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Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Calvo, 65 anos, bigodes brancos, especialista em reprodução humana. Certa vez ele se denominou Doutor Vida, sem modéstia alguma. Desde os anos 70, o médico (ou monstro?) Roger Abdelmassih acumula 56 acusações de estupro contra 39 mulheres. Todas elas têm algo em comum, além do constrangimento e do trauma: o desejo de ser mãe. Submeteram-se às práticas dignas de nojo e repulsa por parte do médico, que chegava a cobrar R$ 200 mil por um pacote com três tentativas de fertilização. Se Abdelmassih é um ser repugnante por abusar de suas pacientes, igualmente nojentos e vergonhosos são os comentários de alguns homens.
Há os que taxam os maridos das pacientes de “cornosâ€. Há aqueles que se perguntam o porquê de elas terem ficado caladas por tanto tempo. Poucos são os que buscam compreender o que é para uma mulher ser tocada quando não quer, ser abusada por um homem com o qual não tem intimidade. E pior: ser refém de um desejo maternal e submeter-se à s piores situações para realizá-lo. Para aquelas mulheres, que hoje sentem nojo, raiva e até mesmo vergonha, Abdelmassih era sim um Deus, capaz de dar a elas o que a natureza não conseguiu. Como passar por cima do poder financeiro de um médico e dos preconceitos de uma sociedade que ainda possui traços de machismo?
Abdelmassih pode ser um boçal, mas é esperto. Crimes sexuais que não deixam marcas de violência são complicados por natureza. Provar que foi tocada, beijada e assediada, só mesmo ao lado de outras mulheres que passaram pela mesma situação. Trinta e nove mulheres não podem estar tendo alucinações coletivas, como alega o médico. Mas tampouco podem provar que algo ocorreu entre as quatro paredes do consultório da clÃnica que ajudou a conceber os filhos de Pelé, Gugu Liberato e Tom Cavalcante.
Como estratégia de defesa, o advogado de Abdelmassih (sim, há quem o defenda) alega que o número de denúncias é insignificante diante das 20 mil pacientes que o médico tratou ao longo de sua carreira. Esse número não era nem pra existir. Um profissional que não honra o código de ética de sua profissão merecia ter, no mÃnimo, o diploma rasgado. O Doutor Vida não pensa assim. Enquanto o escândalo borbulha do lado de fora, ele permanece soberano, mas dessa vez na cadeia. Porém, não abre mão de fazer a barba e ler a BÃblia. Diz ele que é porque “mantém sua dignidadeâ€. Mas talvez sua “melhor†frase tenha sido a pronunciada em entrevista à Revista Veja. “Eu sou assim, uma pessoa sensÃvel, simpática, queridaâ€. Deve ter sido por isso que Abdelmassih não deixou marcas de violência fÃsica.
31 de Agosto de 2009 às 6:46 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Todo mês é a mesma coisa. Durante cerca de quatro dias o mundo parece estar contra nós. A calça não fecha, o cabelo parece o de um sobrevivente do Katrina, duas caixas de bombom diárias não são o suficiente e não há lágrimas que cheguem para expressar tanta dor até a próxima hora, quando tudo parece estar maravilhosamente normal.

Tente Perturbar Menos
Somente dois grupos de pessoas não sentiram na pele os sintomas descritos: os homens e as felizardas
mulheres que não sofrem de Tensão Pré-Menstrual (ou TPM, ou Tempo Para Matar ou Tocou, Perguntou, Morreu, ou Todos Problemas Misturados). A verdade é que nós, mulheres que sofrem desse mal, somos tomadas por um turbilhão de emoções e oscilações de humor repentinas. Os acontecimentos diários estão ali, do mesmo jeito. Mas eles ganham aquela dose extra de drama que só nós conseguimos dar.
O pior de tudo é que não conseguimos disfarçar. Eu, por exemplo, não tenho conhecimento do calendário menstrual das minhas colegas aqui da AgexCom. Mas eu desconfio – e na maioria das vezes eu acerto – quando elas estão naquele perÃodo tão temido pelos homens, no qual as mulheres ficam solidárias umas com as outras. Geralmente algum computador é espancado, ou os doces do Jeff, o quitandeiro da Agex, são tão desejados a ponto de clamarmos pela chave daquela que chamamos de “gaveta dos sonhos”.
