Terça-feira, 21 de Maio de 2013
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    O jornalista e a inconstitucionalidade

    Vanessa Andara
    Estudante da Unisinos

    Está pautada nas mesas de discussões a decisão do Supremo Tribunal Federal pela inconstitucionalidade da obrigatoriedade do diploma de graduação para o exercício da profissão de jornalista. Em todas as mesas mesmo, digo eu, dos botecos, bares, lanchonetes de universidades, enfim. “Ei, polêmica! Considere-se oficialmente instalada!”.

    A decisão rechaçada pela Federação Nacional dos Jornalistas e pela Associação Brasileira de Imprensa e, ironicamente, acolhida pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV e Associação Nacional de Jornais, já nos guia até o ponto de origem do problema: a questão é meramente política. Isso é o que eu chamo de eterna guerra de interesses e a busca incessante pela inexigibilidade de formação para melhor adequação do interesse de poucos. E o maior interesse das entidades patronais a gente já conhece: menor valorização do profissional para uma redução gradativa dos salários.

    Concordo que as universidades não têm formado jornalistas extremamente familiarizados com a escrita, mas o mesmo acontece com as outras profissões. É até redundante dizer, mas os profissionais saem da universidade para aprenderem sua ocupação com o trabalho diário.

    Esta discussão – se é que dá para se chamar assim, já que existe uma decisão bem consistente sobre isso – nada tem a ver com livre expressão de opiniões. O jornalista tem no seu exercício a atribuição de levar a notícia ao leitor, ouvinte e telespectador. Mais do que isso, deve fazê-lo dentro da legalidade, com profissionalismo, e consciência. E acho que é para isso que existe sua formação.

    A alegação de que o decreto que estabelecia a obrigatoriedade do diploma feria os preceitos da constituição não condiz com o real propósito do jornalismo. Se o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo (Sertesp) realmente acredita que a existência de jornalistas de verdade fere a liberdade de expressão, então que seja concedido a quem quer que solicite o espaço para opinião em jornais, revistas e televisão! Isso, sim, condiz com a ideia que o sindicato e o STF estão tendo do real significado da Constituição Federal.

    E aos jornalistas, um recado: fiquem atentos para que sejam revistos os pontos equivocados no momento da elaboração do projeto de decreto (se é que existem) e que se deixe bem claro que formar profissionais qualificados para a elaboração de notícias e afins só contribui para a imparcialidade e expressão (no mínimo) decente dos fatos.

    O lamentável é que nós todos sabemos que decisões meramente políticas dificilmente são revertidas. Lamento que o STF abrace o mérito com a alegação de inconstitucionalidade. Não há inconstitucionalidade, e o mérito, neste caso, é absurdamente frágil. Para mim, a decisão é mais uma carolice inaceitável.

    A propósito:

    “(…)o presidente do STF, Gilmar Mendes, defendeu uma norma específica para tratar do direito de resposta.” Folha Online, 17/06/09.

    Direito de resposta? Não quero direito de resposta. Não sou jornalista e sou cidadã brasileira. Quero direito a um espaço diário no jornal local e espaço vitalício na revista Veja para expressar minhas opiniões. Caso contrário, considero totalmente sem fundamentos os argumentos do STF. Caso contrário, ou sou absurdamente ignorante ou apenas ainda não consegui entender os reais objetivos contidos no recurso interposto pelo Sertesp.

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    29 de Junho de 2009 às 5:42 pm

    As anônimas

    Luiza Carravetta
    Professora da área de TV do curso de Jornalismo da Unisinos

    Certa vez, numa dessas conversas despretensiosas, onde o assunto predominante constituía-se no cuidado com o lar, empregadas e crianças, alguém perguntou: “o que é que a tua mãe faz?”. Uma participante do grupo, rapidamente respondeu: “a minha mãe é uma anônima”. A palavra anônima pretendia definir a dona de casa, a esposa e a mãe, que não tinha nenhuma função outra a não ser o lar.

    Na oportunidade, a conversa acabara sem nenhuma profundidade, assim como havia começado. Entretanto, a palavra anônima martelava na minha cabeça e eu imaginava como seria viver, se não existissem as mulheres, então definidas como tal.

