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Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
Já estou convencido de que o pior da queda da obrigatoriedade do diploma é ter que falar mal da minha futura profissão, apelando pra mentira. Sim, mentir que o jornalismo não é lá essas coisas, não tem graça (a mentira) e paga salários infames (a verdade), tudo praqueles amigos que fazem cursos como Medicina, História ou Bioquímica não pensarem em virar concorrentes no mercado. Esses dias um amigo do Direito falou que iria virar jornalista jurídico. Minha sensação foi como de um aluno da terceira série que leva um cuecão de um da oitava. Assédio moral, daqueles de engolir o choro ou os palavrões.
Por que raios um advogado, um professor ou um pesquisador vai querer entrar numa redação pra viver estressado e mal-pago? Jornalismo é um saco, meus amigos. Entendem? E agora, então, com a internet engolindo a mídia tradicional, não vai sobrar uma redação de jornal sequer pra virar museu. Eu é que vou virar matemático e concorrer com os acadêmicos da licenciatura. São algumas balelas que já ando espalhando por aí.
Outro desdobramento curioso da gentileza do STF: agora até quem não diferencia uma caneta de uma enxada sente-se no direito de ter pena de um estudante de jornalismo. “Coitado, era tão feliz”. Deixa. É aquilo que aprendemos como a teoria do agenda-setting. Um assunto só vira pauta da sociedade quando a mídia resolve noticiar e insistir nele. E lá vai a fragilidade da nossa classe virar papo de boteco. Por que não debatem a fragilidade do cérebro do Gilmar Mendes?
Mas após cinco cervejas a gente fica confiante, meus amigos. Estou convencido de que um dia iremos dar risada disso tudo. Dar risada de ser comparado com cozinheiro pelo Mendes. Dar risada de ver nosso nobre ofício ao alcance dos iletrados. Gargalhar de um dia termos lido um título mentiroso como “estudantes se manifestam contra queda do diploma”. Que diploma que caiu, cara pálida? Caiu sua condição de pré-requisito pro profissional de redação, mas nunca sua importância pra verdadeira formação do verdadeiro jornalista. Sim, tô acreditando nisso. Não é com o álcool que a verdade aparece?
25 de Junho de 2009 às 3:06 pm
Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
Tenho inveja de quem sabe falar bem, de forma clara e com eloquência em boa medida. A dificuldade que tenho para me expressar oralmente é de dar pena. Foi por força disso que desenvolvi o costume de escutar bastante e falar pouco além do necessário – considerando somente os dias de sobriedade. Mais por necessidade do que por filosofia. De qualquer forma, conforta-me a frase do Buda, no primeiro dos oito passos para a iluminação: “Se não tem nada de útil a dizer, guarde o ‘nobre silêncio’”. Só não sei se ele praticava a própria doutrina, pois tudo o que se conhece do budismo vem dos seus discursos falados. Também não dá pra confiar muito em gordo que prega jejum, mas vá lá.
Meu problema começa com a falta de concentração na formulação do pensamento que irá virar fala, e vai até o desastre da língua presa à la Romário, o que causa algum constrangimento na hora de falar, tão logo as palavras vão saindo. Por isso, muitas vezes encurto frases e acabo inibindo bons e maus argumentos que poderia expressar. É como o canhoto, que escreve encobrindo o que acabou de escrever e geralmente se frustra quando vê o resultado do que fez. Preciso acrescentar que sou canhoto também? Até pra falar!
Pior do que falar pouco, só mesmo falar demais. Há quem consiga falar até dez palavras por segundo, pelo simples prazer de não dizer nada. Estes ainda costumam se expressar em alto som, imaginando sempre grandes platéias a lhes ouvir. É impossível ficar indiferente a eles, em qualquer ambiente. Talvez um zen-budista consiga.
Porém, o que consegue ser ainda pior é a intrínseca ligação entre o vício da tagarelice com a inabilidade de escutar o que vem do outro. Acaba em frustração qualquer tentativa de diálogo com uma pessoa que nasceu pra discursar. Nestas conversas, em que não há interlocução, me sinto uma mera paisagem no ambiente de quem está com a palavra.
É por isso que prezo inestimavelmente os que sabem conversar. Que geralmente são aqueles que têm o que dizer, e quando não têm conseguem curtir um instante de silêncio, ou apenas ouvir o que seu interlocutor tem a dizer. Conversar deve ser sempre uma troca, não importa se o outro tenha a língua presa.
2 de Junho de 2009 às 3:53 pm
Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
São Leopoldo é, com certeza, o lugar mais quente da Terra. Disso não tenho dúvidas, nem meus conterrâneos de São Chico de Paula, aquela que só de digitar o nome já me dá saudade. Saudade de levantar da cama empurrando para o chão um par de cobertores e um ou dois gatos. Abrir a porta de casa e contemplar a geada no gramado e as jovens de bochechas rosadas indo para a escola, sozinhas ou em turmas encarangadas.
