Domingo, 26 de Maio de 2013

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Entrevista: Luis Fernando Verissimo

William Mansque
Estagiário de Jornalismo

* Foto de capa: Andrew Sykes

“Quando a gente escreve com ironia nem sempre é lido com ironia”

O Portal3 entrevistou por e-mail uma das principais referências do humor no Brasil para discutir a recente polêmica sobre humoristas que teriam extrapolado o limite da brincadeira, ofendendo uma porção de gente. O porto-alegrense Luis Fernando Verissimo, 74 anos, criador do Analista de Bagé, das Cobras e da Velhinha de Taubaté, conta que ele próprio já se complicou ao usar a ironia.

Portal3 – Existe algum limite para o humor?
Luis Fernando Verissimo – Não deveria existir nenhum limite oficial, imposto. Agora, cada um escolhe seus próprios limites, as piadas que nunca faria. Depende do humorista.

Portal3 – Considerando que é apenas uma brincadeira, o humor ofensivo é válido?
Verissimo – Tinha um cômico americano que no fim das suas apresentações perguntava: “Tem algum grupo aqui que eu ainda não ofendi?”. O número dele era isso, era ser ofensivo e não poupar ninguém. E ele era muito engraçado e apreciado.

Portal3 – A pessoa que tenta fazer humor precisa tomar cuidado com certos temas?
Verissimo – De novo, depende do humorista. Se alguém é conhecido pelo seu humor ferino, o humor ferino já é esperado e os limites do permitido, ou do tolerado, se expandem.

Portal3 – Recentemente, o comediante e repórter do CQC Danilo Gentili foi duramente criticado por uma piada com judeus. Ao saber que moradores do bairro Higienópolis temiam a construção de um metrô na localidade, Danilo postou no seu Twitter: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”. O repórter do CQC foi repreendido por outros usuários do site, apagou a mensagem e pediu desculpas. Afinal, piada boa é aquela que não cria constrangimento?
Verissimo – No caso está-se brincando com a memória dolorida e com muita gente, e acho que em qualquer circunstância deve-se respeitar a dor alheia. Se o cara pediu desculpa, é porque não tinha se dado conta de que não fizera apenas uma piada, mas dera uma prova de insensibilidade.

Portal3 – Antes de publicar algo que envolva humor, você testa a piada com sua mulher ou seu cachorro?
Verissimo – Não.

Portal3 – Qual a frase engraçada que você mais gosta de citar?
Verissimo – Pra baixo todo santo ajuda. É o mais cínico de todos os ditos populares.

Portal3 – O jornalista Millôr Fernandes diz que deveria existir um sinal gráfico para indicar que um texto está sendo irônico. Como poderia ser esse sinal? Você já se complicou fazendo alguma ironia?
Verissimo – O problema é que quando a gente escreve com ironia nem sempre é lido com ironia. Já me compliquei, sim, escrevendo coisas tão absurdas que ninguém – era o que eu pensava – poderia levá-las a sério, ou não notar que era ironia, mas que muita gente levou a sério. Isto aconteceu mais de uma vez.

Portal3 – É comum que pessoas contem piadas de “mau gosto” entre amigos. No entanto, quando um humorista ou uma figura pública conta algo do gênero, muita gente critica. Você acha que há certa hipocrisia nessa atitude?
Verissimo – Sem dúvida. Nenhum de nós está livre de apreciar uma piada de mau gosto, se, além de infame, ela for engraçada, mas não gostamos de ouvi-la às claras, principalmente se for uma piada que reforce algum tipo de preconceito.

Portal3 – Piada é piada quando funciona. Mas o humor deve levar em conta o local onde vai circular? Daria para contar uma piada de gaúcho no CTG?
Verissimo – O humor gaúcho tem muito de autogozador, o próprio gaúcho supertradicionalista tem algo de autoparódia nos seus exageros. E ouvem-se muitos causos de gaúchos grossos barbaridade em CTGs.

Portal3 – Os norte-americanos parecem ser mais abertos a certos tipos de piadas politicamente incorretas do que os brasileiros. Algumas das coisas que se vê nos programas de lá dificilmente seriam bem aceitas aqui. O público brasileiro é mais conservador no humor?
Verissimo – Eu acho o contrário. Nos Estados Unidos é raro você ver, hoje, certos estereótipos – o judeu usurário, o negro não muito inteligente, o gay espalhafatoso – que ainda são comuns nos programas humorísticos brasileiros. O humor brasileiro é que é conservador, na medida em que conserva seu gosto por tipos que ainda são do tempo do circo, do rádio e do teatro de revista.

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27 de Junho de 2011 às 5:58 pm

Para todo mundo ver

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

A publicidade é regra. O sigilo, exceção. Essa é a premissa da Lei geral de acesso à informação, projeto a ser votado pelo Senado Federal. O PLC 41/2010 prevê a garantia de procedimentos que tornem mais eficaz o acesso a informações de interesse público. Se aprovada, é provável que essa seja uma das mais comemoradas leis nos 3 de maio dos próximos anos. A data celebra o Dia internacional da liberdade de imprensa.

Criado na época em que a chefe da Casa Civil era a atual presidente Dilma Rousseff, o projeto de lei não apenas aponta a necessidade de o governo brasileiro publicar informações a seu respeito (como aquelas relacionadas a despesas e regulamentos, por exemplo), mas também exige que sejam fornecidas cópias desses documentos. O principal objetivo da proposta é tornar mais transparentes as ações do governo e, assim, otimizar a rotina de funcionários públicos, pressionar os órgãos por uma atuação mais efetiva e evitar que a penumbra sobre suas ações resulte em casos de corrupção.

