Quinta-feira, 20 de Junho de 2013
  • Tempo agora em São Leopoldo: 12°C
  • Portal3 » Colaboradores

    Como é bom falar de jornalismo

    Juan Domingues
    Jornalista e editor do Portal3

    Eu gosto de milhares de coisas nessa vida. Gosto do mar, do sol, do verão, de pegar minhas ondas. Gosto do inverno, do frio, de ficar bebendo vinho em frente à lareira. Gosto de ficar em casa com a minha mulher, com meu filho e meus cachorros. Gosto de futebol, do Internacional e até de assistir Vasco e ABC de Natal. Gosto de trabalhar, de fazer o que faço. Gosto de dar aula, de ensinar. Gosto de ler, de aprender e de estudar. Gosto de tocar conversa fiada com os amigos, das risadas de mesa de bar.

    Mas quase nada das coisas que gosto fariam sentido se não gostasse da minha profissão. Adoro ser jornalista e trabalhar com jornalismo. É o que faço todos os dias desde 1991.
    Por isso, falar de jornalismo pra mim é falar do mundo vibrante das palavras, do texto, da vida cotidiana, do registro dos fatos que nos anos seguintes servirá, certamente, como registro histórico.

    Nessa semana tive uma das experiências mais marcantes da minha trajetória de jornalista, que nasceu na redação do NH, em Novo Hamburgo, passou pelo jornal Zero Hora, por Brasília, jornalismo online, dezenas de viagens pelo Brasil e no Exterior e chega, neste momento, ao ensino de futuros jornalistas na Unisinos e na PUCRS. Na noite do dia 10 de novembro, compartilhei um debate rico e leve com o jornalista, professor, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, Juremir Machado da Silva, sobre um gênio do jornalismo mundial, Tom Wolfe.

    Wolfe é o ilustre convidado do Fronteiras Braskem do Pensamento no dia 16 de novembro, na UFRGS. Por isso, fui convidado, junto com Juremir, para fazer uma espécie de apresentação do pensamento de Tom Wolfe a uma seleta plateia, muitos dos quais deverão estar na palestra do mestre do New Journalism. Minha participação neste evento se deveu, em grande medida, porque minha tese de doutorado na PUCRS é justamente sobre imaginário e ficção na reportagem, um mergulho no jornalismo literário, sob orientação cirúrgica do Juremir.

    A criação do Novo Jornalismo mexeu com o jornalismo padrão que se fazia naqueles últimos anos da década de 50, começo dos 60. O jornalismo padrão, bege, segundo Tom Wolfe, cansava o leitor pela absoluta falta de criatividade, com textos sonolentos e óbvios. O jornalismo, na época, se preocupava em mostrar quem matou quem e onde. Mas quase nunca queria saber como e porquê o crime havia ocorrido. Esta era a senha para a produção de reportagens profundas, detalhistas. Esta era a senha para ir além, muito além do que os outros já tinham ido.

    O Novo Jornalismo surgiu com um texto fortemente amparado em recursos da literatura, com descrições detalhadas das cenas, transcrição de diálogos, observação sobre o status do entrevistado (ou dos envolvidos com o assunto), como a roupa, o jeito, as expressões, o gesto, o cheiro e o ambiente em que os fatos ocorreram. A intenção era pegar o leitor pela mão e colocá-lo na cena do fato.

    Com isso, o Novo Jornalismo conseguiu, com grande aceitação do público e uma boa dose de repúdio por parte dos romancistas, estabelecer um texto não-ficcional com a emoção típica dos romances. Grandes reportagens viraram livros geniais, como A Sangre Frio, de Truman Capote, Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe, Fama e Anonimato, de Gay Talese. Os romances de não-ficção mudaram completamente o jeito de fazer jornalismo.

