Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Adicionar

Adicionar

Consciência não tem cor

Maria Maurente
Estagiária de Jornalismo

Aconteceu aqui na Unisinos, no dia em que vim fazer minha matrícula. Andava perdida pelo campus, tentando encontrar o local onde ocorreria a apresentação do curso. Comigo, minha mãe. Acompanhavam-nos uma senhora e sua filha e mais um senhor. Os últimos três, negros. Chegamos (depois de muito desbravar a Unisinos) ao local da matrícula. Havia, na entrada do auditório (que eu não lembro bem qual era), uma mesa. Sobre ela, cadernos e carteirinhas que duas meninas distribuíam aos que chegavam.

Entramos praticamente juntos, e quase ao mesmo tempo fomos todos atendidos. A menina e sua mãe receberam a carteirinha e o caderno, em seguida uma das meninas veio atender a mim e minha mãe. Neste momento, o senhor que nos acompanhava sentiu-se ofendido. “Ei, eu também estou aqui”. A moça apressou-se. “Desculpe-me”. Não teve jeito. “É porque eu sou negro, né… Tudo bem, o preconceito blábláblá”. Constrangimento geral. As meninas, envergonhadas, não sabiam que palavras usar para se desculparem, embora não precisassem.

Posso, com esse caso isolado, analisar qualquer coisa a respeito de preconceito? A generalização é perigosa, mas me arrisco a dizer que posso usar isso como exemplo para demonstrar que o preconceito não assola somente os negros. Naquele momento, em que o senhor acusou as meninas de um preconceito que, ficou claro, foi paranóia de sua cabeça, as coagiu e constrangeu. Foi um auto-preconceito. Dele para ele mesmo.

Ontem, 20 de novembro, como bem lembrou a colega Camila Vargas, foi comemorado em todo o Brasil o Dia da Consciência Negra. A luta dos negros é legítima, e necessária, e a criminalização do preconceito foi uma conquista daqueles que sofrem com esta ignorância. Mas agora temos todos que tomar cuidado. Como também lembrou o colega Marcelo Collar ao falar sobre os eufemismos que usamos com medo de ser enquadrados em algum artigo do código penal.

Negro é negro. Não preciso chamá-lo de afro-brasileiro. Gay é gay, homossexual é um sinônimo. Preconceito é sugerir que chamar um negro de negro, ou um gay de gay, possa ofender qualquer um dos dois. Temos TODOS que deixar de lado o preconceito. Os brancos, os negros, os gays, todos.

Tenho amigos de todos os tipos, de todas as cores, das mais variadas orientações sexuais. E os amo. Não por serem negros, brancos, gays, roqueiros ou pagodeiros. Mas porque são pessoas que me cativaram. Pessoas que eu deixei que me cativassem sem levar em conta nada que não dissesse respeito à personalidade e ao caráter. Por isso, não admitiria, jamais, ser chamada de preconceituosa. O preconceito é uma questão de consciência, e consciência não pode ser branca, nem negra, nem parda. Tem que ser, apenas, limpa.

Related posts:

  1. Dia da Consciência Negra será Feriado Nacional
  2. É Preciso Consciência

TAGS
,

21 de novembro de 2008 às 5:36 pm

6 Comentários para “Consciência não tem cor”

  1. Iara Maria disse:

    Tua lucidez é a principal arma contra a ignorância que alimenta os preconceitos.
    Parabéns.

  2. Mateus Ferraz disse:

    concordo!
    ótimo texto!

  3. Luiza disse:

    Muito bom Maria, o pior de todos é o auto-preconceito. Concordo plenamente com as tuas palavras. beijos

  4. Patrícia Becker disse:

    Desculpe, mas achei o texto fraquíssimo e indelicado em relação ao senhor mencionado no relato. Sabe-se lá por quantas situações preconceituosas este senhor passou em sua vida? Como julgar uma reação de auto-defesa cometida por uma pessoa que, possivelmente, esteja acostumada a ser tratada de forma secundária e discriminatória?
    Sinceramente não sei até que ponto este artigo revela o senso comum presente nas idéias da autora. De qualquer forma, o texto, as idéias nele contidas e a maneira como formam escritos me pareceram bastante imaturos.

  5. Maria disse:

    Patrícia,

    Primeiramente, obrigada pelo comentário, críticas sempre são construtivas. Lamento que não tenha conseguido dar mais clareza às idéias que quis expressar, mas não considero indelicada a maneira como abordei a questão. Não acredito que os negros não sofram preconceito. Sofrem sim, e muito. Situações em que são constrangidos e discriminados. Não sei quantas vezes isso pode ter acontecido com o senhor ao qual me refiro no texto, mas ele não foi a ‘vítima’ do constrangimento na situação que presenciei. Foi mais ou menos isto que quis abordar. O preconceito recial é abominável e temos de ter respeito à todos, independente de sua condição. Não acredito que o fato deste senhor ser negro, ou possivelmente (e até provavelmente) ter passado por situações de preconceito ao longo de sua vida, o coloque no ‘direito’ de faltar com respeito a outras pessoas. Acho que termos, o tempo todo, ‘pena’ e ‘cuidado excessivo’ com os negros é também uma forma de preconceito disfarçada.
    Espero ter me feito entender.

    Não acredito que tuas palavras tenham sido uma tentativa de me desencorajar, mas de qualquer maneira informo que continuarei escrevendo. Este é o único caminho para atingir a maturidade.

    Agradeço mais uma vez o teu comentário.

    Att,
    Maria Maurente

  6. Iara Maria disse:

    Maria, comentários como o da Patrícia demonstram que tem sim gente que reina mais que o rei.
    Uma generalização pode ser feita a partir de um exemplo,como o que fizeste.
    Concretamente, em nenhum momento me pareceu que querias comentar a vida da pessoa. Fora isto, terias feito uma reportagem e não um artigo. Diferença aparentemente desconhecida para a Patrícia pois afinal, as pessoas não têm orbigação de saber isto.
    Ainda, e, finalmente, logo saberás que escrever sobre preconceito sempre gera descontentamentos. Ou outros preconceitos, quem duvida?

Deixe um Comentário

© Copyright 2009, AgexCOM