O princípio é bastante claro: qualquer pessoa pode ter acesso à informação dos órgãos públicos – passa a ser possível, então, verificar gastos e pagamentos, dados de serviços e qualquer outra informação que se julgue necessária. Tudo é de domínio público. Estão sujeitos à lei os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além do Ministério Público, fundações e empresas públicas, entidades controladas direta ou indiretamente por entes públicos ou, ainda, entidades privadas sem fins lucrativos que recebam recursos do governo.

Fabiano Angélico, especialista em Transparência e Combate à Corrupção pela Universidade do Chile e mestrando em Administração Pública pela FGV-SP, destaca que, conforme o texto atual, até documentos da época da ditadura, hoje em caráter de sigilo, poderiam ser consultados: “A lei prevê que o acesso público é a regra. Apenas alguns poucos documentos ficarão secretos e, mesmo assim, terão prazo para vir a público.”

Lei tem o apoio do governo

Em pronunciamento pela passagem do Dia mundial da liberdade de imprensa, nesta terça-feira, 3 de maio, a ministra-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Helena Chagas, garantiu que o governo apoia o projeto.Queremos que seja aprovado logo. É um grande passo para a democratização do acesso à informação”, disse.

No momento, o projeto tramita na Comissão de relações exteriores do Senado, presidida pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB – AL). O senador, no entanto, alega não concordar com o texto atual e defende sua redação original, de 2009, época em que havia uma disposição que garantia sigilo eterno a determinados documentos. Collor argumenta que informações sobre conflitos passados e delimitações das fronteiras brasileiras ainda poderiam causar constrangimentos desnecessários entre o país e seus vizinhos. Porém, a presidente Dilma defende o texto sem o dispositivo do sigilo eterno.

Texto é polêmica no Senado

Estagnado na comissão presidida por Collor, o projeto de lei não tem previsão para ser votado. Ainda assim, é possível agilizar a resolução do processo. Para isso, seria preciso que Dilma, que previa sancionar o documento nesta terça, 3 de maio, requeresse regime de urgência ao projeto, levando-o diretamente ao plenário.

No entanto, passadas as comemorações pelo Dia mundial da liberdade de imprensa, dois receios voltam a rondar os que trabalham pela aprovação do texto. O primeiro tem relação com a possibilidade de a comissão ceder aos apelos do Itamaraty e do Ministério da Defesa, que temem que o acesso a documentos públicos resulte em prejuízos às relações internacionais. O segundo é de que Collor, não satisfeito com o texto, faça acréscimos ao projeto de lei. Com isso, o documento, que já passou pela Câmara dos Deputados e por três comissões do Senado (Constituição e Justiça, Tecnologia e Direitos Humanos) teria de ser apreciado novamente.

Para Fabiano, a demora na aprovação deve-se a uma disputa de forças. “Informação é poder. Portanto, os detentores do poder estão reticentes em aprovar essa lei, que vai dar mais informação e, assim, mais poder à sociedade”, diz. “Além disso, há muita desinformação sobre esse projeto, tanto por parte de parlamentares como por parte da sociedade civil.”

“O Brasil precisa abrir suas informações”

Planejado para concentrar informações e notícias sobre o andamento do processo, o Fórum de direito de acesso a informações públicas apresenta, desde 2004, a visão de muitos especialistas na área. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, também publicada no portal, o especialista inglês Andrew Puddephatt foi enfático: “Governos transparentes são mais capazes, eficientes, honestos e eficazes.” Por outro lado, pontuou, “os mais fechados são o oposto: ineficientes, muitas vezes corruptos, e sem uma capacidade real de atender as necessidades de sua população.”

Ao ser perguntado sobre quais os principais usuários dessas leis em países que aprovaram a medida, o estudioso do campo da liberdade de expressão apontou jornalistas, empresários e ativistas de organizações não governamentais. No entanto, garantiu que o fato de recorrer ou não à possibilidade de acesso à informação varia conforme o lugar. “No Reino Unido, 320 mil pessoas solicitaram informações, em três anos, após a promulgação da lei”, apontou. “Na Suíça, foram apenas 500.”

Puddephatt aproveitou para antecipar a situação do Brasil, caso Dilma sancionasse a proposta. “A maior parte dos pedidos de informação também terá como destino os governos locais, ou seja, as prefeituras”, opinou.

Pilares do projeto

Apoiado por uma série de organizações, entre elas, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo – Abraji, Associação Nacional de Jornais – ANJ, Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj e ONGs como Artigo 19 e Transparência Brasil, o projeto teve sua primeira versão criada em 2003, no início do governo Lula. Em 2009 foi elaborado um novo projeto, o que hoje está no Congresso.

A Lei de acesso à informação pública está embasada em três artigos: o artigo 5º, que garante o direito ao acesso a informações dos órgãos públicos – sejam elas de interesse particular, coletivo ou geral – e, em caso contrário, prevê pena de responsabilidade; o artigo 37, indicador de que a administração do poder público deve obedecer a princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, garantindo o acesso dos usuários a registros administrativos e a informações sobre atos do governo; e, por fim, o artigo 216, que aponta a necessidade de a administração pública gerir a documentação governamental e possibilitar sua consulta a quem quer que seja.

Como facilitar o acesso à informação

Aprovada a lei, todos os órgãos públicos estariam automaticamente obrigados a viabilizar suas informações por meio da criação de um serviço específico para esse fim. Deveriam estar aptos, então, a atender e orientar o público, informar sobre a tramitação de documentos e registrar protocolos. Além disso, promete-se incentivar a participação popular por meio de audiências e consultas públicas.