    Claro que no final das contas, o que vale é o texto. O que existe em jornalismo é texto ruim e texto bom. No Novo Jornalismo, isso fica latente. As virtudes e os defeitos saltam aos olhos do leitor. Por isso, quem se aventura no jornalismo literário precisa saber o que está fazendo. Não é um bicho de sete cabeças. Mas também não é um bicho de uma cabeça só.

    TAGS

    11 de Novembro de 2009 às 3:11 pm

    O formando e as saudades de uma despedida

    Luciano Gasparini Moraes
    Estudante de Jornalismo

    Que saudade da rede de computadores, por vezes lenta.
    Que saudade das filas no Alemão e do Fratello.
    Que saudade das avaliações com prazos que parecem que não serão vencidos. Que saudade!

    Na cabeça de um formando, o último semestre não equivale a seis meses. Acreditem!

    O derradeiro semestre significa mais. Significa uma trajetória acadêmica. Para muitos, talvez signifique uma vida inteira. Por isso, colegas que estão ingressando, aproveitem, curtam, vivam intensamente a essa trajetória.

    Aprendam, discutam, estudem, reflitam, façam amigos, namorem, pois isto tudo fará com que amadureçam pessoal e profissionalmente.

    Reclamem dos serviços da Admissão e Matrícula se for preciso, mas saibam elogiar quando lhes atenderem bem.

    Avaliem os professores, as disciplinas, critiquem os planos de aula. Se posicionem. Pensem novo ou pensem velho, mas pensem.

    Discutam com o professor, se for o caso, mas apenas se isso servir para ambos crescerem. E dêem um abraço nele no final do semestre, pois, com certeza, lhes transmitiu conhecimento e isto é, no mínimo, motivo para gratidão.

    Vão à biblioteca. Peguem livros. Não importa se finos ou grossos. Peguem-nos!

    Faltem aulas para irem aos jogos dos seus times do coração. É preciso se divertir de vez em quando, mas batalhem depois para cumprir os prazos e não reclamem disso.

    Façam churrasco no matinho. Joguem sinuca do Diretório Acadêmico. É preciso conhecer as dependências da Unisinos. Faltem aulas se preciso for, mas que seja para fortalecer a rede de contatos. Isto é vital.

    Peguem o Central, peguem trem, peguem van, peguem carona. Aproveitem o transporte para fazerem amigos, pois garanto que, depois, vocês sentirão saudade até das greves da Trensurb.

    Façam matérias sobre o laguinho, sobre o Bar do Alemão, entrevistem colegas pelos corredores. E não tenham vergonha de fazê-las. Não se sintam ridículos, todos passam por estas pautas, pois fazem parte do crescimento e do aprendizado. Porém, depois, partam para matérias maiores, mais ambiciosas.

    Se der, viajem, façam intercâmbio, cursem o Unilinguas. Conheçam pessoas, entre elas pode estar o novo amor da sua vida, um sócio, ou apenas um amigo. Por qualquer uma destas alternativas já valerá a pena.

    Se inscrevam no Intercom, nas palestras, participem de concursos, mas não esqueçam as horas complementares.

    Gravem nos estúdios da TV e da Rádio, escrevam para o Babélia. Usufruam ao máximo da excelente estrutura que a Unisinos oferece.

    Vão à sala do coordenador, à AgexCom, ao LAI, ao R.U. Não se despeçam da Unisinos sem saberem onde ficam estes lugares. Eles são humana e profissionalmente importantes.

    “Pra saber tem que viver”. E eu vivi. Com orgulho e prazer eu vivi.

    Esse texto escrevi na Sala Pública do quarto andar. Lugar no qual estive pouco, mas estive por último após oito anos e meio.

    A cena foi repleta de intensa nostalgia: final de semestre, noite silenciosa, salas vazias, o ônibus Circular parando em câmera lenta diante do ginásio de esportes. O mesmo ginásio que serviu de palco para as primeiras matérias.

    As luzes do ginásio acesas, poucos carros no estacionamento, o Circular fechando as portas e partindo, mais lentamente do que chegou. E com ele o meu coração apertado, lembrando-se de todos e de tudo o que vivi na Universidade.