Engana-se o homem que pensa que TPM é problema unicamente feminino. Nossos queridos colegas, pais, namorados, amigos e chefes são diretamente afetados por ela ou nos atingem durante o perÃodo, ainda que sem querer. Há homens que sabem lidar com isso. Simplesmente abraçam a louca da vez e pronto: realizaram sua boa ação do mês. Em contrapartida, há outros que não sabem a dimensão do drama que é estar em TPM. “É frescura, bobagem. Desculpa pra ser mimada”. Basta que eles pensem assim para o alter-ego a la Scarlett O’Hara surgir. Não respondemos por nós.
Os leitores devem estar pensando que é exagero. Mas como diz uma querida amiga minha: “TPM é coisa séria”. E ai de quem duvidar. Confesso que sou um caso extremo. Propagandas do Bourbon me causam uma comoção imensa. Tenho até uma pasta de músicas no meu computador especÃfica para esse perÃodo. Todas ao maior estilo “corno music”. É pior, eu sei. Acontece que drama sem trilha sonora não é drama. Já dizia Maysa: “Meu mundo caiu…”
O choro e a carência fazem parte da delicadeza da tensão pré-menstrual. Não vou falar a quantas fica o apetite sexual, até porque este é um espaço de famÃlia. Mas há o “lado negro da força”. A raiva que toma conta de nós quando algo não dá certo ou faz menção de não funcionar também é igualmente incontrolável – e deve ser compreendida. Prova disso é que na década de 80, duas britânicas acusadas de homicÃdio tiveram sua pena reduzida ao ser comprovado que elas estavam na temida TPM na época dos assassinatos.
Por isso, encerro o texto com um conselho. A TPM é uma particularidade da natureza feminina. Entre choros e carências há também descontrole e sopapos. Homens, lembrem-se disso antes de criticar o nosso tão frágil perÃodo.
9 de Julho de 2009 às 5:26 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Prefiro falar de 1976, quando o Beira-Rio foi palco de uma partida de futebol, e não de uma rinha de galos. Prefiro falar da vitória do Colorado em cima do Corinthians no Campeonato Brasileiro de 33 anos atrás do que mencionar o fiasco e a vergonha que foi para a nação colorada receber o adversário com provocações e cartões vermelhos.
Sou a única colorada da minha famÃlia. E faço parte da nação de fanáticos por futebol. Amo o meu time, e como em toda relação apaixonada, há um misto de amor e ódio. Ontem eu senti vergonha. Quando sentei em frente à televisão para assistir Inter x Corinthians, pela Copa do Brasil, imaginei que o impossÃvel poderia acontecer: uma vitória do Colorado por três gols a zero. O que vi foi contra o que sempre pensei sobre futebol.
Meu time entrou desesperançado em campo. O capitão argentino Guiñazú não tinha a mesma garra do chileno Figueroa, de 1976. Parecia haver mais jogadores corinthianos em campo do que colorados. E havia. Após o primeiro gol, a torcida se calou. O preto do uniforme corinthiano atingia nossos olhos como o preto do luto. As cobranças de escanteio com a câmera focando em um ângulo que mostrava a frase CAMPEÃO DO MUNDO faziam do tÃtulo uma lembrança distante.
Quanta selvageria para uma Copa do Brasil. Dois jogadores expulsos, mais de 30 faltas cometidas e – pasmem – com os técnicos punidos também. Mais de seis minutos de bola parada devido ao comportamento dos jogadores do Inter. Se alguém ali presente honrou o futebol, foi o juiz. D’Alessandro fez jus ao apelido de macaco não por fazer parte da nação colorada, mas por ter se comportado como um primata sem noção alguma de civilidade, provocando de todas as maneiras o capitão corinthiano William.
Nem mesmo os dois gols marcados por Alecsandro amenizaram a dor da torcida colorada por perder um jogo que valeria um tÃtulo e uma vaga na Libertadores. A dor foi por além de termos sido derrotados, nossos jogadores abdicaram do bom senso e não honraram a condição de seres humanos civilizados.
Episódios tristes como o do último jogo me fazem pensar que o discurso de paz nos estádios não está saturado. Ele se faz necessário em tempos nos quais a violência entre as torcidas e entre os jogadores está fazendo do futebol um espetáculo de ignorância, no qual a rivalidade ultrapassa a competitividade saudável do esporte.
Prefiro falar de 1976, quando fomos campeões, e jogamos por amor à camisa e não por ódio ao rival.
2 de Julho de 2009 às 5:53 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Celular, Sara Nossa Terra, Universal do Reino de Deus, Rosa de Saron… Um texto opinativo com limites de caracteres não é suficiente para listar as inúmeras igrejas existentes com a mesma promessa: o encontro com aquele que supostamente rege o Universo e a salvação oriunda desse contato divino.