Nessa função, a internet também tem papel importante: por meio da web, páginas eletrônicas devem disponibilizar informação clara para leigos e, ao mesmo tempo, suprir a demanda daqueles que trabalham com dados mais complexos. Apenas municípios com menos de 10 mil habitantes estão dispensados da divulgação por esse meio.

O que pode ser mantido em sigilo

Informações consideradas sigilosas estão classificadas em três níveis: ultrassecreto, secreto e reservado – seus prazos de sigilo são, respectivamente, 25, 15 e cinco anos. Depois do tempo previsto, a informação acaba automaticamente por se tornar pública. Classificam-se como sigilosos dados que possam por em risco planos e operações estratégicas das Forças Armadas; que prejudiquem projetos de pesquisa ou comprometam atividade de inteligência, como investigações ou processos de fiscalização; que ofereçam risco elevado à estabilidade financeira, econômica ou monetária do país ou prejudique a condução de negociações ou de suas relações externas.

Documentos que relatem condutas de violação de direitos humanos praticados ou por agentes públicos ou a seu mando não poderiam, segundo o projeto de lei, ser classificados como sigilosos.

Em outros países

Em países como Estados Unidos e Canadá, que já aprovaram projetos na área em 1966 e 1983, respectivamente, os maiores usuários de leis de acesso à informação, com 40% a 60% dos pedidos, são os empresários. Nos Estados Unidos, por exemplo, o governo já oferece pastas de dados em caráter aberto, como o Data.gov. O mesmo ocorre na Inglaterra, com o Data.gov.uk. A parcela restante é preenchida por imprensa, especialistas e sociedade civil. Na América Latina, doze países já aprovaram leis do gênero – o mais recente deles, El Salvador, em 3 de março.

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9 de Junho de 2011 às 3:32 pm

A arte de desenhar páginas

Marcelo Grisa
Estagiário de Jornalismo

O jornalismo contemporâneo oferece uma vasta gama de atuação. Muitos se interessam por TV, rádio, impresso, online… Mas há outra escolha, que muitas vezes nem é considerada pelos futuros profissionais: a diagramação. Sem perceber, jornalistas recém-formados estão abrindo mão de um nicho que poderiam explorar.

Quem vê um mercado promissor na área é o professor de Jornalismo Carlos Jahn. Para ele, mesmo que alguns ditem um possível desaparecimento dos meios impressos, há alternativas cada vez mais numerosas. “Os dispositivos móveis e a digitalização estão ampliando as demandas”, explica Jahn. Além disso, o docente, que ministra disciplinas de Planejamento Gráfico no curso de Jornalismo da Unisinos, cita três outros ambientes que requerem hoje a atuação do diagramador: a televisão, objetos para Educação a Distância (EaD) e a própria internet.

Diagramar: por onde eu começo?

Para a jornalista Ana Cristina Machado, que hoje integra a equipe de diagramação do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, essa é uma área em expansão: “Sempre vai ter espaço para quem é talentoso, dedicado e tem metas na vida”.

A diagramadora ressalta que esse mercado não foi sua primeira escolha na carreira: “Fiz Jornalismo achando que um dia seria repórter esportiva”. Porém, a jornalista encontrou na diagramação uma área de interesse e afinidade. A carreira começou dentro do próprio ambiente universitário. Em 2001, a profissional foi contratada pelo jornal O Sul. Quatro anos mais tarde, integrava a equipe de Zero Hora. Um ano atrás Ana Cristina foi chamada para ser diagramadora do jornal carioca.

Para aqueles que querem ingressar nesse mercado, a formação e domínio das técnicas e ferramentas é importante. O professor Carlos Jahn explica que alguns conhecimentos são vitais. “O jornalista necessitará conhecer campos como o do design gráfico e de arte, entender como o design de diferentes plataformas dialoga.” De acordo com Jahn, saber quais são as grandes tendências culturais do mundo também auxilia na criação.

É de conhecimento geral – ao menos para quem já passou por alguma disciplina ou curso sobre o assunto – que a principal ferramenta a ser dominada pelo diagramador na atualidade é o InDesign. Ana Cristina concorda, mas fala que em alguns lugares isso pode ser diferente, dependendo da proposta. O Globo usa um programa italiano, o GoodNews. A base dele tem menos variantes que o aplicativo da Adobe; mas, de acordo com a diagramadora, ele é mais rápido que o concorrente, sendo direcionado para jornais de fechamento diário.

Além do próprio InDesign, ferramentas de edição de imagem (como o popular Photoshop), criação de imagens (como o Ilustrator e o CorelDRAW) e até mesmo modelagem em 3D (Maya, 3D Studio) são válidas para tornar o trabalho mais rico.

Mesmo que as ferramentas possam mudar, o professor Jahn aponta que algumas coisas não mudam. “Iniciei na atividade no final dos anos 70”, conta. Ainda não havia computador, e, desde então, ele já conta cinco mudanças de plataforma. O docente diz que, assim como o InDesign substituiu outros programas, como o Page Maker e o Quark Xpress, ele também será substituído cedo ou tarde. “O que segue ainda”, sublinha, “é o giz ou lápis para fazer o esboço inicial”.

Internet, uma ferramenta poderosa

Como citado anteriormente, a web é um elemento importante no campo da diagramação. Ana Cristina lembra que, para os profissionais, serve principalmente como ferramenta de pesquisa, comparação e atualização. Muitos sites são direcionados para a área, como o Design on the Rocks, com inovações gráficas em diferentes ramos. Outro, citado pela diagramadora, é o Faz Caber, que oferece um acompanhamento da escolha de cada capa da revista Época.

