DOMINGO, 14 de MARÇO de 2010
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Eliane Brum fala a alunos de Comunicação

Juliana de Brito
Estagiária de Jornalismo

Os 20 anos de jornalismo de Eliane Brum sugerem que a principal missão do repórter é ouvir com atenção. A jornalista é uma forte defensora – e praticante – da utilização dos sentidos aguçados na apuração dos fatos. Eliane fará palestra nesta quinta-feira, 4, às 20h, no Auditório Central.

A gaúcha de Ijuí conversará sobre suas experiências no jornal Zero Hora e na Revista Época. A palestra tem o mesmo nome de seu livro de crônicas: A vida que ninguém vê. Onze anos de Zero Hora resultaram na obra. A publicação, aliás, valeu a Eliane o Prêmio Esso de Jornalismo – Regional Sul, em 1999. Desde 2000, é repórter especial da Revista Época, em São Paulo.

As histórias e personagens que a jornalista escolhe muitas vezes não teriam espaço na imprensa. Em 2008, Eliane publicou O olho da rua – uma repórter em busca da literatura. O livro é composto por dez grandes reportagens realizadas por ela na revista. Além dos textos na íntegra, ela conta os bastidores da apuração, falando de suas decisões, seus erros e acertos.

Na mesma noite da palestra, serão conhecidos os vencedores do Prêmio Experimental de Jornalismo da Unisinos. Acompanhe os principais trechos da entrevista concedida por Eliane Brum ao Portal3, na última quinta-feira, 28 de maio.

Portal3: Se a universidade pudesse ensinar somente uma lição para o estudante de Jornalismo, qual aprendizado você pensa que seria indispensável?
Eliane Brum:
Aprender a escutar. Jornalismo é a arte da escuta. E ela envolve respeitar todas as questões éticas. Escutar é mais do que ouvir. Começa por um ato prévio de se despir de todos os seus preconceitos e da sua visão de mundo para estar aberto à escuta do mundo do outro. Significa escutar as palavras, mas também o silêncio, as hesitações, o quase dito, o não dito. E também os gestos, as texturas, os cheiros, os sons que não são palavras. Enfim, a incrível complexidade do real.

Infelizmente, hoje, uma boa parte dos jornalistas, ao fazer matérias por telefone, onde só se escuta uma voz que pode pertencer até mesmo a uma pessoa diferente da que diz ser, foram reduzidos a aplicadores de aspas em série. Isso faz com que muitas matérias reduzam o mundo ao reduzir a complexidade do mundo. Escutar é o nosso exercício cotidiano. E também um ato de resistência cotidiana de quem acredita na dignidade da profissão de repórter.

P3: Quando e onde você aprendeu essa lição?
EB:
Vivendo. Na rua, fazendo reportagem, escutando e observando as pessoas e o mundo.

P3: Qual a sua principal preocupação no momento da apuração?
EB:
Escutar sem preconceito. Olhar para além do óbvio. Respeitar as pessoas que me honram com suas histórias. Apurar exaustivamente cada detalhe. Para mim, cheiro, cor, textura e gestos são informações tão importantes quanto palavras.

P3: Você faz aquilo que chamamos de “ir além da pauta”. Qual é melhor estratégia para não se prender no cotidiano e no comodismo de seguir padrões?
EB:
Acreditar no que faz. Ter noção da imensa responsabilidade que é contar a história contemporânea do país. Ser repórter não é algo banal. É algo capaz de transformar o mundo para o bem e para o mal. Quando não faz as coisas com dedicação, errando, manipulando, fazendo uma matéria preguiçosa, causamos um mal terrível. Acho que o caminho é ter noção da grandeza do que fazemos e do que somos. Não uma grandeza que nos leve à arrogância, mas aquela mais profunda, que nos faz sentir o peso da nossa responsabilidade como contadores da história cotidiana da nossa época.

P3: Você acredita que a universidade prepara o estudante para o mercado de trabalho?
EB:
Em geral, acredito que não. Mas posso falar apenas do que foi a universidade para mim, mais de 20 anos atrás, e do que ouço dos meus colegas que acabaram de se formar. Não conheço em profundidade as faculdades de comunicação hoje. O que vejo são alguns professores excelentes, que realmente acreditam no que fazem e têm consciência da sua responsabilidade, pois fazem um trabalho incrível. Eu tive a sorte de conhecer um deles na PUCRS, em Porto Alegre, onde me formei, chamado Marques Leonam. E ele mudou a minha vida, me ajudou a me tornar mais eu mesma, o que é a tarefa de um bom professor. E tenho tido a satisfação de encontrar alguns bons núcleos em algumas universidades onde sou convidada a dar palestras.

Dia 3 de junho de 2009



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