Quando a sétima arte não é original
Marina Cardozo
Estagiária de Jornalismo
O mercado cinematográfico atual recebe lançamentos a todo tempo, e a maior fábrica de cinema do mundo, Hollywood, parece ser uma fonte inesgotável de idéias. Histórias de fantasia, suspense, terror, comédia, drama, baseadas em fatos, livros, séries, histórias em quadrinhos. A tela grande é sempre ocupada por enredos diferentes – ou nem tanto.
O ano de 2011 promete marcar um novo recorde em Hollywood: nunca foram produzidas tantas sequências de filmes de sucesso. Segundo levantamento do site BoxOfficeMojo, o número é de 27 continuações, o que representa 20% da produção total, e bate a marca anterior, de 23 filmes, em 2003. O número de adaptações – de livros, games, HQs, etc – também é bastante alto, ultrapassando 40 produções só esse ano.
Para 2012, já estão previstos filmes como Os vingadores, baseado nos quadrinhos da maior superequipe da Marvel, e O hobbit, adaptação do livro homônimo de J. R. R. Tolkien, além das sequências das séries Homens de preto, Madagascar e A era do gelo.
“De uma década para cá, os estúdios começaram a investir em franquias pré-planejadas, como Harry Potter e O senhor dos aneis”, diz Milton do Prado, professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos. “Junto ao apelo a velhas fórmulas, que já deram certo, o aumento das sequências também indica, em geral, uma crise de criatividade no cinema.”
O que é a adaptação no cinema
Adaptação é a transposição de um conceito a outro, sem que seja alterada a essência da história. No caso do cinema, é realizar a trama de uma série, um livro, uma história em quadrinhos, um game, entre outros, em linguagem cinematográfica. Há diferenças expressivas entre uma história de um livro, por exemplo, e a de um filme. Por isso o processo é chamado de adaptação, e não de cópia.
Fernando Marés, roteirista do longa Netto perde sua alma, afirma que os estúdios sempre preferiram histórias já reconhecidas pelo público: “Desde os Nickelodeons (salas de cinema muito comuns nos Estados Unidos no início do século XX. O ingresso custava um níquel) compravam os direitos de adaptação de obras literárias e as vezes só usavam o título e o tema. São investimentos mais seguros.”
Uma característica da linguagem do cinema é que toda a informação deve ser mostrada visualmente e sonoramente, ao contrário do livro, que é descritivo e exige muito mais da imaginação do leitor.
Cada pessoa que lê uma frase de um livro imagina o cenário, o personagem, a ação de maneira diferente. Assim como os leitores, diretores, quando adaptam obras para o cinema, também interpretam a cena à sua maneira. É quase impossível que o pensamento do diretor esteja em perfeita sintonia com o dos leitores. Sendo assim, é natural que o leitor se decepcione ao ver a adaptação de uma história que leu, pois a imaginou de forma diferente.
O tempo do filme também influencia na transposição. Cada leitor tem um ritmo de leitura e considera certas partes do livro mais do que outras. A trama completa não pode ser colocada em filme, ou, no caso de livros longos, espectadores ficariam horas e horas nas salas de cinema. O diretor seleciona as partes que considera as mais importantes para ter lugar na produção.
A série de livros Harry Potter, por exemplo, é composta por histórias bastante extensas, repletas de detalhes. A quinta obra, a mais extensa de todas, com 702 páginas na versão em português, foi condensada em pouco mais de duas horas de filme. Diversas partes foram cortadas para que a trama não se estendesse demais na tela.
Para Marés, a maior dificuldade em fazer um roteiro adaptado é se desligar do material original: “É muito difícil se desprender e assumir a história como se fosse uma narrativa original própria, porém, preservando a essência da história.”
