Lucas Barroso
Estudante de Jornalismo
Aquele tênis custava R$ 549,90. Moderno em sua aerodinâmica, suas molas, seu solado. Sem falar na marca. Mas era made in Vietnã. Fora produzido por diversas mãos, decerto. Entre elas, a de um pequeno vietnamita que trabalha doze horas por dia. Um desses meninos que não vão à escola. O triste retrato da exploração infantil. Mas a história dele não interessa. O que interessa é a história dela. Ela estava feliz com o seu par de tênis recém-comprados. Todas as manhãs, sentia-se feliz ao calçá-los. Que belo par, dizia ao se olhar no espelho!
Por ignorância ou por desapego, fingiu não saber da história do menino. Aquela coisa de consciência tranquila, sabe? Queria ser feliz. Para tanto, não poderia muito pensar nos outros. Só de vez em quando. Era uma regra básica. Um exercício diário de sobrevivência. Muito melhor que Prozac. Como pular mendigos deitados em calçadas ou não assistir a shows promovidos pelos malabaristas nas sinaleiras. Sua vida, e de todas as pessoas que a rodeavam, era assim. Alguém sofria, alguém perdia, alguém partia para longe em nome de sua felicidade. Era doloroso pensar nisso. Mas, se pensasse, seria infeliz. E quem nesse mundo quer ser infeliz, meu Deus do céu?!
Era como a ideia de se tornar vegetariana, que volta e meia preenchia seus pensamentos. Sabia de toda a angústia daqueles animais sacrificados. Muitos eram inchados em vida para depois serem abatidos. Muitos urravam e tentavam fugir, desesperados. Mas o prazer de sentir aquele gosto… Aquela carne tenra, rolando de um lado para o outro de sua língua a fazia esquecer de tudo e todos. E ser vegetariana ficava para depois.
Para seu conforto (sim, conforto!), ela também sofria. Todo o santo dia, sofria. Era um pouco como aquele menino vietnamita, como aquele mendigo deitado, como aqueles malabaristas do sinal. Quando chegava em casa e percorria as vistas em seu companheiro, sabia, em algum lugar escondido dentro de si, que não estava satisfeita. Com ele era, apenas, mulher. Daquelas mais banais, caricaturadas até. Tinha compromissos rotineiros com a comida, com o pano de prato, com o varal, com os móveis sujos, com seus filhos, com a cama à noite.
O sexo era aquele incessante apertar de botões. O homem que vivia junto dela era seu cúmplice diário. E o pior de tudo: ele era feliz ao seu lado. Cantava a todos seu profundo contentamento. “Amo minha mulher, ela é maravilhosa!”. No fundo, ela tinha pena. De si e de seu parceiro. Provavelmente, por isso seguia. Por isso mantinha o timoneiro estático, a fim de não desviar a rota. Mas a vida não funciona como uma tabuada. E para preencher seu coração de alegria, a mulher tinha um segundo homem. Com ele, era feliz. Sorria de suas bobagens. Beijava-lhe as partes com ardor. Ajoelhava-se diante dele como fosse um santo. Pouco importava o fato de ele não a amar. Para Ela, tanto fazia. Queria ter aqueles momentos gravados no metal da sua pele. Queria aquela tarde isolada de um mês outonal como cena do filme de sua vida. Só assim, não se arrependeria. Só assim, valeria a pena sofrer.
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Lucas Barroso
19 de Junho de 2009 às 5:10 pm
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“Por ignorância ou por desapego, fingiu não saber da história do menino. ”
mto bom…
O meu, descobri q tu participou como entrevistado de um trabalho nosso, de tele III, sobre os 40 anos da unisinos…
heh…
abs