    É, a noite de 29 de agosto, que se avizinha, promete. É o momento da Colação de Grau, portanto, instante em que nossas memórias voltarão mais uma vez no tempo para marcar o fim de uma era, o fim de uma etapa que deixará saudade. Portanto, amigos e futuros colegas de profissão, vivam intensamente, pois, ainda assim, vocês sentirão saudade. Como eu estou sentindo.

    TAGS
    , ,

    13 de Agosto de 2009 às 5:12 pm

    Exigência do Diploma (ainda)

    Henrique Machado
    Estudante de Jornalismo

    A decisão do STF de derrubar a exigência do diploma para o exercício do jornalismo fez com que a sociedade brasileira abrisse os olhos para essa profissão, muitas vezes exercida por “pseudo jornalistas” que se dizem profissionais. Isso, por serem donos de um jornal, ou ter um programa de rádio, ou ainda serem colunistas de algum veículo.
    Você, estudante que como eu, dispensa boa parte do seu minguado salário para pagar a faculdade, não deve (será?) ficar desesperado. Explico: há uma luz no fim do túnel. Sim, alguém se deu conta do equívoco do STF e está tentando fazer algo para que as coisas sejam como tem que ser.

    No dia 1º de julho, o senador Antônio Carlos Valadares (PSB/SE) entrou com uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para que tudo volte ao normal, e o diploma de jornalista volte a ser exigido para o exercício da profissão. Seguindo a mesma linha, o deputado Paulo Pimenta (PT/RS) também apresentou uma PEC para que a exigência do diploma volte a valer.

    A proposta permite que pessoas sem diploma possam colaborar com textos ou artigos. Jornalistas que já atuavam sem formação universitária antes da edição do decreto continuam na profissão. Esses jornalistas, contudo, precisariam de um registro regular. O decreto-lei já previa a existência de colaboradores, que deveriam se restringir a um terço das contratações da empresa.

    As justificativas dos parlamentares são parecidas. Em comum, o fato de que o jornalista deve seguir critérios éticos e técnicas específicas que exigem a formação acadêmica. Que a atividade de jornalista influencia na decisão dos receptores da informação, por isso não pode ser exercida por pessoas sem aptidão técnica e ética. Concordo em parte.

    Na faculdade, aprendemos essas técnicas e esses critérios éticos nos quais o jornalista, em tese, deve se basear, mas sabemos que isso vai de pessoa para pessoa. A exigência de diploma não garante um profissional ético, porém pode ajudar bastante nesse sentido.
    Para aqueles que acham que o simples fato de ter o diploma resolve tudo, responda se por acaso nunca se deparou com um colega que escolheu a faculdade por achar que seria o máximo poder trabalhar na RBS ou ainda apresentar o Fantástico ao lado do “lindo” (mas não diplomado) Zeca Camargo e da nossa conterrânea Patrícia Poeta, sem ao menos saber qual a real função do jornalista diante da sociedade?

    Creio que, mesmo que isso seja um trabalho árduo e demorado, é necessária a criação de um Conselho Nacional de Jornalismo, que não visaria determinar o que o jornalista fala ou deixa de falar (liberdade de expressão acima de qualquer coisa), mas que exigisse que tudo que o profissional de imprensa faz esteja de acordo com o Código de Ética do Jornalista – que já existe -, e que o profissional que não seguir essa linha seja punido não só no campo criminal, mas também na esfera profissional, da categoria.
    Exemplifico: se um médico no exercício de sua profissão tomar alguma atitude que não esteja de acordo com o Código de Ética da classe, esse sofrerá as sanções penais da Lei Criminal e do Conselho, inclusive podendo até perder o diploma.