Basta caminhar pelas ruas de qualquer cidade para constatar que o ser humano busca em estabelecimentos ricamente decorados – ou nem tanto – a promessa de uma vida e uma morte plena, por meio da chamada “transformação do caráter pela operação de Cristo” (segundo o site da Sara Nossa Terra). Isso me leva a pensar num possÃvel lema para essas Igrejas: “Onde há um ser humano aflito, estaremos lá”.
Nunca frequentei um culto. Aliás, presenciei um evento dessa natureza uma única vez. Foi na minha cidade natal, há cerca de seis anos. Entrei por curiosidade – e, confesso, por farra, já que estava acompanhada de um grupo de amigas – na Igreja Universal do Reino de Deus, em Santana do Livramento.
Quem me conhece, sabe que minhas vestimentas são quase sempre em tons escuros, predominantemente preto. É uma questão de preferência, e não uma ligação com um possÃvel culto satânico ou algo parecido. Pois minhas roupas bastaram para me caracterizar como uma endemoniada. Ao entrar na Igreja, que ocupa o que fora um grande e luxuoso cinema, fui avistada pelos chamados missionários. Pessoas vestindo branco, com um semblante demasiadamente tranqüilo. Fui praticamente carregada em direção à multidão que entoava cânticos de salvação. Naquele momento me perguntei que diabos estava fazendo ali. A sorte toda é que o culto estava em seus minutos finais, os momentos seguintes seriam destinados a doações em dinheiro. Como eu não tinha um trocado no bolso, fui embora.
Não fui salva. Aquilo não fez sentido pra mim. Minha vida não melhorou ou piorou porque ouvi algumas palavras de um pastor com sotaque nordestino que falava portunhol. Até hoje não entendi o porquê de tantas pessoas encontrarem dentro das quatro paredes de um prédio aquilo que seria a promessa de uma vida eterna. E pagarem por isso.
Durante minha vida, presenciei várias “operações de Cristo” em amigos. E posso dizer, com conhecimento de causa, que as transformações são drásticas. Os caminhos escolhidos por essas pessoas não são produto de uma reflexão pessoal, uma opção individual. A influência dos pastores e demais lÃderes é clara pelo discurso explicitamente persuasivo, no qual diz que o único caminho correto a ser tomado é aquele que leva ao encontro do Messias.
Não sou contra as crenças. Sou contra a fraqueza que muitas pessoas disfarçam com fé e obediência (a quem?). É um absurdo dizer que beber uma cerveja com os amigos ou fazer sexo antes do casamento são atitudes condenáveis. Cada um tem sua ideia de felicidade. A minha eu construà com base em conceitos individuais, naquilo que creio ser necessário para viver bem.
Para construir um caráter, formar uma personalidade ou fazer minhas escolhas? Em nome do Pai, passo longe de influências de terceiros.
25 de Junho de 2009 às 5:38 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
“Porque o jornalismo é uma paixão insaciável. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensÃvel e voraz, cuja obra termina depois de cada notÃcia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.” Gabriel GarcÃa Marquez expressa, em um de seus mais famosos textos, a paixão que me move.
Quarta-feira, 17 de julho de 2009, foi um dia de luto para nós, futuros jornalistas. A casa caiu. Por oito votos a um, decidiu-se que o diploma não é mais obrigatório para exercer a profissão de jornalista. Ao longo da sessão, fomos comparados a cozinheiros. Ministros disseram que nossa profissão não requer tantos conhecimentos quanto à medicina ou o direito. Senti-me ofendida, menosprezada, indignada.
Inúmeros são os argumentos que podem ser usados contra a decisão do Supremo. Porém, o de caráter essencial é o direito da população a uma informação de qualidade, que seja tratada democraticamente, prezando a ética e a honestidade. Para que informações com essas caracterÃsticas cheguem ao público, é preciso que elas sejam oriundas de uma prática profissional qualificada para tal, baseada em conceitos éticos e democráticos. Fica mais do que evidente que a maneira de desenvolver tais habilidades é através de um curso superior de graduação em Jornalismo. A paixão que move a nós, jornalistas ou futuros jornalistas, não é suficiente para nos tornar profissionais impecáveis como os consumidores de informação exigem.