    Estamos no mês de maio, mês em que se comemora o dia das mães. Nos meios de comunicação, surgirão reportagens, principalmente mostrando mães que se destacam nos mais variados setores sociais. E eis que me volta à mente a palavra anônima. Sei que as mães anônimas também serão lembradas pelos seus filhos, embora não ocupem nenhuma função que, aparentemente, mereça destaque.

    Fico pensando nas anônimas. Não consigo imaginar o mundo sem elas. Vejo-as como as formigas de carreiro, como as abelhas operárias de uma colméia, como peça secundária, mas indispensável de uma engrenagem. E sem nenhum alarde, lá estão elas, na sua função diária, repetitiva, sem domingos e feriados, sem salário e sem férias, sem nada a reclamar.

    Meu pensamento volta-se para a minha mãe, também uma anônima. Então, lembro-me do Pequeno Príncipe que, em meio a tantas mil rosas, tinha uma que era especial, pois era a dele, pois era ele quem dela se ocupava, regando-a e protegendo-a do vento com a redoma. Recordo-me da minha mãe, da minha Maria, sempre com um sorriso nos lábios, solícita, disponível, sempre com uma palavra amiga, tudo fazendo, sem nada pedir em troca. Reconheço a grande importância que ela teve na minha formação pessoal e profissional. Valorizo a sua disponibilidade para o lar, para o marido e para os filhos. E mais uma vez me pergunto, o que seria de mim sem ela, o que seria do mundo sem elas, sem as mães anônimas.

    Obrigada mães anônimas, obrigada Maria Carravetta, minha anônima especial, pela contribuição na formação do ser humano e na construção do mundo.
    Mães anônimas, tenham a certeza de que para nós, seus filhos, suas vidas têm o maior significado e seus nomes estão assinados, não em jornais e revistas, mas no livro mais importante – o livro do coração, cheio de carinho e muito amor.

    8 de Maio de 2009 às 4:06 pm

    Sobre o texto do Lucas, o humor e os imaginários

    Thaís Furtado
    Jornalista, professora e coordenadora da agexCOM

    Há algumas semanas, um texto do aluno de Jornalismo Lucas Barroso, publicado no espaço de colaboradores do Portal 3, teve uma repercussão muito grande. Alunos de Relações Públicas se sentiram ofendidos com o que leram. Dias depois da veiculação, durante um debate na minha turma de Doutorado, que aparentemente nada tinha a ver com o assunto, acabei pensando mais profundamente no que havia acontecido. Por que a polêmica? Por que um descontentamento tão grande?

    Bom, vamos começar com o conteúdo de minha aula de Cultura e Imaginário. Depois da discussão sobre um texto de John Thompson sobre o que é cultura, os professores Karla Müller e Rudimar Baldissera nos apresentaram um vídeo de uma esquete da peça de teatro gaúcha Primeiro as Damas. Está no YouTube. O espetáculo é daquele tipo totalmente em alta hoje: a stand up comedy. Woody Allen começou sua carreira assim. Um ator sozinho no palco fica conversando com o público, normalmente interpretando um personagem. Foi o caso da cena que vimos. Era a caricatura de um velho, com mal de Parkinson e que dizia um monte de palavrões em inúmeras piadinhas que ironizavam a situação de ser velho.

    Ao final da exibição, a professora Karla trouxe a seguinte questão: por que as pessoas acham graça de uma situação tão degradante? Ou seja, o espetáculo – talvez sem querer – acaba reafirmando preconceitos sociais, culturais. Por outro lado, a arte e a mídia são também espaços da crítica, do fazer pensar. Ou seja, a mídia – que nos interessa particularmente – acaba por ser ao mesmo tempo o espaço do reforço e da tensão em relação ao que está posto na sociedade. Até aí, tudo bem, mas existe um outro componente que pode ser analisado: o humor. Do que as pessoas acham graça? É claro que o humor está intimamente ligado à cultura da qual fazemos parte. Uma piada no Brasil pode não fazer nenhum sentido na Alemanha. Vários autores falam disso, inclusive os da Análise do Discurso francesa, pela qual tenho especial predileção. Só conseguimos dar sentido a um discurso ao interpretá-lo, o que só vai acontecer em relação a outros discursos, outras referências que temos.