É no primeiro dia realmente frio que passo em São Leopoldo, tirando a jaqueta do armário (a coitada cegou quando viu a luz), que vêm à minha mente as melhores lembranças do último inverno, de férias na terrinha, em cima da serra, lendo em frente ao fogão à lenha, ladeado então pelas xícaras de café, numa inigualável sensação de conforto. Que bem para a alma fazem as baixas temperaturas serranas.
Já vislumbro no horizonte aqueles finais de semana de acumular casacos, blusões e jaquetas, assessorados por toucas, luvas e cachecóis, pra sair e encontrar com os amigos, os que amam e os que reclamam da viração do clima. E se engana quem pensa que uma cerveja não desce bem no inverno. Se o local estiver bem aquecido, com uma lareira ou fogão – e bastante calor humano – fica pra lá de especial.
É no inverno que as mulheres expõem sua verdadeira beleza, seu charme e bom gosto. No verão, quando todas estão vestindo as roupas da moda, salientam-se as curvas e as protuberâncias, mas parece que o mundo se divide apenas entre as bonitas e as não-bonitas, e todas ficam bem parecidas. No inverno, as mulheres sabem como se diferenciar e se mostrar únicas. E as conquistas desta época sempre me parecem mais memoráveis, e não por acaso, meus relacionamentos mais duradouros sempre começaram por volta de julho, agosto ou setembro.
O blues e o jazz casam melhor com o frio, também o samba-canção. As linhas cometidas para o futuro fluem sem o parto mental do verão. O calor é mais para samba-enredo e pagode, Rock N’ Roll. Favorece o movimento, desfavorece a contemplação.
Prefiro o frio.
20 de Maio de 2009 às 3:12 pm
Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
A primeira é inesquecível
Os leitores do Portal 3 certamente já deram uma espiada na reportagem “O Brasil Cabe Aqui”, trabalho em que contei um pouco da vida de pessoas que atravessam o país e, por diversos motivos, vem estudar na Unisinos. Fora o prazer do texto, gostaria de falar um pouco deste pessoal, que tornou o trabalho tão agradável e inesquecível como experiência.
Em primeiro lugar, é necessário dizer o quanto esta galera nortista/nordestina facilitou a vida do “repórter inexperiente” aqui. Todos falam pelos cotovelos e não precisam esperar pela próxima pergunta para se expressar livremente. E as histórias de cada um valeriam reportagens individuais igualmente interessantes, pelo tanto que eles guardam de memórias da terra que deixaram, pelas percepções aguçadas do que já viram do sul e pela forma como a saudade invade seus corações nos rigorosos invernos gaúchos.
Ficou de fora, por exemplo, a experiência de Evana como dançarina de Carimbó, a militância Brasil afora do esquerdista Rafael, o livro editado pela Rafela, de forma independente, e a odisséia para vendê-lo de maneira ainda mais independente depois e tantas outras. Ouvir boas histórias e contá-las depois é – não resta dúvidas – o que faz do jornalismo “o melhor ofício do mundo”, nas palavras de Gabriel García Márquez e nas minhas também.
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Dupla decepção
Sou um leitor satisfeito da Zero Hora de domingo, principalmente das páginas de esporte. Geralmente o pessoal lá “se puxa” pra fazer perfis criativos, coberturas aprofundadas e às vezes um pouco do lado B do futebol. Há dois domingos atrás vibrei com a primeira reportagem de uma série que fala do futebol na África, continente que recebe a Copa de 2010. A reportagem ocupou duas páginas e teve um tratamento gráfico bastante elogiável, além de um texto impecável.
Como a série tem no mínimo três ingredientes que eu venero – futebol, reportagem e pé na estrada – recortei pra tê-la arquivada. Mas no sabadão à noite, quando vou ler a segunda reportagem vinda da África, me deparo com um texto de duas colunas e uma foto das mais despretensiosas. Foi-se o encanto na hora.
E, por último, nunca tinha visto uma edição que não desse uma linha sequer sobre Grêmio ou Inter. Tá certo que o domingão foi todo colorado e o tricolor ficou secando na TV (até os 20′), mas será que não tinham nenhuma notinha, na gaveta que seja, pra falar do Grêmio? Não falo como torcedor – sério, não há sentido em disputar nota de jornal – mas como alguém preocupado com o jornalismo esportivo. Que mancada da ZH.
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Jazz nas sextas
Estreia nesta sexta-feira na Radio Web Portal 3 o Jazzeira, programa idealizado e apresentado pro este que vos escreve. Em 15 minutos, o ouvinte terá o fino do jazz tocando no seu player, com informações sobre artistas e álbuns mais importantes e os emergentes do jazz contemporâneo. No primeiro programa, o trompetista Miles Davis, ícone do cool, gênio inovador e sempre controverso e a cantora e baixista Esperanza Spalding, menina prodígio que aos 21 anos ensina música em Berkeley e grava discos primorosos, onde mostra influências diversas, entre elas a MPB . A americana canta em inglês, espanhol e até português (ouvir a versão de Samba em Prelúdio, de Baden e Vinicius) O programa vai ao ar às 18h.
20 de Abril de 2009 às 7:28 pm
Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
Quiz futebolístico: o que o volante argentino Guiñazu, o técnico Celso Roth e eu temos em comum? Deixo uma linha em branco para o leitor pensar.
