Restauração avaliada em R$ 3,4 milhões poderia salvar construção jesuíta localizada em Pareci Novo, no Vale do Caí.
Altieres Rohr E Cristiane Abreu
Estudantes de Jornalismo
As rachaduras nas paredes de pedra e no teto alto, a madeira roída no chão, bem como os vidros quebrados – antes protetores das grandes e inúmeras janelas – denunciam a idade e a história do prédio localizado no centro de Pareci Novo, um município de cerca de 3.200 habitantes na periferia da Região Metropolitana, a 80 quilômetros de Porto Alegre. A construção de arquitetura neoclássica, hoje praticamente abandonada, foi erguida pelos jesuítas na virada do século passado para servir como seminário. Foi tombada como patrimônio histórico pela Assembleia Legislativa em 2003, mas ainda aguarda reformas para que possa ser novamente aproveitada como um centro histórico-cultural.

Prédio construído por jesuítas em Pareci Novo é patrimônio histórico desde 2003.
O prédio começou a ser construído em 1893 e teve sua primeira parte concluída em 1901. Com a colaboração da comunidade, foi expandido diversas vezes. Antes de abrigar o seminário, o local era o centro da Fazenda Teixeira. Sua proximidade com o Rio Caí, na época muito utilizado para o transporte, o tornava estratégico. A filosofia e o trabalho ali desenvolvidos marcaram profundamente a região, cuja economia girava em torno das atividades e trabalhos rigorosos dos jesuítas.
Adquirido por um empresário local em 1975, passou a ser a moradia de alguns poucos habitantes. Alojou também um restaurante, uma padaria, uma loja de roupas e até o departamento local da Polícia Militar. Um prédio adjacente, onde antigamente moravam irmãos jesuítas, foi alugado pela prefeitura. Ali também funcionaram agências do Banrisul, do Banco do Brasil e dos Correios.
A edificação foi adquirida pela prefeitura em 2003, com o intuito de reutilizar o local para fins culturais, segundo a secretária municipal de Cultura, Adriane Colling. Hoje, as duas salas frontais ainda estão em uso para aulas de pintura: em uma delas ocorrem as aulas; na outra, os trabalhos são expostos e vendidos. Mas o terceiro pavimento, assim como alguns quartos por todo o prédio, está totalmente condenado. São necessárias reformas, atualmente avaliadas em R$ 3,4 milhões. O projeto conta com o apoio da Unisinos, universidade jesuíta cujos reitores – todos eles – passaram alguns anos de suas vidas no antigo seminário abandonado.
Unisinos colabora com projeto de restauração
Cerca de seis anos atrás, quando visitou pela primeira vez o prédio, a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisinos, Lúcia Gea, intuiu estar diante de um projeto que merecia dedicação. De acordo com ela, trata-se de uma construção com referências ecléticas, que possui fortes influências clássicas. “O prédio está em ótimas condições para recuperação. O problema maior está na cobertura, onde a chuva danificou o piso”.

Interior do prédio danificado pela ação do tempo.
Quando a prefeitura da cidade de Pareci Novo fechou convênio com a Unisinos, a professora foi convidada a coordenar o estágio dos alunos no local. Os estudantes realizaram o levantamento planialtimétrico da construção, que consiste na medição de cortes, fachadas, vistas e detalhamentos, como as esquadrarias.
Diariamente, os cerca de 10 alunos (oito da Arquitetura e dois da História – estes últimos responsáveis pelo levantamento histórico-documental) dirigiam-se ao prédio com a missão de esquadrinhar cada centímetro da edificação de quase cinco mil metros quadrados. “A população inteira caberia lá dentro”, arrisca Josiane Pires, uma das estagiárias. Fernanda Flach, única aluna a acompanhar do início ao fim o processo que durou dois anos, ressalta que foi um trabalho de muita dedicação.
Morcegos, corujas e ratos dividiam espaço com os alunos nas mais de 72 salas. Nada disso, porém, espantou os estudantes de lá. “Faria tudo de novo”, afirma Josiane, fazendo coro ao entusiasmo da colega Fernanda.
Finalizado o levantamento necessário, agora a administração pública do município deve dar início ao difícil processo de captação de recursos para o restauro. Para isso, existem algumas restrições. “Se o recurso vier de leis de incentivo à cultura, por exemplo, o uso do prédio deve ser público, não administrativo”, explica a professora Gea.
A destinação do prédio, aliás, é uma questão que preocupa a professora. De acordo com ela, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sugeriu que a restauração fosse feita por partes, em função do tamanho do prédio. A proposta é de que se faça um uso multifuncional, beneficiando não só a população de Pareci, mas estendendo-se aos cidadãos de toda a região do Vale do Caí.
Sustentabilidade é desafio
Enquanto posse dos padres, o seminário era autossustentável. Os irmãos jesuítas cuidavam de uma horta, confeccionavam roupas, criavam gado – um boi de 200 kg era sacrificado por semana para alimentar os religiosos – e construíam seus próprios móveis. O desafio de hoje é tornar o local um centro de cultura e turismo capaz de gerar recursos suficientes para que possa novamente se sustentar.
Uma vez reformado, há ideias para a construção de sala de cinema, museu, anfiteatro, biblioteca, realização de oficinas mistas, coral, entre outras atividades de cunho cultural.
Para a secretária municipal de Cultura, Adriane Colling, a restauração do prédio é importante para a comunidade – e uma necessidade. “Não entra na minha cabeça que não vamos conseguir restaurar esse prédio. Se lá em 1893 eles conseguiram construir, com muito sacrifício, não é possível que hoje, com todos os recursos que temos, ele não seja recuperado”, afirma. A professora Gea complementa, com uma ressalva: “Tem que conseguir recuperar a condição do prédio, mas, sobretudo, pensar na vida dessa construção a longo prazo”.
Desenvolvimento intelectual e econômico com disciplina religiosa
Quem viveu no seminário enquanto ele ainda era propriedade dos padres tem como principal lembrança o isolamento e a disciplina jesuíta. O floricultor Alvício Alípio Müller, 70, entrou no seminário como irmão jesuíta aos 18 anos, em 1956, e só saiu definitivamente em 1970, embora tenha passado alguns anos em outros lugares nesse período.

