Lorena Risse
Estagiária de Jornalismo
Durante duas primaveras ela esteve em estado de graça. Os pássaros compunham apenas para ela, as flores desabrochavam quando ela passava, a chuva cessava assim que ela abria o seu guarda-chuva, os cadarços estavam sempre amarrados, a toalha sempre seca e o café sempre fresco.
Nos pulsos, tinha o sÃmbolo de uma entrega. Nos olhos, uma lágrima de prazer, nos lábios o batom que ele gostava, nos cabelos, o cheiro de camomila. Nos seios, o perfume que o fazia dormir e, nos tÃmpanos, o som da melodia que os fazia rir.
O quarto era sempre aquecido, a cozinha era sinônimo de bagunça, o espelho do banheiro sempre estava embaçado, a sala sempre ficava cheia de migalhas de pão e o quintal tinha marcas das suas pisadas duplas.
O azul era sempre libertador, o verde sempre hipnotizante, o vermelho sempre excitante, o amarelo sempre sorridente, o branco sempre esperançoso e o cinza fora banido.
Os lÃrios a faziam desejar uma famÃlia. As rosas, uma noite de amor, os girassóis um bom dia, as tulipas traziam a inocência perdida há tantos anos e os cravos sempre ficaram guardados em caixas de madeira.
Hoje, os pulsos estão nus, os olhos procuram outros caminhos, o lábio não tem mais a mesma cor, os cabelos cheiram a erva-doce. Nos seios, o perfume é o mesmo e nos tÃmpanos a música é em outro tom.
O quarto agora é morno, a cozinha é lugar de jantares solitários, o banheiro é o palco para canções de amor, a sala está sempre arrumada e limpa e o quintal tem um balanço novo.
O azul tornou-se a cor predileta, o verde a cor dos novos olhos, o vermelho ainda era sinônimo de desejo, o amarelo era intelectualidade, o branco era sonolento e o cinza era a cor da sua blusa.
Os lÃrios enfeitavam sua janela, as rosas eram paralelas ao sexo, os girassóis eram viajantes. As tulipas, tranqüilizadoras e os cravos saÃram da caixa.
Ela era radiante enquanto tinha alguém para dizer seus pesadelos e para escolher nomes para possÃveis filhos. Agora era apenas brilhante, apenas uma garota com uma blusa cinza esperando as primaveras voltarem a visitá-la.
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31 de março de 2009 às 5:32 pm
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Belo, Lorena.