    Alguém saberia explicar qual a sanção que um jornalista pode receber no caso de caluniar uma pessoa? Somente um processo judicial, mas nada além de uma condenação de pagamento de indenização. Paga e continua exercendo a profissão como se nada tivesse acontecido. E a imagem da pessoa caluniada? Só para encurtar a história, lembrem do famoso “Caso Ibsen Pinheiro”.

    Não vamos deixar que investimento e sacrifício sejam dissipados pelo simples “canetaço” de alguns magistrados que, ao que parece, não entendem a real função de uma faculdade na formação de um profissional de Comunicação. Vamos deixar de acomodação e fiscalizar de perto a tramitação dessas que podem ser os últimos fios de esperança do nosso tão sacrificado diploma.

    TAGS
    ,

    6 de Agosto de 2009 às 3:22 pm

    O desespero do mercado

    Natasha Costa
    Estudante do Curso de Realização Audiovisual

    A publicidade surgiu como meio de propagação de marcas entre a sociedade. Com o decorrer dos anos, desenvolveu os mais diversos meios para essa propagação, sempre em parceria com as novas tecnologias e acompanhando as mudanças sociológicas da população. É quase impossível ignorar a propaganda em nossas vidas atualmente. Somos bombardeados pela publicidade excessiva e estamos cercados de estímulos para consumir cada vez mais coisas que talvez nem precisássemos. O que vestir, o que comer, aonde ir, o que comprar ou como se comportar.

    Todo mundo já passou pela seguinte situação: estar assistindo televisão e, de repente, ser surpreendido pelas propagandas. Sabemos que a programação de TV é interrompida por patrocinadores, e isso é uma coisa normal. Só não é normal quando a programação é interrompida por quatro, cinco ou até mais minutos de propaganda. Certos canais chegam a repetir o mesmo anúncio. Entende-se o fato de muitos canais de televisão abrirem espaço para a publicidade, pois o dinheiro que as empresas pagam para transmissão dos anúncios é um ganho direto do canal. Isso quando a publicidade não invade diretamente os programas com pequenos anúncios em cantos da tela durante o filme, por exemplo, ou então uma apresentadora de televisão entrevistando um convidado: ela para a entrevista e entra alguém com o intuito de vender algo, anuncia, assim, o produto, os preços e, ao mesmo tempo, interage com a apresentadora.

    Estimulados a comprar desde cedo, os novos alvos da publicidade são os consumidores mais jovens. Não somente os adolescentes, na nostalgia de suas juventudes (?), agora os alvos são as crianças. O chamado ‘capitalismo selvagem’ é isso, induzir o consumidor a comprar cada vez mais, sem escrúpulos, satisfazendo um desejo que não é necessário para a sobrevivência, aproveitando-se da inocência e da falta de senso crítico de milhares de crianças.

    Dizer que toda publicidade é ruim é fazer uma afirmação errada. Muitos anúncios se tornaram parte da chamada ‘cultura pop’. Pode-se estudar uma época por meio da publicidade, e também se pode fazer o bem, alertar a sociedade sobre algo que está acontecendo e precisa de mudanças. O espaço ocupado pela publicidade não é de todo ruim, mas está tomando proporções exageradas e não agradando a todos. A insistência não é sempre a melhor maneira de conseguir algo.

    TAGS
    , , ,

    23 de Julho de 2009 às 5:45 pm

    Diploma de jornalismo: corporativismo disfarçado de defesa da liberdade

    Altieres Rohr
    Estudante de Jornalismo

    No século XV, a resposta imediata dos governantes à invenção da imprensa foi a censura. Em alguns países essa situação prolongou-se de maneira inaceitável. Foi o caso do Brasil, onde não havia nenhuma oficina de imprensa até 1808, quando iniciou-se a impressão do A Gazeta do Rio de Janeiro. Esse jornal era a resposta da recém-chegada corte portuguesa ao Correio Brasiliense, a primeira publicação a circular em território nacional, mas que era impressa em Londres e defendia a independência do país.