“As publicações impressas precisam incorporar, em seus projetos gráficos, elementos do design das páginas da internet”, fala o professor Jahn, sobre a necessidade de adaptação aos ambientes virtuais. De acordo com o docente, essa alternativa está se tornando cada vez mais comum no meio editorial.

Para Carlos Jahn, essa semelhança com endereços da rede é parte da tendência atual na diagramação. Ele também destaca a valorização das imagens, dos espaços em branco e o uso cada vez maior de infográficos. Mesmo a tipografia lembra a Web. “Os jornais se tornaram muito parecidos com revistas nos últimos anos”, esclarece. E Ana Cristina reforça essa idéia, lembrando da relação cada vez mais estreita entre o diagramador e a editoria de arte dos impressos.

Desde a queda da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo, em ação do STF em 2009, a diagramação no espaço jornalístico abriu também espaço para outros profissionais, como técnicos em Desenho Industrial ou Design Gráfico. Ana Cristina afirma que este aspecto varia muito entre as regiões do país. “Em Zero Hora, dos 20 diagramadores que existiam lá, dois não são jornalistas”, explica. Ela relata que a situação no Rio de Janeiro é diferente. “Aqui no O Globo, dos 20 que temos, apenas dois são jornalistas.” Ela diz que, em terras cariocas, a redação e a diagramação não possuem uma relação tão íntima. O trabalho é conjunto, mas as funções de cada área são bem mais definidas.

No final das contas, a jornalista afirma que, tendo diploma ou não, a qualificação é determinante: “Para pessoas qualificadas o mercado estará sempre de braços abertos”.

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9 de Março de 2011 às 5:59 pm

Inovação nas obras literárias

Ana Paula Figueiredo
Estagiária de Jornalismo

Chegou ao Brasil o livro que combina o suporte tradicional de papel com navegação pela internet. Mistério, suspense, ação, uma história cativante e vídeos que complementam o enredo. Essas características fazem parte do livro Grau 26 – A origem (Editora Record, R$ 39.90, 420 páginas), escrito por Anthony E. Zuilker em parceria com Duane Swierczynski.

Capa do livro

Lançado no Brasil em 2009, Grau 26 é considerado o primeiro livro digital interativo da história da literatura. Ganhou o nome de digilivro. Conta a história de um assassino que não se enquadra em nenhum dos 25 graus de perversidade definidos pela lei. Ele vai além: para classificá-lo é necessário um novo item, o grau 26.

Um dos autores, Zuilker, é roteirista de uma das séries de TV mais famosas da atualidade, CSI. No livro, ele desafia o leitor a se aprofundar no cotidiano do perito Steve Dark e sua equipe na perseguição ao mais amedrontador psicopata de todos os tempos, Sqweegel. Leia. Veja. Acesse. Tenha medo. Esse é o lema de Grau 26.

Para o publicitário Marcílio Guimarães, 24, de São Paulo, o tema horripilante foi a razão que lhe fez comprar Grau 26. “Comparado a outros grandes autores que costumo ler, como Stephen King, Dan Brown e Thomas Harris, o livro não é espetacular a ponto de levar o leitor a outra atmosfera, mas é fácil de ler, cheio de ação e com poucos detalhes chatos, além de ser uma história bem sinistra, com um assassino cheio de precauções. Os cuidados que o assassino toma me lembram os livros O Colecionador de ossos (adaptado para o cinema) e Dexter (adaptado para a TV)”, avalia.

Interatividade

No decorrer da leitura, ao final de alguns capítulos, códigos são oferecidos ao leitor. Por meio dessas senhas, ele é direcionado ao site oficial do livro, onde terá acesso a 20 ciberpontes. Cada uma delas contém vídeos e tem por objetivo complementar a história. A leitura pode ser realizada independentemente do conhecimento desse conteúdo digital. No entanto, a história se torna bem mais interessante quando as produções visuais são conferidas.

A universitária do Rio de Janeiro Suelen Mattos, 23, conta que a interatividade da obra foi o que despertou seu interesse em conhecer o digilivro. “É inovador”, entusiasma-se. “Tenho uma imagem real na mente quando leio o livro e fico super ansiosa para chegar na próxima cyberponte. Simplesmente não consigo largar. Leio em tudo que é lugar: em casa, na faculdade e até nos ensaios do coral.”

Os vídeos possuem produção com qualidade de cinema e são dirigidos por Zuilker. No elenco, aparecem, entre outros, Bill Duke (de Dragão Vermelho e O troco) e Michael Ironside (de O exterminador do futuro: a salvação). Para ter acesso aos vídeos, é necessário realizar um cadastro no site. Assim, o leitor pode conhecer os conteúdos e debater com outros admiradores da obra. As produções trazem legenda em português e duração de dois a quatro minutos.

O professor do curso de Comunicação Digital da Unisinos Tiago Lopes leu todo o livro e diz que a trama deixa a desejar. “Em matéria de enredo, a história é fraca”, lamenta. “Mas a idéia dos vídeos é interessante por causa da convergência de mídias que responde ao novo contexto digital. É uma nova possibilidade de narrativa.”

Tiago salienta que o mais importante da interatividade é a comunicação que a obra pode proporcionar: “O que destaco como relevante é que o leitor, ao se cadastrar no site, tem a possibilidade de trocar informações com outros leitores e pode ficar a par do que o autor escreve no blog e do que é divulgado nas outras redes sociais”.