    Sem querer fugir muito do assunto, mas para exemplificar de forma bem simples, lembro dos outdoors criados pelo Cpers-Sindicato contra o governo Yeda Crusius. Eles mostravam um rosto apagado ao lado de frases do tipo: no dia tal você vai conhecer o rosto do autoritarismo. A campanha gerou muita discussão. Alguns dias depois, um motel de Porto Alegre, aproveitando a polêmica, fez um outdoor esteticamente igual à peça do Cpers, com um formato de rosto semelhante ao que aparecia no outro outdoor, também apagado, mas dizendo algo como: você vai conhecer o rosto do prazer. Motel tal. Ora, esse outdoor só faz sentido porque mobilizamos o interdiscurso, fazemos relação com o discurso anterior. Se alguém de fora da cidade visse aquela propaganda, jamais daria a ela o mesmo sentido que os porto-alegrenses.

    Então volto à questão do humor. Só achamos engraçado aquilo que faz algum sentido para nós. Ou será que não? Bem, navegando muito superficialmente na Internet – me desculpem os pesquisadores que trabalham com isso e que certamente terão versões bem mais complexas sobre o que vou falar – li que existem três tipos de teorias sobre o humor: as da incoerência, as do alívio e as da superioridade. As da incoerência seriam referentes àquele humor mais óbvio: achamos graça quando uma coisa inesperada acontece. Uma pessoa cai, alguém diz algo inconveniente, enfim. Seria, portanto, uma espécie de quebra do sentido. O nonsense seria o ponto máximo desse humor, tão bem representado, por exemplo, pelo grupo inglês Monty Python. Aquilo não faz sentido nenhum, por isso é engraçado. Ou seja, mesmo que às avessas, a relação com o sentido se mantém.

    As teorias do alívio têm um viés mais psicanalítico, freudiano. Uma piada obscena, por exemplo, pode provocar risos que liberam uma tensão acumulada pela repressão sexual. Seria uma remoção de barreiras, uma forma de driblar uma censura. E o assunto não precisa ser somente o sexo. O prazer com o riso pode vir de outras questões reprimidas. Quantas vezes pensamos em assistir a uma comédia no cinema apenas para relaxar, para liberar tensões? Todo mundo já fez isso. E existem ainda as teorias da superioridade. Muitas vezes, o riso é provocado por uma piada sobre os defeitos de alguém ou de um grupo. Bêbados, sovinas, gordos são alvo de brincadeiras. Elas provocam uma sensação de superioridade em quem está fazendo a piada. É claro que essas formas de humor se confundem, as sensações se somam e devem existir muitas outras maneiras de entender o humor. Mas meu objetivo aqui, no entanto, é apenas perceber a relação que existe entre humor e sentido.

    Quando ouvimos uma piada de português, por exemplo, achamos graça porque vemos sentido naquele discurso. É evidente que os portugueses não são burros. Uma pessoa que achasse isso realmente seria preconceituosa. Mas sabemos diversas histórias verdadeiras de portugueses que mostram que a forma de pensar daquele povo se difere um pouco da nossa, ou seja, existe uma ligação com o real, por isso faz sentido. E é aí que eu quero chegar. Existem estereótipos, ou imaginários, sobre vários grupos sociais. Baianos são lentos, gaúchos são machos, cariocas são malandros, enfim. É claro que nem todos os baianos são lentos, mas só conseguimos entender uma piada que trata dessa forma alguém que mora na Bahia porque ela tem uma relação com a realidade. É uma questão cultural.