Algumas adaptações que serão lançadas em 2011:
Lanterna verde – 17/06
Harry Potter e as relíquias da morte – parte II – 15/07
Capitão América– 29/07
Cowboys & aliens– 12/08
As aventuras de Tintim – 11/11
E as franquias…
Quando um filme faz muito sucesso, é quase esperado que ele tenha uma continuação. As grandes vantagens das sequências no cinema são o lucro com as bilheterias e produtos relacionados ao filme, além da economia na divulgação da produção. A continuação não precisa de tanta propaganda, uma vez que publicidade já foi feita para a primeira obra. O público já conhece o personagem e a série de longas já tem fãs fieis, o que aumenta as chances de o novo filme ser visto. Essas séries de filmes sobre o mesmo personagem ou que continuam uma história em várias produções são chamadas de franquias.
Ulisses Costa, cineasta e professor de cinema, destaca que a maior vantagem das franquias é o retorno financeiro: “Franquias cinematográficas nunca foram novidade no cinema, e há algumas muito longevas e bem-sucedidas, como o caso de James Bond”, diz. “Entretanto, devido ao aumento exponencial de custos dos filmes de Hollywood nas últimas duas décadas, a necessidade de garantir esse retorno é maior.”
As franquias mais lucrativas de todos os tempos são Harry Potter, com sete filmes – prestes a lançar o oitavo – e 6,3 bilhões de dólares arrecadados ao redor do mundo; James Bond, com 23 filmes e mais de 5 bilhões de dólares, e Star wars, oito filmes e US$ 4,4 bilhões em bilheteria.
Em voga atualmente estão as franquias baseadas em histórias em quadrinhos, que têm ainda a vantagem de o personagem já estar no imaginário coletivo antes do lançamento do filme. Este tipo de série de filmes une a franquia à adaptação, o que resulta em mais divulgação gratuita.
“Há uma insistência em criar franquias cinematográficas em cima de ‘marcas’ já conhecidas de outras mídias,como livros, quadrinhos, séries de TV e até mesmo brinquedos”, diz Costa. Ele acrescenta: “Não é à toa que há um movimento de ressurreição de séries já consagradas no passado, como são os recentes casos de Rise of the Planet of Apes, Conan, Robocop, todos para estrear nos próximos anos.”
Homem aranha, por exemplo, já tem três filmes de sucesso com Tobey Maguire no papel principal. O quarto filme já está sendo rodado, mas com outro protagonista. Mesmo com mudanças, a série conquistou seu público fiel junto aos fãs das histórias em quadrinhos do herói. A aprovação do novo elenco por Stan Lee, o criador do personagem, deu ainda mais credibilidade à nova produção.
Algumas continuações com lançamento previsto para 2011:
Transformers 3 – 01/07
Carros 2– 24/06
Piratas do Caribe 4: navegando em águas misteriosas – 20/05
Se beber não case 2– 27/05
Sherlock Holmes 2 – 16/12
E onde ficam os originais?
Com tantas produções adaptadas e continuações de outros filmes – ou as duas coisas juntas – as tramas originais parecem escassas. Uma nova ideia, porém, pode mudar isso. A 20th Century Fox anunciou o lançamento de um programa com o objetivo de recrutar novos roteiristas para desenvolver conceitos originais.
Em comunicado à imprensa, o estúdio confirma a proposta de buscar idéias novas: “A iniciativa será dedicada à criação de ideias originais (não novas versões de roteiros existentes ou desenvolvimento de títulos de arquivo) por roteiristas emergentes”, diz o release.
O projeto, conduzido pelo ex-vice presidente da Chernin Entertainment, Nicholas Weinstock, e pelo ex-vice presidente de desenvolvimento da Lucasfilm, Steve Tzirlin, será subordinado diretamente à presidente de produção da Fox, Emma Watts. Serão dez roteiristas contratados, cinco para comédia, coordenados por Weinstock, e cinco voltados à ação e aventura, com apoio de Tzerlin.
Para Prado, a ideia é interessante. “É ótimo para quem quer entrar no mercado”, afirma o professor. “Mas não acho que vá mudar muito. O problema dos grandes estúdios não são os roteiristas, são os donos”, diz. “Eles não se interessam por cinema, apenas pelos números”, sublinha.
6 de Maio de 2011 às 5:14 pm