Controvérsia

Ainda há divergência de opiniões quanto à forma diversificada de construir o processo narrativo de Grau 26. Na Internet, alguns leitores afirmam não ter gostado do livro pelo fato de os vídeos limitarem a imaginação referente aos personagens.

O professor do curso de Letras da Unisinos Cláudio Zanini discorda. Para ele, o método narrativo de Grau 26 parece rico em conteúdo: “É um caminho natural, além da facilidade de acesso à internet que há atualmente. Espero que haja mais livros desse tipo, assim o livro impresso será popularizado”. No entanto, Zanini afirma que os vídeos podem prejudicar leitores mais velhos que possam se interessar pelo livro, mas que não têm acesso à internet.

O que ninguém põe em dúvida é o quanto há de inovador na combinação de volume em papel e vídeos na web.  “Acredito que é uma grande estratégia de marketing, pois a história fica bem gravada na mente, e instiga o leitor/espectador a querer saber mais, a ler mais, além de ilustrar aquilo que acabamos de ler e facilitar na compreensão dos textos”, afirma o publicitário Guimarães.

A bibliotecária do Rio de Janeiro Adriana Ornellas, 25, que comprou o livro mas ainda não leu, conta que a temática foi o que lhe chamou atenção na obra. “Sempre me interessei por livros com serial killers e/ou psicopatas. Leio livros e vejo muitos filmes do tema”, declara. Para ela, a união de texto e vídeos numa mesma obra é um ponto positivo. “Pode-se ler e assistir os vídeos em momentos diferentes. É um enriquecimento para a história”, comenta.

Próximos capítulos

O livro, que será uma trilogia, terá sua segunda parte lançada ainda este ano no Brasil. A terceira e última parte deve chegar em 2011.

O professor Tiago Lopes prevê que os próximos títulos não vão cativar tanto o público quanto o primeiro. “Não acredito que as sequências farão tanto sucesso”, arrisca. “Se os vídeos fossem disponibilizados em outras mídias como o iPad, em que texto e vídeos ficassem concentrados num mesmo espaço, facilitaria mais a leitura”.

Lopes afirma que, para esse tipo de interação entre mídias, a história deve ser interessante. “Não sei se a ideia daria certo ou faria sucesso com outros temas, mas creio que tudo depende da história do livro”, complementa.

Cauteloso e metódico, o antagonista Sqweegel é um assassino que nunca deixa pistas. Não possui um modus operandi como outros assassinos. Veste uma roupa branca, colada ao corpo, com um zíper na boca e aberturas nos olhos. Tem imensa flexibilidade e elasticidade com o corpo.

Suas vítimas podem ser qualquer pessoa, com exceção de bebês – ao menos por enquanto. Qualquer um pode ser o método utilizado.

Jogo

Além do livro Grau 26, há outra novidade para os fãs do personagem Sqweegel: um jogo em que o internauta é convidado a desvendar os enigmas deixados pelo assassino. A exemplo do que ocorre na série CSI, escrita por Zuilker, é necessário observar com atenção a cena e encontrar a palavra chave que permitirá o acesso ao próximo enigma. Isso ocorre sucessivamente até que a “vítima” seja salva.

A universitária Suelen conferiu o jogo, mas não ficou satisfeita. “Joguei, mas não gostei muito. Começou super bem, chamou a atenção, mas o final deixou muito a desejar. A coisa ficou meio que no ar, e foi muito rápido. Sinceramente, esperava mais”, analisa. Para o publicitário Marcílio Guimarães o jogo não despertou interesse: “Eu vi, mas não joguei”.

Mesmo com todas as novidades que surgem a cada momento, as redes sociais, as tecnologias, o professor Cláudio Zanini não acredita que o livro impresso chegará ao seu fim. “Essa ideia é uma besteira”, afirma. “Por mais que o computador ofereça alternativas diferentes para leitura, nunca será igual ao livro tradicional.”

Assista um dos vídeos que complementa a história:

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28 de Setembro de 2010 às 6:18 pm

Angelina Jolie falando português?

Gabriela Schuch
Estagiária de Jornalismo

Sábado à noite, dia de ir ao cinema. Tudo parece perfeito: boa companhia, BR-116 excepcionalmente colaborando para evitar atrasos, vaga no estacionamento do shopping.

Você chega com uma folga de tempo e pensa estar tudo correndo muito bem. Até chegar ao mural de filmes em cartaz. É quando descobre que não existe opção de filme legendado. A solução para seu final de semana será ver Angelina Jolie interpretando uma agente da CIA… em português.

Foi-se o tempo em que filme dublado era exclusivo para o público infantil. Atualmente as distribuidoras de longas-metragens adotaram um processo misto de alimentação dos cinemas – tanto com cópias no idioma original, com legendas em português, quanto com cópias em versão nacional, dubladas e sem legendas. Nessa divisão, se repartem também as opiniões.

Há quem diga que a cópia dublada descaracteriza o filme, e que possíveis faltas de sincronia entre voz e o ato falado trazem uma impressão irreal aos diálogos. É o caso de Ricardo Dias, 23 anos, estudante de Sistemas de Informação na Unisinos. Com um grande apreço pelo cinema, ele se diz contrariado quando um filme não está disponível em sessão legendada. Conta inclusive que deixou de ver o que queria e optou por um filme menos atraente em razão da cópia do primeiro ser dublada.

