Quarta-feira, 08 de Fevereiro de 2012
  • Tempo agora em São Leopoldo: 35°C
  • Diplomados deflorados

    Eder Zucolotto
    Estudante de Jornalismo

    Na quarta-feira, 17 de junho, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) me tiraram o diploma de jornalista que ainda nem ganhei. Agora eu, um ateu convicto, sei como Deus, se é que ele existe, deve se sentir. Ninguém acredita mais na formação de jornalista. Um exemplo disso foi que assim que falei a meu pai do causo – pois ainda me nego a crer que é verdade o ocorrido – ele demorou alguns milissegundos pra perguntar se eu conseguia trocar de curso ainda pro próximo semestre.

    Não o culpo pela preocupação com o meu futuro. Seis semestres de curso. É metade do caminho pra ir ou pra voltar. Estou no final do primeiro tempo de jogo e mudaram as regras do campeonato. E se os juízes são do Supremo, então a decisão é suprema.

    Não sei ainda o que fazer. Sigo em frente no curso e o termino ou pego um atalho, tranco a faculdade e já saio no mercado de trabalho do jornalismo agora? Talvez, quanto antes, melhor. Assim eu não passo pelas cadeiras que discutem a ética da profissão e todas aquelas teorias e práticas que, no final das contas, vão ser uma desvantagem competitiva. Afinal, debates sobre ética e consciência sobre a produção e o impacto das matérias vão me distrair com questões menores. Pior ainda: questões que podem reduzir o lucro.

    Em meio aos meus questionamentos pessoais também tenho tempo pra ficar imaginando os pobres incautos que acabam de se formar e estão com um diploma na mão que não tem mais validade do ponto de vista de registro profissional. Caro colega – se é que ainda formamos uma classe -, ainda não é hora de se desesperar. A esperança ainda não foi revogada pelo Supremo. A vida é imprevisível (tão imprevisível quanto o funcionamento da cabeça de um juiz) e ainda podemos reaver a validade do diploma. Esse papel que, pelo menos no momento, só tem valor sentimental.

    Enquanto esse dia não chega, tenho algumas dicas do que pode ser feito com o seu querido e inútil diploma de Jornalismo. Para você que, com todo orgulho, pendurou o seu diploma de Jornalismo emoldurado num lindo quadro na parede da sala de estar, ainda há como tirar proveito dele. Pelo menos da moldura. Retire o seu diploma e o coloque naquela caixa de documentos esquecidos – como aquela conta de luz de 2003 que você ainda guarda, apesar de não se lembrar mais por que.

    Depois coloque uma foto na moldura e recoloque na parede. Pode ser aquela foto da sua mãe que a sua namorada pediu para tirar da cabeceira da cama, pois não conseguia transar com a sogra a olhando (com aquele olhar maternal, ainda por cima). Sua mãe ficará muito feliz quando for lhe visitar e ver a posição de destaque que recebeu, ao invés daquele papel feio e sem sentido. Colocar a foto da sua progenitora no lugar do diploma é um grande acerto, afinal há um risco muito pequeno que num futuro próximo os ministros do Supremo declarem que a condição de mãe perdeu a validade no mundo contemporâneo.

    Outra dica válida é aproveitar a lembrança das trocentas cadeiras de Jornalismo que você cursou e fazer um lindo origami, com trocentas dobraduras. Sua sobrinha vai adorar o presente. Se você não tiver sobrinha, pode mandar o mimo pra Associação Brasileira dos Donos de Emissoras de TV e Rádio. São pessoas que sabem apreciar um bom trabalho manual, principalmente se for feito por um amador (o que segundo a Associação dá mais mérito ao êxito). Apenas omita a informação que o artefato é produzido com um diploma do curso de Jornalismo, pois eles têm verdadeira ojeriza a tal aberração acadêmica.

    Dentre as opções há uma ótima forma de fazer um protesto velado: quando sair para a próxima pauta, leve o diploma e use o verso como bloco de anotações para sua matéria. Isso provará que o dito cujo, ou maldito cujo diploma de Jornalismo, ainda tem utilidade jornalística.

    E se você não tiver problemas com o politicamente correto – mas que diabos, agora somos livres de qualquer responsabilidade com o público – pode, devidamente munido de um fumo em corda picado (ou algo similar), fumar seu diploma. Assim, a comprovação de sua formação acadêmica se tornara tão etérea quanto a fumaça.

    Related posts:

    1. TRT suspende sindicalização de jornalistas não-diplomados
    2. Mantido veto de filiação a não-diplomados
    3. Campo Grande promulga lei que obriga contratação de diplomados
    4. Concursos públicos só aceitam diplomados
    5. Concursos públicos só aceitam diplomados

    TAGS

    29 de Junho de 2009 às 5:53 pm

    Deixe um Comentário

    © Copyright 2012, Agexcom