Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
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  • Papos & Pautas: Moisés Mendes

    Lílian Stein e Ana Paula Figueiredo
    Estagiárias de Jornalismo

    Quando fala da busca por uma pauta ousada, um personagem desconhecido ou um bom cenário, Moisés Mendes é enfático: “É preciso deixar-se surpreender”. Foi se deixando surpreender que o jornalista contou centenas de histórias. Fez da apuração um momento decisivo em sua produção e, com isso, tornou possível ao leitor enxergar a periferia da vida. Ele mostra o que está por trás de famosos, tragédias e banalidades. Moisés Mendes é um contador de histórias – e o faz com a elegância e destreza de poucos.

    Moisés nasceu em Rosário do Sul, mas foi criado no Alegrete. Lá deu seus primeiros passos no jornalismo. Depois de ser descoberto fazendo um jornalzinho caseiro, aos 17 anos passou a trabalhar na Gazeta do Alegrete. Exatamente 40 anos depois, o editor especial de Zero Hora relembra a trajetória percorrida durante a época da ditadura, comenta os rumos do jornalismo da atualidade e reflete sobre as mudanças de ideais de quem trabalha com informação.

    Moisés Mendes é o segundo entrevistado da série em que estagiários do Portal3 conversam com nomes de referência da imprensa no Rio Grande do Sul.

    Portal 3 – Como foi o teu início no jornalismo?

    Moisés Mendes – Comecei na Gazeta do Alegrete, em 1970. Antes, fazia um jornal de papel almaço, batido à maquina, em casa. Não lembro o nome, mas era época de Copa do Mundo, e eu fazia um jornal completamente alienado, falando sobre futebol e a cidade.

    Portal 3 – Tu tens formação acadêmica?

    Moisés – Não tenho. Na minha época eram raras as universidades. Comecei a me interessar por jornalismo por causa da minha avó, que assinava o jornal da cidade. A minha família sempre tinha muitos livros em casa. Fui criado só por mulheres, pela minha mãe e minha avó.

    Uma tia minha assinava as revistas O cruzeiro e Manchete, e todas as edições iam para a nossa casa. Eram as revistas da época, e eu lia tudo. Lia, por exemplo, Paulo Mendes Campos, que era cronista, e eu achava que era meu parente e, por isso, devia ler. Lia Carlos Lacerda, aquele grande calhorda que ajudou a acabar com Getúlio Vargas. Ele escrevia muito bem. Eu era muito estimulado a ler. Me criei nesse tipo de ambiente.

    Moisés: Sou da época romântica. Jornalismo era uma coisa para mudar o mundo.” Foto: Ana Paula Figueiredo

    Portal 3 – O que tu produzias nesse jornalzinho caseiro? De onde tirava as informações?

    Moisés – Falava sobre fatos da cidade, inventava coisas, escrevia croniquetas e fazia análise da Copa do Mundo, que estava acontecendo na época. Fazia comentários como se eu fosse o Ostermann daquela época (risos). Era algo completamente alienado. O mundo correndo, a ditadura a milhão e eu lá, viajando. Só depois me dei conta das coisas. Foi então que o dono da Gazeta ficou sabendo desse jornal por meio do meu irmão, que trabalhava com ele. Fui trabalhar lá também. Achava que ia ser repórter, mas comecei como porteiro.

    Portal 3 – Quantos anos tu tinhas?

    Moisés – Tinha 17. Trabalhei na portaria e depois na clicheria. Antigamente, as fotos eram feitas com uma espécie de carimbo de zinco, onde se gravava uma imagem e usava como uma matriz de reprodução. O jornal era impresso assim.

    Portal 3 – Quando tu passaste para a função de repórter?

    Moisés – Não demorou muito. Com dezenove anos eu era editor do jornal. Fiquei na Gazeta até 1973, quando fui trabalhar n’A Platéia, em Santana do Livramento. Mas foi ainda no meu primeiro emprego, na Gazeta, que aconteceu uma das coisas mais interessantes da minha vida de repórter. Em frente ao jornal, uma mulher com uma criança no colo foi morta pelo ex-marido, com um tiro. Quando cheguei, ela estava morrendo, e o cara com a arma na mão e a criança no colo. Contei toda aquela história, fiz uma página inteira falando sobre o crime. Essa foi a primeira grande reportagem que fiz.

    Portal 3 – Como foi a experiência de trabalhar n’A Platéia?

    Moisés – Trabalhei lá até maio de 1975. Escrevia uma coluna no estilo d’O Pasquim, com bastante sarcasmo. Fui chamado na Polícia Federal porque escrevi a palavra “porra”. Nesse período, eu peguei censura. Era repórter e recebia telefonemas da Polícia Federal na redação. Diziam que não podiam publicar determinadas matérias.