    Hoje, em pleno ano de 2009, pelo menos 34 jornalistas estão presos em meio ao tumulto das eleições iranianas, segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras. Mais de meio milênio após a invenção da imprensa, a censura ainda é, infelizmente, uma realidade.

    Uma realidade que o Brasil vivia intensamente em 1969. No ano anterior, o governo militar havia criado o Ato Institucional nº 5, ou AI-5. Um dos Atos Institucionais mais marcantes da ditadura, ele deu poderes ilimitados ao presidente, eliminando a separação entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

    Creio que a maioria dos colegas jornalistas repudia esses acontecimentos. Porque cerceamento da liberdade de expressão não é o que desejam os jornalistas, que por muito tempo lutaram (e lutam) precisamente para obter o direito de escrever aquilo que acreditam que precisa ser escrito.

    Mas foi nesse cenário de repressão que foi baixado, no canetaço, o Decreto-Lei 972/69. Esse é o decreto que criou a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Ele é o núcleo da questão que mais tem mobilizado os sindicatos e alunos de jornalismo nos últimos meses, e cujo clímax se deu no dia 17 de junho, quando os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgaram incompatível com a Constituição Federal de 1988.

    Não vou argumentar a respeito da validade da formação acadêmica. Sou estudante de jornalismo e assim devo permanecer até me formar. Acredito no valor que a formação tem para mim – pelas pessoas, pelas experiências, pelo contato com diferentes formas de pensar. Há quem consiga essas coisas de outra forma, em outra formação, ou mesmo dispense tudo isso.

    Mas acho engraçado que os sindicatos, especialmente, dizem que a exigência do diploma de jornalismo garante a liberdade de expressão e o “acesso democrático” à profissão. Se foi uma regra criada para censurar, teríamos que primeiro provar a burrice e incompetência do governo militar por ter criado uma lei com a finalidade oposta. Certamente não era o caso, pois os militares conseguiram, sim, manipular a mídia e impedir a publicação de várias reportagens desfavoráveis. Com o decreto, impediram que jornalistas “indesejados” continuassem trabalhando legalmente no país.

    A liberdade de expressão nada tem a ver com a formação do profissional. Sai no jornal o que o dono do jornal quer, visto que o texto é limitado pelo papel e pela tinta, ambos fora do controle do jornalista. O mesmo vale para o rádio e para a televisão. A apuração também depende do tempo que o jornalista terá para fazê-la. O jornalismo não é um produto tão lucrativo quanto o entretenimento – a quebradeira dos veículos norte-americanos está aí para mostrar a fragilidade financeira da imprensa. Com os profissionais sobrecarregados, o tempo de apuração é, portanto, limitadíssimo; raras vezes é possível fazer um trabalho de qualidade excepcional nestas condições.

    Médicos e jornalistas são bem diferentes, de modo a serem incomparáveis, embora tal comparação tenha sido frequentemente realizada pelos defensores do diploma. Os piores erros do jornalismo envolvem falta de ética e honestidade. Os maiores erros da medicina (e da engenharia, do Direito…) se dão pela falta de conhecimento técnico. Ninguém fala em “liberdade de medicina”, simplesmente porque ninguém quer ser cobaia da “liberdade” de um médico.

    Por outro lado, a liberdade de imprensa e de expressão é justamente a garantia de podermos falar o que quisermos da maneira que quisermos, implicando a obrigação de aceitar que outros façam o mesmo.

    Jornalismo não se faz de um jeito só. É arrogante o jornalista que pensa ser possuidor do “segredo para se fazer jornalismo” só porque sabe quais informações devem ser colocadas no primeiro parágrafo de um texto – e há quem ria de quem será empregado sem saber o que é um lead.

    Todo o barulho em favor do diploma é sindicalismo, corporativismo – a preservação de uma reserva de mercado disfarçada de preocupação para com o bem comum. Ótimos jornalistas não têm formação na área: Carl Bernstein e Bob Woodward, a dupla que derrubou o presidente Nixon no escândalo Watergate, escrevendo o que entendiam ser a verdade no The Washington Post, não tem formação em jornalismo. Bernstein, aliás, nem completou o ensino superior.

