por e-mail? Entre a entrevista presencial, por telefone e por e-mail, qual você acha que é a principal diferença entre elas? Quando é e quando não é adequado fazer uma entrevista por outros meios de comunicação que não sejam presenciais?
Carla – Sou sempre a favor do contato pessoal, mas também acho que nem sempre ele é tão necessário assim. Depende da pauta, da fonte, da apuração. Também é perfeitamente possível fazer uma boa entrevista por telefone ou por e-mail, o que importa é se esse formato está de acordo com a intenção e o clima da matéria. Não dá para fazer um bom perfil por telefone, por exemplo, mas dá para pegar boas declarações, e às vezes isso basta.
Portal 3 – Já cometeu alguma gafe durante uma entrevista? O que fez para se “safar”?
Carla – Juro que não me lembro, mas devo ter cometido algumas. Quem está na chuva é para se molhar!
Portal 3 – Já sentiu que deixou de perguntar algo em alguma entrevista?
Carla – Sim, várias vezes. Por isso acho importante, sempre, perguntar ao entrevistado se ele se importa de complementar, se for o caso, algumas informações por telefone depois da entrevista. É importante ter essa abertura.
Portal 3 – Gostaria de complementar algo?
Carla – A entrevista torna definitivo o que é muito volúvel, eternizando opinião e pontos de vista que estão sempre mudando. De certa forma, ela ocupa uma intersecção entre o lugar dos saberes e o lugar da inconstância própria do ser humano.
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