    Em 1974, houve uma epidemia de meningite, e a Polícia deu ordem de não sair nada sobre o assunto. Naquele dia, o jornal desafiou a censura e publicou um caderno especial sobre meningite. Foi um episódio interessante para o jornal, que viveu a sua ditadura. Naquele contexto, se fazia um jornalismo que viveu muito tempo de combate, de enfrentamento. O jornalismo era mais romântico nessa época.

    “Sou da época romântica. Jornalismo
    era uma coisa para mudar o mundo.”

    Portal 3 – Como era a relação dos repórteres com a censura?

    Moisés – Era bastante complicada. Um colega meu editava um jornal do mesmo grupo d’A Platéia, mas em Uruguaiana, e, como muitos outros, também desafiou a censura publicando na capa que a Polícia Federal determinava que não se divulgasse dados autênticos do MDB, a linha mais esquerda do atual PMDB. Foi preso.

    Meu chefe também foi preso porque distribuiu panfletos na cidade contra um delegado da Polícia Federal que estava indo embora, havia sido transferido. Ele escreveu um versinho: “Fulano, fulano, o povo todo arde. Por que tu só vais hoje? Por que tu vais tão tarde?”. Ficou dois dias preso.

    Sou da época romântica. Antigamente, jornalismo era uma coisa para mudar o mundo, para derrubar a ditadura. De alguma forma me engajei nessa coisa, gosto dessa trajetória da minha geração, de dizer “nós queremos democracia”. Por exemplo, fui filiado ao MDB. Era jornalista da Caldas Júnior e filiado ao MDB, uma coisa completamente maluca. Achava que, além de ser jornalista, tinha que ser filiado a algum partido.

    Portal 3 – De que maneira tu achas que essas limitações impostas contribuíram na tua formação?

    Moisés – Comecei a trabalhar no período em que a ditadura estava realmente a milhão. Mesmo assim, foi nessa época que ganhei meu primeiro prêmio de jornalismo, para jornais do interior. Ganhei com a história de uma vila pobre, a Pampeiro, que ficava em meio a uma imensa fazenda bastante rica. Depois fui trabalhar em Bento Gonçalves, fui editor d’O Semanário, um jornal semanal. Fazia o jornal com mais duas pessoas. Cheguei a ser repórter, depois virei editor. Foi um período interessante porque eu escrevia, editava e vendia o jornal na banca aos sábados à tarde.

    Foi então que criei uma série sobre casos de polícia de Bento Gonçalves que não se resolviam. O nome era Arquivo e abordava crimes insolúveis relacionados a famílias da cidade. Tive que parar com aquela série porque a cidade não gostava. Então, fui trabalhar em Ijuí, no Correio serrano, um jornal tradicional de lá. Trabalhei durante dois anos, e, em 1977, virei correspondente da Caldas Júnior. Esse período foi muito intenso, aprendi demais durante os cinco anos que fiquei lá. Havia muita cobrança, a central do interior da Caldas Júnior era a parte mais poderosa do jornal porque o jornal era forte no interior.

    Portal 3 – Como foi a época de greve na Caldas Júnior?

    Moisés – Essa greve foi o fim da Caldas Júnior, porque eles não conseguiram pagar salários. Lembro que meu chefe me ligou para saber o que eu ia fazer. Eu disse: “Estou em greve, está todo mundo em greve”. Quer dizer, alguns resolveram não fazer greve, mas muitos passaram fome, o que não foi o meu caso, pois tinha outro emprego.

    Trabalhava na Cotrijuí nessa época. Quando a Caldas Júnior quebrou, meu salário só reduziu pela metade. Depois, quando a Caldas reabriu, comprada pelo Renato Bastos Ribeiro, fui contratado novamente, mas não consegui voltar. Não me deixaram voltar porque eu era da lista negra, havia cobrado meus salários atrasados na Justiça. Não sei bem o que aconteceu. Fui convidado, contratado, só não assinei a carteira. Quando fui assinar, disseram que não me queriam, e não voltei.

    Portal 3 – Nessa mesma época, você trabalhou em rádio. Como foi a experiência?

    Moisés – Foi um grande aprendizado. Quem trabalha com rádio sempre sabe o que está acontecendo, porque tudo é muito rápido. Trabalhei na rádio Progresso, de Ijuí, muito forte em jornalismo. Alguns ainda dizem que é a rádio mais forte de jornalismo no interior. Foi lá que aprendi a não discriminar nenhuma mídia, pois eu achava que tinha de escrever e não trabalhar em rádio para fazer apenas notinhas curtas. Mas foi com as tradicionais notinhas curtas de rádio que melhorei muito em agilidade e precisão.

    “Não se deve escolher área para
    trabalhar. O jornalista é um profissional
    que precisar falar sobre tudo.”

    Portal 3 – Quando tu foste foi para a Zero Hora?