    Também não faltem péssimos jornalistas formados. Basta conferir alguns jornais locais, devidamente registrados, com suas reportagens chapa branca e anúncios disfarçados de notícia. É pertinente citar o caso de Jayson Blair, o repórter do New York Times que inventou e plagiou notícias. Vendeu ficção como verdade. Blair era formado em jornalismo em um país que nem mesmo cultiva a exigência que por 40 anos existiu no Brasil.

    Por fim, vale lembrar que os princípios éticos dos quais muitos jornalistas tanto se orgulham – como o “ouvir o outro lado” – nasceram justamente nas empresas que tratam jornalismo como produto. Antes de ser profissionalizado, jornalismo era feito por motivação política específica. Os mais interessados na noção de “imparcialidade” são os mesmos que hoje dizem querer contratar pessoas sem formação.

    Ou, pelo menos, supõe-se que o objetivo dos membros do Sindicato das Emissoras de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp), do qual partiu a iniciativa de eliminar a exigência do diploma, seja o de não contratar somente jornalistas. Se forem outros Bernsteins e Woodwards, que ótimo. Se forem Blairs, formados ou não em jornalismo, que pena. Mas o público sempre pode mudar de canal.

    TAGS
    ,

    8 de Julho de 2009 às 6:21 pm

    No país das maravilhas

    Natasha Costa
    Estudante do Curso de Realização Audiovisual

    Quando lemos, deixamos de ser nós mesmos e passamos a fazer parte daquilo. Formadores de opinião, pensadores e filósofos, entre outros, deixaram suas impressões sobre o mundo em livros. De histórias fictícias a relatos de uma realidade, construímos nossas próprias opiniões, muitas vezes baseadas nas obras de grandes personalidades como, por exemplo, Karl Marx e Friedrich Engels.

    Algumas pessoas não tiveram medo de abrir suas trágicas vidas para que outras não cometessem, talvez, os mesmos erros. Um bom exemplo para isto foi o da adolescente alemã que consegui fama mundial ao contar em um livro como entrou no mundo das drogas e da prostituição. “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída” foi um alerta para milhões de pais sobre o terrível problema que é o consumo das drogas e as suas consequências.

    George Orwell, com uma doença degenerativa e com pouco tempo de vida, deixou suas impressões sobre o mundo através do romance ficcional “1984″. Orwell, ao imaginar uma sociedade futurista, não poderia prever o quão a sociedade se pareceria com o livro, mais de 50 anos depois. Uma história que causa espanto e põe para pensar qualquer um que se atreva a entrar na sociedade de Winston Smith: totalmente vigiada por câmeras. O que 50 anos atrás parecia um absurdo, hoje em dia é uma realidade.

    Autores, antes de registrar suas ideias para o mundo, foram como muitos de nós: leitores. Fizeram com que a palavra de outros despertassem neles mesmos dúvidas, certezas, curiosidades ou indignações. O suficiente para questionar o que lhes cerca e perceber que talvez nem tudo seja como pareça ser. De personagens reais como Napoleão até uma menina chamada Alice e seu País das Maravilhas, a leitura passa a ser parte do ser humano. E ler é um ato de necessidade.

    TAGS
    ,

    7 de Julho de 2009 às 3:45 pm

    Diplomados deflorados

    Eder Zucolotto
    Estudante de Jornalismo

    Na quarta-feira, 17 de junho, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) me tiraram o diploma de jornalista que ainda nem ganhei. Agora eu, um ateu convicto, sei como Deus, se é que ele existe, deve se sentir. Ninguém acredita mais na formação de jornalista. Um exemplo disso foi que assim que falei a meu pai do causo – pois ainda me nego a crer que é verdade o ocorrido – ele demorou alguns milissegundos pra perguntar se eu conseguia trocar de curso ainda pro próximo semestre.