O floricultor Alvício Muller, 70, lembra dos anos em que viveu com os jesuítas em Pareci Novo.
Müller explica que os padres foram importantes para o desenvolvimento econômico do município, cujo slogan é capital das flores, mudas e frutas. Segundo ele, que aprendeu a profissão enquanto trabalhou e morou no local, foram os jesuítas que profissionalizaram a floricultura em Pareci Novo. “Antes, já havia cultivo de flores, mas era tudo fundo de quintal, sem aproveitamento de tempo. Eles perceberam isso e trouxeram tecnologias, transformando numa profissão de verdade”, conta.
O floricultor também afirma que o campo de futebol do município – hoje cortado por reformas nas ruas – foi o primeiro na região a ter iluminação para jogos noturnos. Uma conquista obtida graças aos padres, mas que se perdeu devido à falta de condições para manutenção. A dificuldade de se chegar a Pareci Novo, cujas rodovias de acesso até hoje não se encontram totalmente asfaltadas, impedia que o campo fosse palco de jogos suficientes para viabilizar sua manutenção.
Mas Müller critica o isolamento do local, parte da disciplina jesuíta. Mulheres não podiam entrar no recinto, cercado por altos muros. “Hoje se faz muro para bandido não entrar. Aqueles muros eram para ninguém poder ver lá para dentro… e para de ninguém de dentro ver para fora”. Para o floricultor, “o contato com o ser humano é a maior riqueza”. Essa riqueza, de acordo com ele, se perdia no isolamento.
O também floricultor, ex-vice-prefeito e vereador Almiro Pedro Leifheit, 62, fez o processo chamado de noviciado no seminário. O noviciado é uma das etapas para o encontro da vocação religiosa, realizado após o ensino médio. Estudou de 1965 até 1967, e deu aulas no local – num curso semelhante a um supletivo – em 1969. Ele conta que a rigidez começou a cair. “Foi em 1966 que a batina deixou de ser exigida. Quem queria podia usar, mas não era obrigatória”, relembra.
No entanto, ninguém podia sair do prédio sem autorização. “Nós tínhamos lazer, como o futebol todo fim de semana, mas dentro do seminário”. Jornal e rádio não eram permitidos aos estudantes de noviciado. Televisão, “só o programa da Hebe Camargo. O televisor ficava numa sala e era tudo controlado. Entrávamos lá, assistíamos o programa e saíamos”, revela Leifheit.
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24 de Novembro de 2009 às 2:48 pm
Parabéns aos colegas Altieres e Cristina. Uma reportagem real, com tema palpável. Diferente de textos mal editados ou opiniões vazias que, seguidamente, encontramos neste site. A reportagem feita em Pareci Novo mostra realmente o que é buscar informações, fontes, realizar pesquisa e ir para a rua, ao invés de fazer “entrevistinhas” com os colegas pelo Campus. Novamente, parabéns
Muito boa a reportagem! Sou desta região, e meu pai estudou por muitos anos neste colégio, quando ainda ativo. Fico muito feliz com esta notícia!! Já visitei o colégio algumas vezes, e realemente, é uma pena aquela bela construção estar abandonada…Acredito que será uma ação muito importante para a região e para a recuperação da história.