“Escolho legendado principalmente pela qualidade do som ser superior, além da maior fidelidade das legendas ao que está sendo dito”, justifica Ricardo. “Em muitos casos as traduções são completamente diferentes do original mudando drasticamente o contexto da história”

Dublagem boa é a que não se percebe

O filme Se beber, não case é um bom exemplo de descaracterização na relação legenda/dublagem. A começar pelo título: The Hangover, algo como “a ressaca”, em uma tradução literal. Uma das cenas consideradas pelo grande público como a mais divertida do longa-metragem consiste em um palavrão cantado por um dos personagens. Na dublagem, a entonação se perde, e a palavra é outra, mais recatada.

A estudante de Psicologia da Unisinos Danielle Alves de Jesus, 23 anos, prefere legendas, mas assistiu ambas as versões. Observa: “Aquilo que era engraçado perdeu completamente a graça”.

“Dublagem boa é aquela que não rende comentários”. Tal afirmação vem da dubladora e tradutora Cristina Nastasi. A tradutora – envolvida no processo de redublagem de  Jornada nas Estrelas– defende sua categoria.  “As pessoas costumam falar mal do trabalho dos outros, um trabalho que não conhecem e que costumam simplificar, achando que não há mistério em exercê-lo”. Ela explica que, devido ao fato de existirem vícios de linguagem na expressão oral, por vezes oscilações na tradução literal tornam as críticas inevitáveis.

Pesquisa traça perfil dos frequentadores

O Sindicato dos Distribuidores de Filmes do Rio de Janeiro publicou em seu site uma pesquisa que traça em 277 páginas o perfil dos frequentadores de salas de cinema no Brasil. Ao todo, os espectadores foram separados em três categorias: habi­tual (aquele que vai ao cinema pelo menos uma vez a cada 15 dias), médio (ao menos uma vez a cada três meses) e eventual (ao menos uma vez por ano).

De acordo com o estudo, a preferência pela dublagem se concentra entre os espectadores dos tipos médio (57%) e eventual (69%). No caso do público habitual, há um empate técnico: 46% preferem filmes dublados, e 47%, legendados.

A dona de casa Almeci de Oliveira, 33 anos ilustra o perfil de frequentador médio que aderiu aos filmes dublados. Inicialmente, foi para acompanhar seus filhos, de 14 e 10 anos. Hoje, a opção por dublados tornou-se hábito familiar, inclusive para filmes assistidos somente com o marido. “Não tenho mais paciência para ficar lendo e sinto que entendendo melhor o filme quando ele está em português”, reconhece.

Em países da Europa, dublados já dominam

O diretor do sindicato, Jorge Peregrino, alerta para o fato de que filmes dublados não são uma tendência exclusivamente brasileira. No México, a mesma tendência está se revelando, assim como na Alemanha. Na França, atualmente 80% das bilheterias são compostas por filmes traduzidos para o francês. A Itália é um exemplo onde a mania chegou ao extremo: todas as bilheterias são oferecidas com dublagem para o idioma italiano.

Jorge Rodrigo, responsável pelo atendimento ao público da Rede Cinesystem no Rio Grande do Sul, ressalta a importância de pesquisas como aquela realizada pelos distribuidores. “A decisão por filmes dublados ou legendados é feita com base em análises do público e principalmente do filme em questão e não necessariamente em relação ao gênero do filme”, sublinha. “Sendo assim, as redes de cinemas tendem a convergir com os dados do mercado.”

Sobre a onda de dublagens, o funcionário da Cinesystem afirma que toda a questão se baseia nos parâmetros das distribuidoras. Jorge Peregrino, que além de diretor do sindicato de distribuidores do Rio de Janeiro, também é responsável pelas operações da Paramount, diz que ainda não é possível dizer com certeza que o aumento de dublados é de fato uma tendência que veio para uma ficar.

Segundo ele, a escolha da distribuidora é um dado que tem que ser visto com muito cuidado. “É coisa de sensibilidade. Depende do tipo de filme”, ameniza.

31 de Agosto de 2010 às 6:35 pm

A Feira em crise

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

“A Feira do Livro de Porto Alegre precisa ser reinventada. Ela foi uma proposta ousada há mais de 50 anos, deu saltos de ousadia quando cobriu a praça para limitar o efeito da chuva, e agora é hora de ir além.” É dessa forma que o escritor Marcelo Carneiro da Cunha comenta a urgência de transformação do maior evento literário a céu aberto da América Latina: chegou a hora de a Feira inovar.

A cada final de outubro, um dos pontos turísticos mais conhecidos de Porto Alegre passa a respirar literatura. A partir da última sexta-feira do décimo mês do ano, a Praça da Alfândega, no centro da Capital, recebe a Feira do Livro.

Em sua 56ª edição, contudo, um dos eventos mais importantes do calendário cultural brasileiro pode sofrer alterações. Quem passa pela Alfândega hoje imagina ser impossível que ela vá acolher o evento, com previsão de início para 29 de outubro.

A praça está sendo recuperada pelo projeto Monumenta. As obras começaram no ano passado e devem se estender até o final do ano. Ou seja, vão seguir durante a Feira. Isso deu lugar a comentários que vão desde uma rejeição ao restauro até a tentativa de encontrar outro lugar que possa abrigar o evento

Alternativas para a praça

Vista aérea da praça, que abriga a Feira desde a primeira edição

Possíveis adaptações da praça para receber o evento dão margem a outras discussões: a Alfândega ainda é o melhor lugar para abrigar um evento desse porte? Quais seriam as alternativas que permitiriam à Feira inovar-se?