    Não o culpo pela preocupação com o meu futuro. Seis semestres de curso. É metade do caminho pra ir ou pra voltar. Estou no final do primeiro tempo de jogo e mudaram as regras do campeonato. E se os juízes são do Supremo, então a decisão é suprema.

    Não sei ainda o que fazer. Sigo em frente no curso e o termino ou pego um atalho, tranco a faculdade e já saio no mercado de trabalho do jornalismo agora? Talvez, quanto antes, melhor. Assim eu não passo pelas cadeiras que discutem a ética da profissão e todas aquelas teorias e práticas que, no final das contas, vão ser uma desvantagem competitiva. Afinal, debates sobre ética e consciência sobre a produção e o impacto das matérias vão me distrair com questões menores. Pior ainda: questões que podem reduzir o lucro.

    Em meio aos meus questionamentos pessoais também tenho tempo pra ficar imaginando os pobres incautos que acabam de se formar e estão com um diploma na mão que não tem mais validade do ponto de vista de registro profissional. Caro colega – se é que ainda formamos uma classe -, ainda não é hora de se desesperar. A esperança ainda não foi revogada pelo Supremo. A vida é imprevisível (tão imprevisível quanto o funcionamento da cabeça de um juiz) e ainda podemos reaver a validade do diploma. Esse papel que, pelo menos no momento, só tem valor sentimental.

    Enquanto esse dia não chega, tenho algumas dicas do que pode ser feito com o seu querido e inútil diploma de Jornalismo. Para você que, com todo orgulho, pendurou o seu diploma de Jornalismo emoldurado num lindo quadro na parede da sala de estar, ainda há como tirar proveito dele. Pelo menos da moldura. Retire o seu diploma e o coloque naquela caixa de documentos esquecidos – como aquela conta de luz de 2003 que você ainda guarda, apesar de não se lembrar mais por que.

    Depois coloque uma foto na moldura e recoloque na parede. Pode ser aquela foto da sua mãe que a sua namorada pediu para tirar da cabeceira da cama, pois não conseguia transar com a sogra a olhando (com aquele olhar maternal, ainda por cima). Sua mãe ficará muito feliz quando for lhe visitar e ver a posição de destaque que recebeu, ao invés daquele papel feio e sem sentido. Colocar a foto da sua progenitora no lugar do diploma é um grande acerto, afinal há um risco muito pequeno que num futuro próximo os ministros do Supremo declarem que a condição de mãe perdeu a validade no mundo contemporâneo.

    Outra dica válida é aproveitar a lembrança das trocentas cadeiras de Jornalismo que você cursou e fazer um lindo origami, com trocentas dobraduras. Sua sobrinha vai adorar o presente. Se você não tiver sobrinha, pode mandar o mimo pra Associação Brasileira dos Donos de Emissoras de TV e Rádio. São pessoas que sabem apreciar um bom trabalho manual, principalmente se for feito por um amador (o que segundo a Associação dá mais mérito ao êxito). Apenas omita a informação que o artefato é produzido com um diploma do curso de Jornalismo, pois eles têm verdadeira ojeriza a tal aberração acadêmica.

    Dentre as opções há uma ótima forma de fazer um protesto velado: quando sair para a próxima pauta, leve o diploma e use o verso como bloco de anotações para sua matéria. Isso provará que o dito cujo, ou maldito cujo diploma de Jornalismo, ainda tem utilidade jornalística.

    E se você não tiver problemas com o politicamente correto – mas que diabos, agora somos livres de qualquer responsabilidade com o público – pode, devidamente munido de um fumo em corda picado (ou algo similar), fumar seu diploma. Assim, a comprovação de sua formação acadêmica se tornara tão etérea quanto a fumaça.

    TAGS

    29 de Junho de 2009 às 5:53 pm



    © Copyright 2013, Agexcom