A resposta é que todos nós estaremos acompanhando a Libertadores 2009 somente pela televisão. Guiñazu por escolhas duvidosas na carreira (seu ex-time o Libertad, tem hoje a melhor campanha do torneio), Celso Roth por escolhas duvidosas no Gre-Nal do 3-6-1 e eu por não ter nascido boliviano, pois jogaria no Aurora fácil, fácil.
Todos nós vimos um bom time de futebol contra o Aurora, dois dias após um Gre-Nal em que nada se viu do time de Roth. De Victor a Maxi López, o Grêmio entrou em campo com 11 bons jogadores. O problema: onze bons coadjuvantes. Substituindo qualquer um dos homens de frente por um craque fora de série, o time vai crescer indubitavelmente.
Desde que acompanho a Libertadores, não vi um time brasileiro fazer a festa sem uma dupla de ataque indiscutível, daquelas que até a avó do torcedor sabe dizer, só de ouvir o narrador lá da cama: Paulo Nunes e Jardel (Grêmio campeão, 95), Donizete e Luisão (Vasco campeão, 98), Paulo Nunes e Oséas (Palmeiras campeão, 99), Luisão e Amoroso (São Paulo campeão, 05), Fernandão e Rafael Sóbis (Inter campeão, 06).
Insistindo no ataque, vou contar em poucos nomes porque o Grêmio não vai ao Japão desde 95: Paulo Nunes, Zé Alcino, Rodrigo Graal e Dauri (97, fim de farra nas quartas), Guilherme, Clóvis, Maurílio, Zé Alcino (98, queda nas quartas), Rodrigo Fabri, Rodrigo Mendes, Grafite e Luisão (2002, queda nas semifinais), Luis Mário, Pitbull e Rodrigo Fabri, (2003, queda nas quartas, no centenário) 2007 (Tuta, Everton, Douglas e Amoroso, vice-campeão). Poucos dos citados deixaram saudades.
Escalar o ataque do Grêmio hoje é como escolher salgadinho no balcão: hoje vou de Fandangos, amanhã vou de Doritos, depois de amanhã vou de Cheetos e depois de depois de amanhã vou de Fandangos de novo. Deveria ser como escolher camisinha: é só Jontex. Ontem López mostrou que pode ser a primeira figurinha carimbada do ataque tricolor. Mas pra saber se Herrera, Jonas ou Alex Mineiro podem formar com o argentino uma dupla de respeito, só com treino e repetição.
Herrera é, sem dúvida, o que pode evoluir mais, e Renato Gaúcho é o cara pra fazê-lo jogar o que sabe. Mas que a direção esteja atenta ao mercado é imprescindível.
8 de Abril de 2009 às 5:48 pm
Andrei Andrade
Estagiário de jornalismo
Só o tempo dirá o quão traumático terá sido para um gremista estrear seu espaço de opinião no Portal 3 homenageando o clube rival. Menos mal que os grandes feitos colorados são sempre, com boa defasagem, conquistas já devidamente comemoradas por este tricolor. Foi assim com a Libertadores, com o mundial e agora com o centenário, a ser celebrado neste sábado, 4 de abril. É inegável que a partir desse argumento fico mais confortável para reverenciar as glórias vermelhas.
Paixão clubística à parte, o que se impõe no momento é reconhecer a gloriosa história do Sport Club Internacional e a invejável condição em que o clube chega ao seu centenário, projetando 120 mil sócios (qualquer outra projeção dessas no Brasil seria piada), com o grupo de jogadores mais valorizado do país e estádio entre os poucos pré-escolhidos para a Copa de 2014. Com tantos méritos, assistir à 50ª Libertadores pela televisão é mera marolinha.
Confesso ser daqueles gremistas que não se conformam com o gol do Gabiru, com o peru do Rogério Ceni ou com a atual reserva do Clemer. Árduo secador. Mas como não valorizar o título que deu ao Rio Grande número maior de títulos mundiais do que o ufanista futebol carioca? E a água no chope da imprensa paulista, em sua maioria, que insiste em marginalizar o futebol gaúcho? Não é engraçado ver o esforço que eles fazem para criar ídolos como Thiago Neves, Renato Augusto, Lulinha, enquanto Pato, Anderson e Lucas ganham o mundo naturalmente?
Meu avô foi um grande colorado, e só por isso a avó também foi. Minha mãe é fanática, de bandeira, chaveiro, cuia e bomba de chimarrão temáticas. Só saí gremista por culpa dos doces anos 90, do time do Felipão e do cromatismo dos meio-fios pintados de azul, preto e branco em Porto Alegre em 95. Mas hoje, às vésperas do centésimo 4 de abril vermelho, nada mais justo do que parabenizar o clube da minha amada família e de tantos amigos, de indispensáveis embates retóricos e das secações recíprocas.
Encerro esta homenagem deixando um bonito trecho do hino colorado, talvez o mais amigável, pela referência à cor sagrada dos gremistas, e o menos constrangedor para ser escrito por mãos tricolores:
“colorado de ases celeiro
teus astros cintilam num
céu sempre azul”
3 de Abril de 2009 às 4:07 pm