O porto-alegrense Marcelo Carneiro da Cunha, autor do livro Antes que o mundo acabe, sugere a transferência do evento da Alfândega para o Cais do Porto – local que já vem abrigando a área de literatura infantil: “O espaço mais inspirador de Porto Alegre – e a Bienal já provou isso – é o Cais do Porto, junto ao rio. A Feira deveria fazer uma intervenção arquitetônica legal nos espaços internos dos armazéns e criar espaços bacanas do lado de fora, decks e jardins e palcos. Isso, sim, seria algo para marcar e oxigenar a Feira, que anda precisando disso, e muito.”

Cláudia Laitano, editora do Segundo Caderno da Zero Hora, avalia não apenas a questão do espaço físico. Lembra que outro problema está na qualidade das obras disponíveis aos leitores: “A minha feira ideal seria um pouco menor e menos poluída por bancas que só exibem best-sellers, autoajuda e esotéricos. A Feira deveria seguir os critérios de organização de uma grande livraria, que indica para o leitor por onde ele deve circular se procura determinado tipo de livro. Seguindo essa lógica, eu teria o corredor da literatura estrangeira, o corredor da literatura brasileira, o corredor dos clássicos, o corredor dos novos autores e, vá lá, corredores também para aquelas coisas que eu não gosto de ler (auto-ajuda, esotéricos, best-sellers …)”.

Autora do livro Agora eu era, a jornalista acredita que um dos entraves de qualquer feira desse gênero é a diversidade de ofertas que aparecem durante o ano todo. “Ficou muito mais fácil e produtivo passear em uma grande livraria do que nos vários corredores de livros ruins em que ela está organizada hoje. A Feira está espantando quem compra livros com regularidade e ‘se guardava’ para comprar lá”, sublinha.

Cláudia também aponta outras modificações necessárias: “O bar deveria voltar para um local mais central na praça, e todas as bancas institucionais e de patrocinadores deveriam ser eliminadas. Com relação à programação cultural, faria menos atividades, mas mais qualificadas e aprofundadas”.

O restauro

Revitalização prevê ares retrô à Praça da Alfândega

Desde a segunda semana de março, tapumes de alumínio têm mudado a paisagem da área entre a Rua dos Andradas e a Rua Sete de Setembro. O bloqueio esconde uma nova fase do Projeto Monumenta, que prevê a revitalização completa da Praça da Alfândega.

A previsão inicial era de que a obra fosse concluída antes da Feira. Entretanto, no início de abril, a assessoria de imprensa do Monumenta divulgou uma nota oficial afirmando que a Alfândega não estaria em condições de abrigar o evento.

Em junho, a coordenadora do projeto Monumenta, Briane Bicca, declarou à imprensa que até a data da Feira do Livro seria possível a entrega do trecho que compreende o calçadão da Rua Sete de Setembro até o Cais do Porto. A coordenadora afirma que as obras devem seguir até o final do ano.

Com um custo de quase R$ 3 milhões, a ideia é dar um clima nostálgico à praça e fazer com que ela volte ao estilo da década de 1930. Calçadas mais largas, em mosaicos portugueses, jardins delimitados por cercas-vivas similares aos dos anos 20, redesenho do chafariz, do espelho d’água e da iluminação cênica da estátua eqüestre de Marechal Osório fazem parte do projeto de revitalização da área.

Saudades da cocada

A professora dos cursos de Comunicação da Unisinos Cybeli Moraes também imagina propostas diferenciadas para a Feira, mas prefere que o evento ainda ocorra em seu lugar de origem: “Eu subiria a Feira para os terraços do Margs e do Memorial, de onde podemos ver de cima as flores dos ipês que ficarão escondidos atrás daqueles horríveis biombos. Colocaria ali toda a área internacional. Essa é a parte mais tranquila, com um movimento diferenciado de passantes”.

A Avenida Sepúlveda, na alternativa de Cybeli, sobraria para o enorme barracão de autógrafos, evitando os atropelos no meio do cruzamento da praça. A professora também fecharia a Andradas até a Casa de Cultura Mario Quintana – e colocaria ali toda a estrutura de alimentação, aproveitando “aqueles maravilhosos botecos”, que poderiam entrar no clima da Feira criando cardápios especiais.

Cybeli, que durante seis anos trabalhou no Margs – cenário conhecido por quem freqüenta a Feira –, também comenta o cardápio do evento: “Exigiria a volta da cocada baiana, que não me lembro se já tinha retornado em 2009… Pra mim, Feira do Livro sem cocada não é a Feira que cresci visitando.”

Patrono da 47ª edição, em 2001, o poeta, professor e crítico de arte Armindo Trevisan defende a permanência da Feira na Praça da Alfândega. “Tudo que se fizer para salvar a Feira e mantê-la, de preferência onde sempre aconteceu, é ato generoso. A Feira pode e precisa encontrar um lugar para realizar-se em 2010 e nos anos vindouros”, comenta.

Ainda que proponha a permanência do evento na Alfândega, Trevisan sugere outros locais para a iniciativa: “Levem-na para o Gasômetro, para o Parque da Redenção –talvez o local mais indicado na situação presente –, para a Fiergs. Ou, então, façam-na dentro dos espaços da UFRGS, no campus central, ou na PUC.”

A palavra oficial

Em comunicado oficial, João Carneiro, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, entidade responsável pela realização do evento, reafirmou o compromisso da Feira com a Praça da Alfândega: “Temos um encontro há 55 anos no mesmo local, portanto, é uma tradição de todos os gaúchos e visitantes a presença da Feira dentro da praça. Mesmo com as obras, esperamos adaptar os espaços, para termos mais uma edição da Feira que agrade a todos”, diz.