    Não teria sentido, portanto nem graça, se fizéssemos uma piada dizendo que os paulistas são lentos. A não ser pelo contraditório, pelo nonsense. Quando o Casseta e Planeta faz piadas de gaúchos gays, muitos ficam ofendidos. Ora, o que eles fazem é justamente brincar com um estereótipo, no caso o de que todos os gaúchos são machos. Todos sabem que existem gays no Rio Grande do Sul, aí a ligação com o real: nem todos os gaúchos são machos. Esse, no entanto, é um estereótipo (ao contrário da lentidão baiana, por exemplo) considerado socialmente – e talvez aí sim preconceituoso – positivo. Por isso a brincadeira, para ter graça, precisa ser feita com o seu oposto, com o inesperado. Já com a questão da velhice, exposta na peça gaúcha, o humor se dá pela sua ligação com o real. Por mais que se deva ter respeito pelos idosos e que a sociedade já esteja aos poucos se conscientizando disso, é evidente que ficar velho não é uma coisa boa. Se pudéssemos escolher, preferiríamos ficar sempre jovens. Então, as piadas sobre velhos só fazem sentido pela sua ligação com a realidade, mesmo que exista um forte imaginário sobre esta fase da vida.

    E quais seriam os imaginários em relação às profissões? Quando se pensa em alguém da área da informática, por exemplo, a imagem que vem à cabeça é a de um nerd. Alguém da área do cinema deve ser meio louco e criativo. São imaginários. Só isso. Mas apesar de serem visões estereotipadas, elas têm alguma relação com a verdade, com o real. Senão não fariam sentido. E quais são os estereótipos dos jornalistas, dos publicitários e dos relações públicas? Chegamos, então, ao início desta discussão. O que o Lucas Barroso fez em seu texto foi brincar com os estereótipos das três habilitações mais tradicionais do curso de Comunicação Social. Provavelmente quem estuda o humor possa dizer que o seu texto pode ser explicado pelas teorias da superioridade – ele fala de “defeitos” das profissões – e da incoerência – é estranho um aluno que faz parte de uma comunidade criticá-la numa mídia universitária, mesmo que experimental. Mas podemos tentar entender por que essas piadas fazem sentido.

    Uma das críticas dos alunos de RP foi que o Lucas “pegou mais pesado” com eles do que com as outras profissões. Vamos analisar os estereótipos por ele destacados. Em relação aos jornalistas, grupo do qual ele faz parte, Lucas escreveu:

    Por que você escolheu o curso de Jornalismo?

    a) Porque disseram que eu escrevo bem
    b) Porque sou inteligente e vou mudar o mundo
    c) Porque não estou nem aí para o dinheiro
    d) Todas alternativas anteriores

    Ora, o imaginário aqui é de um sujeito que acha que vai salvar o mundo, que se sente superior, que escreve bem e vive por idealismo, sem pensar no lado prático e realista da vida. São estereótipos socialmente considerados mais positivos, embora não sejam necessariamente. Lendo sobre Jornalismo Literário outro dia, vi como as profissões de escritor e jornalista iniciaram meio misturadas. Os intelectuais brasileiros – e no resto do mundo não foi diferente – utilizaram a imprensa para publicar suas ideias. Esse início da profissão deu ao jornalista uma imagem de idealista, mas ao mesmo tempo provocou frustração em muitos que escolheram esse trabalho, pois é evidente que ninguém consegue “salvar o mundo” seja lá do que for. Muito menos seguindo uma profissão cheia de constrangimentos e regras dentro de uma lógica produtiva. João Antonio, conhecido escritor-jornalista que fazia contos-reportagens, escreveu eu 1986: “Tenho dito, com algum rompante, que a profissão faz alcoólatras, jogadores, impotentes, solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa e do poder (…)”.

    Boêmios, fumantes, barbudos, assim era o imaginário que tínhamos dos primeiros jornalistas. E a maioria dos profissionais tem consciência desse imaginário. Mas o interessante é que o imaginário, assim como a realidade – e talvez por causa dela – também muda, se transforma. Hoje, esses estereótipos do jornalista já não fazem tanto sentido. Tanto. A profissão foi mudando sua imagem para o mundo. Para melhor? Não sei. Mas é uma mudança tão gradual que ainda existe um pouco de verdade nesse imaginário. Distante, mas existe.

