Paola Oliveira
Estagiária de Jornalismo
Todo começo de janeiro, um tema é obrigatório na internet: o início de mais um Big Brother Brasil. O programa que completará 12 anos de presença em uma das maiores emissoras nacionais se torna alvo de severas críticas.
A popularização da internet fez com que enormes campanhas fossem criadas no mundo virtual, principalmente nos sites de relacionamento. A campanha anti-Big Brother Brasil 2012 começou ainda nos últimos meses de 2011 e chama-se Facebook sem BBB: compartilhe coisas mais interessantes.
Em contrapartida, outros usuários não apenas defendem o programa, chamado de “lixo”, “alienação” e “fútil” por quem não quer sua página invadida pelo assunto. Se virou moda falar mal do Big Brother Brasil, agora também é moda falar mal de quem fala mal do programa.
Os críticos dos críticos os chamam de pseudointelectuais, pessoas que se acham inteligentes e adoram maldizer a cultura popular.
O jornalista brasileiro Gabriel Brust, que mora em Paris, comentou no Facebook que o problema é o excesso de tudo na internet: “A crítica ao BBB já está surrada, e a crítica a quem critica o BBB também. É preciso inaugurar a crítica da crítica a quem critica o BBB”, ironiza.
No último programa Altas horas, no dia 7, Boni, ex-produtor da Rede Globo (e pai do diretor do BBB, Boninho), fez uma réplica ao comentário de Pedro Bial, apresentador do reality show. Bial disse que gostava de ver coisa ruim em televisão, que com isso era como mais aprendia. Boni quetionou-o: “Quer dizer que você assiste BBB?”. Todos no estúdio deram gargalhadas.
Em seu blog do jornal Correio do povo, o jornalista Juremir Machado da Silva vem escrevendo sobre os fenômenos massivos.
Em 5 de janeiro, Juremir publicou um post intitulado A globalização da chinelagem. Nele, o jornalista escreveu sobre o sucesso de Michel Teló, cantor que está cotado para ser um dos primeiros a fazer show exclusivo no programa: “O cara pode ouvir, curtir, amar, mas continua sendo chinelagem”. Sublinha Juremir: “O pessoal quer legitimação. Quer curtir a sua chinelagem sem ouvir crítica. Gosto é o que mais se discute. A crítica é livre”.
O apresentador Zeca Camargo, em seu blog no G1, fez um post sobre os “786 críticos de TV – ou de qualquer coisa – que povoam aquilo que já foi chamado de território livre da internet”. Na coluna, Zeca cita Machado de Assis e Paulo Francis para se embasar e também faz uma crítica aos críticos, que, segundo ele, assim o são para ter mais audiência nos seus perfis e blogs: “Virtualmente ninguém resistiu comentar sobre a estreia recente de Mulheres ricas (reality show documental que entrou no lugar do CQC, de férias), um programa com uma ‘relevância’… E nesta semana mesmo vamos poder verificar o fenômeno acontecendo de novo – e com uma cruel distorção. BBB 12 e Dercy de verdade estreiam nesta terça-feira. Qual dos dois programas você acha que vai ser mais ‘analisado’ pelos ‘críticos de plantão’?”.
Um dia após o post de Zeca Camargo, na terça-feira, 10, o jornalista, crítico e repórter do UOL Mauricio Stycer comentou em seu blog a coluna do apresentador do Fantástico: “O BBB12 merecer mais ‘análises’ (as aspas são do Zeca) do que Dercy não é o maior problema, na minha opinião. O problema é a falta de coragem, ousadia e inventividade que domina a maior parte das cabeças no comando da televisão. O simples fato de o reality show estar programado para ir ao ar às 22h15 e a minissérie às 23h20 exemplifica isso”, analisa Stycer.
O Big Brother Brasil é exibido há 12 anos quase em horário nobre. “É um fenômeno muito complexo para responder com uma pergunta do tipo ‘De quem será a culpa por termos isso no ar?’ ou ‘Será que não chega de criticar de novo a mesma coisa?’”, avalia a coordenadora do curso de Comunicação Digital Cybeli Moraes. Ela acredita que gostar ou não de BBB ou criticá-lo é uma escolha. A professora diz que há uma série de fatores por trás: moda, afecções de quem assiste, contexto geográfico-cultural e faixa etária. “Acredito que o problema não esteja no BBB, mas no esvaziamento do que se discute nas redes: afinal, o que entendemos por crítica ou por cultura popular (ou massiva)?”, indaga.
Cybeli acha que não temos críticos que façam crítica de verdade nos veículos atuais: “Temos, sim, muitas opiniões, muitos comentários, muitos ‘eu acho’, muita gente esbanjando seu maravilhoso repertório (e outros repertórios também, não tão maravilhosos). Mas crítica de teor analítico temos muito pouca”, frisa. Ela esclarece, por fim, que cultura massiva e cultura popular não são a mesma coisa, que muitas vezes o popular não é massivo (e viceversa). A professora explica que há controvérsias sobre o que estamos realmente tentando definir quando usamos cada uma dessas expressões e lembra que não foi a Globo que inventou o Big Brother Brasil: “O que dizer da febre de realitys que invadiu as TVs do mundo inteiro? Será que temos todos a mesma cultura, o mesmo baixo nível?”, questiona.
“É quase ‘natural’ que estrelas do info-entretenimento defendam os formatos massivos, e logo, suas audiências e propostas”, diz o professor de Comunicação Bruno Lima Rocha sobre o que escreveu Zeca Camargo. Ele comenta que o mesmo Zeca Camargo que não gosta das críticas ao BBB ataca o Pânico, também um programa massivo.
Bruno salienta que não pode ser “culpa” da audiência se o universo de escolhas na televisão aberta é muito pouco e de fácil assimilação. “Que é um formato cansativo, isso é inegável, ainda mais com a pretensão poética do âncora, Pedro Bial, que troca sua reputação de ex-correspondente internacional pela animação de auditório”, avalia o professor.
“É lugar comum na grande mídia termos pessoas alçadas à condição de estrelas e estes se tornarem vigilantes dos críticos contra seus patrões” analisa o professor, citando David Coimbra e Rosane de Oliveira como exemplos no Rio Grande do Sul. Sobre a crítica aos produtos massivos feita por Juremir Machado da Silva, Bruno concorda com o jornalista: “Pouco importa a crítica dos críticos”. Ele diz que o Big Brother Brasil é terrível como símbolo porque o programa reforça cargas de valores e estereótipos de corpos e interesses culturais: “O Juremir pode e deve criticá-lo”, defende o professor, para em seguida fazer uma crítica: “Assim como pode fazê-lo com o péssimo Balanço Geral, da Record RS, emissora que o contrata”.
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11 de Janeiro de 2012 às 4:45 pm
Adorei o texto. Sem críticas… por enquanto