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27 de Julho de 2010 às 3:37 pm

De volta aos bolachões

Natacha Kötz
Estagiária de Jornalismo

Arte da capa do álbum de Fernanda Takai lançado em vinil

A indústria musical anda um pouco conturbada nos últimos tempos. O mercado fonográfico, que começou vendendo discos de vinil, partiu para a fita cassete, que era menor e mais fácil de guardar, em seguida lançou o Compact Disc, o famoso CD, e, num pulo tecnológico, passou para o mp3. O formato, que veio acompanhado pelos downloads ilegais, fez com que algumas bandas encarassem a realidade e passassem a disponibilizar seu material em sites para downloads.

Segundo um levantamento feito pela Nielsen Soundscan, o mercado musical nos Estados Unidos e Canadá caiu 14% nas vendas de 2009, um dado bastante previsível. A novidade é que a produção dos discos de vinil aumentou em 89% de 2008 para 2009.

Enquanto algumas pessoas deixaram o famoso “bolachão” para trás, nomes como U2, Radiohead, Oasis, Bob Dylan e brasileiros como Lenine, Los Hermanos e Fernanda Takai lançam seus novos trabalhos em disco de vinil. Por enquanto, no Brasil, somente uma empresa fabrica o nosso tão conhecido LP: a Polysom. Após diversas crises e ameaças de fechar as portas, a empresa deu a volta por cima. Na segunda metade de 2008, os proprietários da Deckdisc, informados do volumoso crescimento na venda de vinis nos Estados Unidos e na Europa, e impossibilitados de produzir seus próprios títulos no Brasil, encontraram a possibilidade de adquirir o maquinário da Polysom e reativá-la. Em setembro do mesmo ano, começaram as atividades e a empresa voltou com força total.

Portadora de uma das vozes mais doces do país, Fernanda Takai lançou em março deste ano, pela Deckdisc, fabricado na Polysom, o vinil do disco Onde brilhem os olhos seus. Segundo sua assessoria de imprensa, Fernanda não acreditava que isso poderia acontecer novamente em sua carreira. “O Pato Fu chegou a ter dois discos lançados em vinil: Rotomusic de Liquidificapum, em 1993, e Gol de Quem?, em 1995. Quem tem em casa é relíquia”, falou a cantora por meio de sua assessoria.

“Não que eu ache o som do vinil melhor do que o CD, mas o ritual de se ouvir música com outro tempo de contemplação parecia mais completo. Eu me deitava no sofá de casa pra simplesmente degustar um álbum por inteiro. E isso era na época do vinil. Ou eu tinha mais tempo. Ou era mais jovem. Ou tudo isso junto”, conta Fernanda.

A qualidade do som

Enquanto CDs e DVDs utilizam a tecnologia digital para suas gravações, o disco de vinil utiliza o método analógico para captar os sons. O áudio original é analógico por definição. A gravação digital captura dados do sinal analógico numa determinada velocidade e mede cada dado com determinada precisão. Ou seja, uma gravação digital não captura o áudio em sua totalidade. Ao invés disso, aproxima o resultado final ao máximo que pode do original.

Segundo os seus entusiastas, os discos de vinil possuem detalhes musicais que refletem as ondas do áudio original. Assim, nenhuma informação é perdida, como acontece na gravação feita digitalmente. Portanto, as ondas sonoras de um disco de vinil podem ser mais precisas, o que atrai colecionadores e profissionais do mundo da música.

Colecionadores

Embora pequena, a demanda ainda existe, e a capital gaúcha está se aprimorando na venda dos discos de vinil. A Livraria Cultura, localizada no Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, tem uma área reservada para a venda do produto.

Parte da extensa coleção de vinis de Matheus Mossmann

O funcionário da área comercial da livraria Ronaldo Martins aponta o que leva o consumidor a procurar discos de vinil. “Alguns são colecionadores, outros procuram pela arte da capa, outros pelo formato, há quem se impressione até pelo cheiro do disco novo”, conta. “O mais curioso é a faixa etária do consumidor, que varia entre 25 e 85 anos”. Martins afirma que os estilos mais procurados são os estrangeiros como jazz, blues e rock. “Mas não posso esquecer de mencionar os Beatles. Eles sempre foram os mais procurados.”

O colecionador Matheus Mossmann, de 25 anos, que junta LPs desde a infância, não abre mão do famoso “bolachão” até hoje. “Minha maior motivação é o fato do som me agradar mais, principalmente os graves, e também a parte gráfica da coisa, que me atrai bastante, levando em conta que os encartes estejam conservados”. Mossmann, que costuma adquirir discos para a sua coleção em sebos da Borges de Medeiros, em Porto Alegre, considera os preços um pouco elevados, mas afirma valer a pena. “É diferente você comprar um vinil do Led Zeppelin no final dos anos 90 e comprar um agora, quando o custo como item raro aumenta o valor. Geralmente eu pesquiso bastante e aproveito os ‘balaios’, onde tem peças não tão raras, mas que fazem a alegria da agulha do meu aparelho, às vezes, por um punhado de moedas”.

O colecionador sintetiza o prazer de ouvir um disco antigo: “A portabilidade da música facilitou muito as coisas. Mas prefiro sim ficar na frente do meu aparelho de som três-em-um da Toshiba 1986 com aquelas caixas de som gigantes do que ficar ouvindo meu Mp3 Player na volta pra casa da faculdade”.

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2 de Junho de 2010 às 6:00 pm



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