Obviamente, não se pode fechar os olhos para a existência da chamada liberdade de expressão em nosso paÃs. Qualquer cidadão que tenha uma opinião coerente encontra na mÃdia brasileira, uma das mais democráticas do mundo, um terreno onde possa se expressar. Para tal, existem artigos assinados por profissionais das mais diversas áreas. Há espaço nos meios de comunicação para todos. Mas tal brecha não pode e nem deve tentar substituir o exercÃcio do jornalismo.
O curso superior em Jornalismo não ensina somente a escrever. A escola de jornalismo no Brasil – que teve seu embrião em 1947, na fundação da Faculdade Cásper LÃbero – traz ao aluno conhecimentos sobre aspectos essenciais da sociedade vigente, despertando assim um posicionamento crÃtico e coerente diante dos fatos, tornando-o apto para transmitir a notÃcia e os acontecimentos da maneira mais imparcial possÃvel. Aprendem-se os métodos lÃcitos para obter informações, para conservar uma fonte, para lidar com o conflito entre ideologia e interesse público. É na escola de Jornalismo que a paixão passa a ser ofÃcio, a seriedade toma o lugar da empolgação. É onde se percebe que fazer jornalismo não é somente soltar palavras em um papel, mas sim pensar nas consequências que as frases trarão e nos efeitos sociais e polÃticos resultantes de sua repercussão.
O jornalista é o porta-voz da sociedade, colocando de uma maneira coerente aquilo que a indignação não deixa expressar de forma compreensÃvel por aqueles que não possuem os conhecimentos teóricos do jornalismo. É a formação e a legitimação da profissão de jornalista que permite debates coerentes e experiências coletivas.
Manifesto aqui a minha indignação. Continuo sendo a favor do diploma, da legitimação do pensar e do fazer jornalÃstico. Apóio a ideia da aprimoração constante do ofÃcio, sem perder a paixão pela notÃcia. Tratarei sempre a reportagem como uma obra, fruto de estudo, suor, fervor e, principalmente, de uma formação legitimada. Isso é a profissão Jornalismo. E é esse o meu motivo de orgulho.
18 de Junho de 2009 às 5:15 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Dentes quebrados, alguns pontos na boca, um pé torcido inúmeras vezes, fraturas no braço direito, mais pontos na cabeça, no queixo. Esse é o saldo da minha infância. Tempo feliz de uma época pueril, interiorana, quando era necessário subir no pé de laranja para degustar a fruta até ficar com dor de barriga. Escalar muros era meu principal feito, correr atrás das galinhas que meu avô criava – e ainda cria – era uma das coisas mais divertidas do mundo. Algumas lembranças da minha época de criança permanecem em minha memória e na de alguns professores. Sem dúvida, comuns a muitas pessoas que hoje contam com a mesma idade que eu. Mas essas recordações poderiam ficar no obscuro da minha memória e ter dado lugar a outras.
Quando eu tinha cerca de três anos, meus pais já haviam adquirido uma estabilidade financeira. Eu, que até então fora criada pelos meus avós, agora teria uma babá. Lembro do nome dela: Sandra. Lembro do jeito dela. Lembro de cada detalhe daquela época. Mas não por ter sido agradável. Lembro de tudo porque Sandra bebia. Bebia e eu apanhava. Porque não queria comer, porque questionava, porque chorava, porque brincava, porque não brincava. Simplesmente apanhava. Sandra morava lá em casa, o pesadelo ficava no quarto ao lado. Nunca contei nada, sob a ameaça de que apanharia mais se contasse. Isso permaneceu por cerca de dois anos, até que me armei da coragem infantil e confessei tudo à minha avó.
Imediatamente meus pais tomaram providência. Eu lembro de tudo, mas não contarei os detalhes. Basta que vocês saibam que ela foi demitida naquela mesma noite de inverno. Não houve denúncia, eu não quis. Eu tinha medo. Meus pais ficaram com receio de que eu desenvolvesse um trauma irreversÃvel. Que não quisesse ter filhos, que fosse uma criança violenta, que não alimentasse carinho por ninguém. Aconteceu exatamente o oposto. Não desenvolvi traumas, os maus tratos da infância surtiram efeito contrário em mim. E é por isso que hoje eu tenho loucura por crianças, elas enxergam em mim a “tia legal”. Sempre percebi isso, mas a afinidade se tornou mais evidente nos últimos sábados.