    Já os publicitários têm uma imagem de criativos, como escreveu Lucas:

    Por que você escolheu o curso de Publicidade e Propaganda?

    a) Porque eu sei mexer no Corel e no Photoshop
    b) Porque sou gênio, carismático e engraçadinho
    c) Porque vendi minha irmã numa rifa da escola
    d) Todas as alternativas anteriores

    São brincadeiras, mas que têm uma relação com a verdade. Quantos não são os alunos que entram no curso e dizem que publicitário é responsável por vender um produto, por exemplo? Quem nunca pensou que o publicitário é aquela pessoa que criativamente tenta achar somente as qualidades de um produto, esquecendo os defeitos? Ninguém nunca viu, no entanto, um publicitário vendendo algo. Nem nunca pensa nas inúmeras campanhas preventivas criadas pela publicidade quando vai descrever o que se imagina da profissão. Acredito que os publicitários tenham consciência dessa sua imagem.

    E os rps? Bom, aí outros estereótipos são mobilizados. Vamos ao que o Lucas escreveu:

    Por que você escolheu o curso de Relações Públicas?

    a) Porque sou mulher, ora!
    b) Porque não gosto de escrever nem mexer no Corel e no Photoshop
    c) Porque gosto de festas e tenho uma agenda
    d) Porque Jornalismo e Publicidade tinham muita concorrência

    É evidente que não existem só mulheres relações públicas, mas basta entrar numa sala de aula do curso para ver que a grande maioria é de mulheres. Quando o Lucas fala que os rps não gostam de escrever ou de trabalhar com os programas de arte, ele está fazendo uma relação com as outras duas habilitações. E agora eu pergunto aos relações públicas: quantos, ao escolherem seus cursos, não pensaram que gostavam de comunicação, mas não queriam seguir as outras duas áreas? Queriam achar um outro caminho. Acharam em RP esse caminho. Mas preciso dizer que sou testemunha – já que tenho alunos de RP – de que muitos chegam em sala de aula dizendo que não gostam e não sabem escrever. Alguns têm pânico. Muitos mudam essa visão no meio do semestre, mas que ela existe existe. A mesma comparação se dá na última opção apontada por ele. É verdade que PP e jornal são cursos mais concorridos do que RP! No entanto, ele só está fazendo uma brincadeira com este estereótipo: o de que os alunos não sabem muito bem o que fazer na área da comunicação e acabam escolhendo RP.

    A resposta que trata das festas e das agendas é a que mobiliza o estereótipo mais forte da profissão. Muitos alunos entram no curso dizendo que gostam de organizar eventos. É o imaginário. Portanto, o que o Lucas faz, na minha opinião, é provocar essa tensão com os estereótipos dos três cursos. Eu, que sou jornalista, mas dou aulas também para alunos de RP, lanço aqui um desafio: façam essa piada não ter mais graça. Pensem, nós só rimos do que o Lucas escreveu porque, apesar de tratar de um imaginário da profissão de RP, o texto tem uma ligação com o real. Senão ele não faria sentido. A vantagem é que o imaginário muda, os receptores mudam, portanto torço que chegue um dia que falar que rps só gostam de festa e não sabem escrever não faça sentido nenhum. Seja o mesmo que dizer que os paulistas são lentos. Assim como torço que chegue um dia que achar graça de piadas de velhos também seja impossível. Embora isso seja bem mais difícil.

    28 de Abril de 2009 às 3:07 pm

    A obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo

    Anderson Passos
    Ex-Aluno de Jornalismo

    Permitam que, na condição de ex-aluno, que eu me manifeste e lhes diga um pouco do que vivencio hoje no que se refere ao tema candente da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.
    Creio que a formação é benéfica para as instituições de ensino, para seus professores e seus alunos. Mas, ao que pude e posso perceber até agora, a minha formação “humanística” em nada sensibiliza o mercado, que está pouco se importando com essa discussão, como o Lucas Barroso flagrou em seu texto. Afinal, não vamos cair na ingenuidade de acreditar que as empresas jornalísticas vão trocar um profissional de renome não diplomado a pretexto de que “o novato ali no canto tem diploma”. Para pintar um exemplo em cores vivas, faço uma provocadora pergunta. “O sujeito aí que está lendo acha mesmo que um Cacalo da vida vai perder seu espaço na RBS pelo fato de não ter um diploma”? Eu arranco um antebraço se isso acontecer!!! E, antes que algum gremista xiita me saia com desaforos, não estou aqui julgando o trabalho do sujeito. Estou apenas constatando e exemplificando.

