Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
Será que vou conseguir não ficar no vermelho este mês? Chegarei a tempo de almoçar? Meu celular está descarregando. Calor infernal. Será que hoje as pautas estarão fracas? Pauta local, alguém tem? Preciso produzir o meu programa para a Radio Web…
Eram esses alguns dos pensamentos desordenados e sem conexão aparente que povoavam a minha cabeça quando saí da estação rodoviária de Porto Alegre, exatamente às 11:48 da manhã do dia 20 de maio. Lembro da hora exata porque consultei o relógio digital que fica na entrada da estação de Trensurb. Reparei que agora ele mostra a foto de um pastor qualquer, prometendo salvação.
Salvação que certamente não viria para aquela mulher que avistei quando fui pegar o trem – a não ser por um milagre divino ou financeiro. Frágil na condição social e física, provavelmente não tinha um lar digno. Eu desconheço o seu nome, a sua idade, a sua origem. Nada sei a respeito dela.
O que eu sei é que ela não tinha mais forças para pedir. Estendeu a mão em minha direção, e eu, com o medo egoísta de ser assaltada e sem trocados no bolso (porque nós achamos que qualquer moeda de cinco centavos resolveria o problema), fechei os olhos por alguns segundos, como mecanismo de defesa contra aquela realidade nua e crua que se apresentava diante de mim, enquanto eu amaldiçoava o tempo.
O que eu sei é que os olhos dela não eram olhos de mendiga, que pede e xinga quando não é atendida. Eram olhos de quem já não aguentava mais, de quem já havia sido maltratada – e muito – pela vida. Vida essa que não daria salvação àquela mulher anônima, não fossem os trocados que os estudantes, os executivos, os trabalhadores e até mesmo as mulheres da vida atirariam em seu colo.
O que eu sei é que mesmo não sabendo nada a seu respeito, a imagem dela me perseguiu até o trem, passando pelo ônibus, pela passarela, pelo Fratello, pelas pautas, pelo estúdio de rádio… Tudo isso para ficar em meus pensamentos até agora, quase 12 horas depois que nossas vidas se encontraram por uma fração de segundos.
O que eu sei é que mesmo tendo consciência de que cada um ocupa um lugar na sociedade, eu me senti culpada. Culpada por não poder ajudar, de alguma forma, a construir a salvação daquela mulher. Sem nome, sem moradia, sem esperança. Sem um milagre. Divino ou financeiro.
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21 de Maio de 2009 às 3:59 pm
Mais um excelente texto da colega Raquel. E é isso mesmo. Já me senti assim diversas vezes. Culpada por fechar os olhos, como se não vendo eu apagasse a existência da dor alheia. E, o mais curioso, culpada por sentir culpa. Estranha contradição. Mas é assim a vida.
Parabéns, lindo texto!
Beijo.
Muito bom, Raquel! Também já passei por essa mulher, sem forças até para pedir ajuda – também me toca muito a situação dela, que está sempre perto da escada que leva à estação da rodoviária. A realidade acaba nos encontrando por mais que tentemos fugir dela. Acho a estação de trem e seus arredores geralmente um ótimo micro-cosmo do que é a vida real (nossa colega Lorena já escreveu sobre pontos de chegada e partida) – triste ou feliz, sempre comovente.
Parabéns pela opinião e sensibilidade do texto.
O descaso da “classe media”, as vezes, assusta.. Em quase toda esquina tem um que outro nessa situação e quase todo mundo faz que não vê.. Precisamos ir além da comoção….
Pra variar, belo texto..