Como parte da “profissão repórter” que escolhi, há dois finais de semana visito uma vila de São Leopoldo, em busca de cases, depoimentos, fatos para um vÃdeo institucional. Lá há uma associação de moradores, na qual todo sábado crianças têm aula de dança. Eu me sinto em casa quando chego. Dezenas de pedacinhos de gente ao meu redor. Umas mais falantes, outras mais quietas e outras retraÃdas em um canto. Posso estar errada – e tomara que esteja – mas de certa forma eu sei por que algumas crianças se calam.
No Brasil, mais de 500 mil crianças sofrem maus tratos por ano. Os dados são de 2008. O número cresce, infelizmente. Eu faço parte das estatÃsticas de 1989 até 1992. Eu sou um número. Mas eu tive a sorte de nascer em uma famÃlia atenta, que acreditou na minha palavra de criança. Mas e aqueles que não tiveram ou não têm a mesma sorte que eu? Os que de alguma forma estão condenados a conviver com um estigma interior? Que por sofrerem maus tratos não acreditarão na famÃlia, nas pessoas, no carinho?
Talvez sejam essas as crianças que ficam retraÃdas em um canto. Ou quem sabe elas são as que correm para um abraço de um desconhecido, sabendo, mesmo que inconscientemente, que nada de pior vai acontecer a ela do que já aconteceu em casa?
Recorri ao assunto nesse espaço que me foi cedido não para comover quem lê o Portal3 ou para escancarar a minha vida de maneira exibicionista. Minha mensagem é mais pretensiosa.
Prestem atenção ao redor. Procurem explicações para as coisas. Dificilmente elas são o que parecem ser, por mais “frase de auto-ajuda” que pareça. Tenham subsÃdios para criticar, opinar, debochar ou o que quer que seja. Conheçam quem está ao lado de vocês. Faz bem. Afinal, as coisas acontecem. Comigo, com vocês. Cada um carrega uma história diferente. A arte está em tirar o proveito certo das vivências. Eu poderia ter minha memória cheia de ódio. Mas prefiro lembrar os dentes quebrados que tive pelo tombo que levei quando tentava alcançar o meu pai para enchê-lo de beijos.
1 de Junho de 2009 às 6:37 pm
Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Será que vou conseguir não ficar no vermelho este mês? Chegarei a tempo de almoçar? Meu celular está descarregando. Calor infernal. Será que hoje as pautas estarão fracas? Pauta local, alguém tem? Preciso produzir o meu programa para a Radio Web…
Eram esses alguns dos pensamentos desordenados e sem conexão aparente que povoavam a minha cabeça quando saà da estação rodoviária de Porto Alegre, exatamente às 11:48 da manhã do dia 20 de maio. Lembro da hora exata porque consultei o relógio digital que fica na entrada da estação de Trensurb. Reparei que agora ele mostra a foto de um pastor qualquer, prometendo salvação.
Salvação que certamente não viria para aquela mulher que avistei quando fui pegar o trem – a não ser por um milagre divino ou financeiro. Frágil na condição social e fÃsica, provavelmente não tinha um lar digno. Eu desconheço o seu nome, a sua idade, a sua origem. Nada sei a respeito dela.
O que eu sei é que ela não tinha mais forças para pedir. Estendeu a mão em minha direção, e eu, com o medo egoÃsta de ser assaltada e sem trocados no bolso (porque nós achamos que qualquer moeda de cinco centavos resolveria o problema), fechei os olhos por alguns segundos, como mecanismo de defesa contra aquela realidade nua e crua que se apresentava diante de mim, enquanto eu amaldiçoava o tempo.
O que eu sei é que os olhos dela não eram olhos de mendiga, que pede e xinga quando não é atendida. Eram olhos de quem já não aguentava mais, de quem já havia sido maltratada – e muito – pela vida. Vida essa que não daria salvação à quela mulher anônima, não fossem os trocados que os estudantes, os executivos, os trabalhadores e até mesmo as mulheres da vida atirariam em seu colo.
O que eu sei é que mesmo não sabendo nada a seu respeito, a imagem dela me perseguiu até o trem, passando pelo ônibus, pela passarela, pelo Fratello, pelas pautas, pelo estúdio de rádio… Tudo isso para ficar em meus pensamentos até agora, quase 12 horas depois que nossas vidas se encontraram por uma fração de segundos.
O que eu sei é que mesmo tendo consciência de que cada um ocupa um lugar na sociedade, eu me senti culpada. Culpada por não poder ajudar, de alguma forma, a construir a salvação daquela mulher. Sem nome, sem moradia, sem esperança. Sem um milagre. Divino ou financeiro.
21 de Maio de 2009 às 3:59 pm