    Outro problema é que, se o mercado tem lá jornalistas de índole duvidosa, não é um diploma que nos permite assegurar, infelizmente, que dos bancos das universidades pessoas de conduta semelhante não brotem aos borbotões. Os canalhas estão em todo lugar. Inclusive no jornalismo. Assim, creio que o diploma, infelizmente, tende a ser um diferencial apenas e jamais uma garantia de que o sujeito poderá exercer sua profissão dignamente.

    Encerrando, não quero, apesar do discurso pessimista, desencorajar os estudantes de jornalismo e comunicação em geral a seguirem seu caminho na universidade. Muito pelo contrário. O intuito desse escrito é fazer um alerta de que o mercado jornalístico não é um “mundo de Marlboro”, para usar um jargão publicitário.

    Assim, abuse da universidade, para a qual você paga muito caro, para usar a criatividade sem limites, estreite relações com profissionais que já estão no mercado. E estude muito. Informe-se, acompanhe todas as mídias e seus progressos técnicos e de conteúdo, faça cursos voltados aos segmentos em que almeja atuar no futuro. Leia tudo o que lhe cair nas mãos. É isso que vai diferenciá-los. Nesse contexto, o diploma é apenas uma folha de papel, eventualmente emoldurada, da qual se tira o pó de vez em quando.

    8 de Abril de 2009 às 4:05 pm

    A CAMINHADA DOS 100

    Sérgio Trein
    Publicitário, Professor, Colorado e participante da caminhada do centenário

    Não era dia de jogo. Mas lá estávamos nós nas mesmas ruas e avenidas que sempre nos levaram ao Beira-Rio. As mesmas que, na maioria das vezes, nas saídas dos jogos, se transformam em nossos salões de festas. E que, em poucas mas doloridas vezes, nos ofereceram um chão nem sempre muito confortável para nossos olhos de tristeza nas derrotas. Não havia jogo. Mas paramos os carros. Paramos os ônibus. Paramos até as pessoas. E nos desculpem aqueles que tinham compromissos e se atrasaram. Mas nós realmente éramos muitos. Havia homens, porque afinal de contas futebol é coisa de homem. Mas havia, em igual número, mulheres. Havia velhos. Havia crianças. Havia negros. Havia brancos. Havia ricos. E havia pobres. Havia gordos, magros, altos e baixos. Havia todo tipo de gente para todos os estereótipos possíveis e imagináveis. Éramos tantos. E tão diferentes.

    O que nos unia, além do vermelho e do branco que carregávamos em nossas roupas, eram pequenos detalhes. E nem tão pequenos assim, pois era nítido a quem pudesse ver que tínhamos todos os olhos vermelhos, porque a ocasião pedia olhos vermelhos, dos quais de tempos em tempos corriam lágrimas insistentes. Tínhamos os ouvidos prontos para recordar um grito de gol que saía dos alto-falantes do carro de som ou para acompanharmos as músicas, cânticos e gritos de guerra. Tínhamos as gargantas prontas para gritar. Tínhamos os pés fortes, para agüentar tantos passos, que ali foram metros, mas que em nossa mente foram anos. Tínhamos as pernas fortes, como as de nossos bravos e lutadores atletas. Tínhamos um sol forte, que brilhava em um céu todo azul, como o verso do nosso Hino. Em cada passo da caminhada, o equivalente a um gol, a um dia da história, a um ano, a um título. Embora seja difícil até dizer se a caminhada representava mesmo um centenário ou se era o desejo de muito mais.

    Quando vi o Inter ganhar o título mundial, no Japão, em 2006, pensei: “que mais posso esperar do meu Inter”? Afinal, já vi esse Clube ser campeão de tudo. Não tem título que eu não tenha visto, Gaúcho, Brasileiro, América e do Mundo. Entretanto, que me desculpem todos os ídolos que vestiram e que vestem a camisa colorada. Mas depois da caminhada do centenário sou obrigado a reconhecer e a rever meu pensamento: da torcida colorada pode-se esperar tudo.

    6 de Abril de 2009 às 5:21 pm

    Notícia boa é notícia ruim

    Juan Domingues
    Editor-chefe do Portal3

    É interessante perceber que a sociedade, de certa maneira, nunca está satisfeita com o que vê na mídia. Na rotina diária social, não é raro ouvir comentários de pessoas reclamando que os jornais só publicam notícias ruins. “Se torcer, sai sangue”, dizem. Que os telejornais só mostram crimes, tragédias, acidentes, corrupção, mortes. Este tipo de comentário encontra eco na realidade, sim. Mas a preferência midiática por assuntos obscuros tem lá os seus motivos.

    Não vou, neste espaço, fazer um histórico sobre a imprensa. Mas só para se ter uma idéia do que estou falando, o fotojornalismo, por exemplo, nasceu com a morte. Sim, lá nos primórdios, a sociedade tratou de enviar fotógrafos para os campos de batalha com o intuito de registrar os rostos dos que morriam em combate. Era uma prova de que o bravo soldado havia tombado. E um alívio para as famílias, que, enfim, poderiam promover seus rituais de despedida de seus entes queridos. Aos poucos, no entanto, os responsáveis pela tarefa passaram a se interessar não apenas com o registro dos mortos, mas também pela atuação dos que ainda estavam vivos. As lentes se voltaram, então, para as cenas de guerra, o ambiente, as dificuldades no front. O texto jornalístico também sempre se ocupou da morte e das tragédias naturais e daquelas provocadas pela instável mente humana.

    Uma das razões para tal predileção da imprensa está na própria natureza da sociedade. Se você já presenciou um acidente de carro numa rodovia, sabe do que estou falando. Quando isso ocorre, é comum que o trânsito fique lento nas imediações do local. Os motoristas, em vez de trafegarem normalmente, reduzem a velocidade com um único objetivo: esticar o pescoço para ver o que houve e, principalmente, para conferir se há vítimas em meio às ferragens. Ainda que as pessoas queiram distância da morte, quando ela se dá de forma violenta, passa a ganhar um interesse maior por parte do público.

    Então, o que a mídia faz é simplesmente reproduzir fatos que o leitor, o ouvinte, o telespectador ou o internauta está sempre disposto a consumir. A mídia, como diz Edgar Morin, não inventou o crime, a violência, a tragédia. E ainda que muitos jornalistas achem que são deuses, eles também não inventaram a morte.

    Por isso, muitas vezes tenho dificuldade para compreender o consumidor midiático. Há poucos dias, o Brasil estava mergulhado no confete, na serpentina, na batucada, no sambódromo, nas mulatas e celebridades nuas, nos desfiles das escolas de samba, nas ruas do Recife abarrotadas de frevo, maracatu e gente. Há poucos dias, o país estava sedado pelo carnaval. O noticiário nacional, embebido pela folia, abriu todos os seus espaços para o pandeiro, a cuíca e o tamborim.
    Mas, incrivelmente, no meio da farra, ouvi muita gente dizer que não agüentava mais carnaval, que não suportava mais as notícias das escolas de samba, que já estava cansada de ver aquele monte de gente cantando, pulando, se beijando, se divertindo em plena felicidade. E que a imprensa não tinha mais nada de importante e sério para noticiar. É curioso, no mínimo.

    Quando temos uma descontraída sequência de notícias alegres, é porque não somos sérios. Quando o noticiário mostra violência e tristeza, é porque a “mídia só gosta de mostrar tragédia”. Neste cenário sem máscaras e fantasias, cada vez mais vale a máxima jornalística de que notícia boa é notícia ruim.

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    6 de Março de 2009 às 3:06 pm

    As ruas da minha infância

    Juan Domingues
    Editor-chefe do Portal3

    Dia desses, enquanto dirigia pela cidade, o Filipe, meu filho, que tem dez anos, me fez uma pergunta difícil de responder.

    É bom ser adulto, pai?

    Num primeiro momento, disse apenas um “depende”. Como qualquer criança, Filipe não se dá por satisfeito com respostas ridículas como a que eu acabara de lhe dar. E voltou à carga: “É bom ou não é bom ser adulto?” Disse a ele que todas as etapas da vida são boas, que precisamos compreender todas as idades como elas devem ser compreendidas, ou seja, de maneiras diferentes, e destilei outras bobagens periféricas. “É bom ou não é bom ser adulto?” – repetiu o Filipe, já impaciente.

    É bom – respondi.
    Por quê? – Retrucou meu filho, olhando-me com os olhos castanhos e lindos.
    É difícil de responder, filho – me desculpei. E avancei: É bom porque podemos fazer coisas que crianças não podem. Por outro lado, também é bom ser criança. Porque crianças podem fazer coisas que adultos não podem mais fazer.

    Em seguida, Filipe começou a ler alguns outdoors ao longo da Avenida Ipiranga, em Porto Alegre. Era a senha de que ele, ao menos aparentemente, havia ficado satisfeito com minha resposta. Mas eu tenho a mania de martelar coisas na minha cabeça. Em geral, assuntos difíceis de encontrar respostas definitivas. Não sei, mas algo no subjetivo me atrai. Então, fiz uma retrospectiva do diálogo que tive com meu filho e voltei ao passado para responder a mim mesmo se é bom ser adulto.

    Lembrei da minha infância, em meados da década de 70. E logo de cara já me vi numa encruzilhada: qual a memória mais remota da minha infância? Incrível, mas não lembro de nada antes dos cinco ou seis anos de idade! Será que isso só acontece comigo? Serei eu um cara normal? Será que minha memória está se diluindo de forma precoce?

    Depois deste surto existencial, a primeira cena me veio à mente: eu brincando no pátio de casa com meu cachorro, um pastor alemão. Lembrei dos meus amigos mais próximos, como o Raul, o Marcondes, o Batista (com os três ainda mantenho contato eventual), dos jogos de futebol na calçada da Rua Felipe de Oliveira, no Bairro Petrópolis.

    Continuo percorrendo os corredores do meu próprio tempo e deparo comigo um pouco maior, cruzando a Rua Eça de Queiroz com uma Caloi linda, de cor clara e pneus altos. Como era bom andar de bicicleta até ouvir o grito de que o jantar estava pronto! Às vezes eu comia no pátio de casa para ter certeza de que meus amigos ainda estariam na rua depois do jantar para continuar nossa brincadeira. Minha casa não tinha grades, apenas um murinho de um metro de altura, se tanto.

    As casas não tinham grades e a gente não tinha medo. Eu também adorava uma boa corrida de carrinhos de lomba. Eu e meus amigos chegamos a ‘construir’ um carrinho de lomba que era um ônibus. Ou seja, era um carrão de lomba, com capacidade para cinco corajosos passageiros. Tínhamos problemas para fazer as curvas, é verdade, mas nada que algodão, mercúrio e Band-Aid não resolvessem.

    Como era bom aquele tempo! Como eram bons aqueles dias da minha infância… Atualmente, quando faço churrasco aos domingos na casa do meu pai, que fica na Eça de Queiroz, sempre volto um pouco ao passado. E toda vez eu repito em silêncio para mim mesmo: “Essas são as ruas da minha infância”.

    Vou falar novamente com o Filipe sobre se é bom ou não ser adulto. Preciso dizer a ele que é muito melhor ser criança. Por um milhão de motivos, mas principalmente porque quando somos adultos, não conseguimos nos lembrar por completo de como foi a nossa infância. Guardamos um passado retalhado, fragmentado, sob neblina.

    Só depois de pensar sobre isso é que me dou conta de uma coisa: eu queria ter conseguido guardar todos aqueles dias numa caixa secreta e segura. Queria ter guardado todas as cenas – as boas e as ruins – para mostrar para o meu filho o que eu só descobri quando me tornei adulto: que eu era a pessoa mais feliz do mundo nas minhas ruas infantis. Eu era feliz como deveriam ser os milhares de pequenos seres humanos que hoje vagueiam pelas avenidas das grandes cidades sem comida, sem brinquedo, sem casa, sem amor e sem infância.

    14 de Janeiro de 2009 às 4:42 pm



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