    Moisés –Em 1988, fui chamado para ser subeditor de economia. Trabalhei com isso até 2000 e então virei editor especial. Hoje, faço de tudo. Lavo chão, faço faxina, atendo emergência, qualquer negócio. A partir daí sou editor especial (risos).

    Uma coisa que aprendi na Zero Hora é que não se deve escolher área para trabalhar. O jornalista pode querer ser setorista do Grêmio, mas depois vai ser setorista do Inter, de natação, de buraco de rua e vai acabar cobrindo política. O jornalista é um profissional que precisar falar sobre tudo.

    Portal 3 – Existe alguma área pela qual não tenhas passado em ZH?

    Moisés – Só não cobri guerra. Mas não é uma coisa que me interessa. Tirando isso, fiz de tudo no jornal. Fui setorista de caderno, atuei em polícia, geral, futebol, Copa do Mundo, agricultura, política. Me meti em tudo que é área. Também faço o editorial do jornal de vez em quando. Gosto de atuar em tudo que é frente, acho que o jornalista deve ser completo, não pode deixar de ser repórter.

    Portal 3 – Tendo começado em economia e passado por tantas outras, tens alguma editoria preferida?

    Moisés – Não, não tenho mesmo. Gosto de fazer tudo. Fico inquieto se não consigo pular de uma editoria para a outra. Quero desafios. Geralmente eu mesmo invento minhas pautas.

    Portal 3 – Tu editas também, não é?

    Moisés – Só não edito quando é algo muito complicado, chato. Mas editar me dá prazer, gosto de dar acabamento. Às vezes, estou pensando em uma matéria e já começo a planejar a edição.

    “Gosto de fazer matérias da periferia das coisas,
    de enxergar o que o outro não enxerga.”

    Portal 3 – Como é o surgimento da pauta?

    Moisés – Agora, por exemplo, tenho aberta uma lista que chamo de “Pautas 2011”, e ali vou colocando todas as ideias. Algumas olho depois e vejo que não têm validade, as outras vou tentando fazer durante o ano. Muitas coisas são pautas que não fiz em outros anos, mas 90% daquilo eu não consigo fazer, o que me deixa um pouco frustrado.

    Traçar uma lista de ideias é uma é uma coisa boa de fazer. É claro que, ao longo do ano, surgem coisas que não estavam previstas, coisas da redação mesmo. Mas é bom tentar manter um planejamento para não deixar morrer.

    Teve matérias que demorei três anos para fazer, a pauta ficava ali e eu não levava adiante. Uma dessas fiz no ano retrasado. Estranho ter saído no caderno de Cultura, mas era o espaço que tinha. Eu contava cinco histórias, cinco retratos de mães coragem, mulheres sem marido que conseguiram manter e criar os filhos na periferia da cidade sem deixá-los cair na bandidagem. Essa é uma pauta que ficou anos apenas na idéia. Estava de férias em Santa Catarina e abri um livro do Luiz Eduardo Soares, que foi assessor de segurança do Tarso Genro e entende do tráfico no Rio. Achei fantástico, pois ele dizia que o único jeito de corrigir o problema de favela e tráfico no Rio é fortalecer as mães, que são, segundo ele, chefes de família. Me inspirei e entrevistei ele para essa matéria.

    Portal 3 – O que tu fizeste em 2010?

    Moisés – Acho que nada importante. Esse foi um ano quase morto, não fiz nada diferente. Fiquei uma época na Copa, me preocupei com o Dunga… Depois da eleição, fiz dois perfis da Dilma Russeff. Fora isso, nada de importante. Esse foi um ano ruim para toda a redação porque, se tu fores fazer um balanço do jornal, ele não tem grandes reportagens. Tem aquela dos Infiltrados (série sobre os agentes paramilitares que se infiltravam em grupos de esquerda durante a ditadura), teve uma sobre corrupção nas cadeias. Mas não houve muitas grandes reportagens porque, em ano de eleição e Copa, toda a energia vai para esses temas.

    Portal 3 – Qual foi a maior reportagem da tua vida?

    Moisés – Já pensei nisso, mas não cheguei a uma conclusão. Tem algumas tragédias que cobri, e acho que me saí bem.

    Por exemplo: gosto de fazer matérias da periferia das coisas. O cara diz que o Hitler, o Mussolini e o Lula são grandes personagens, mas eu me interesso pelos caras que estão por trás deles. Me interesso por aqueles que estão na beira, no entorno. Gosto de enxergar o que o outro não enxerga.

    Não gosto dessa coisa da celebridade. Gosto de escrever sobre o que ninguém está escrevendo. Eu cobri três tornados aqui no estado. O primeiro atingiu um sítio que eu tinha em Viamão. Fui ver pessoalmente o que havia acontecido na casa porque jornais e rádios não davam a dimensão real do problema. Cheguei lá e vi que o que havia passado era um tornado. A minha casa não caiu, mas as dos meus vizinhos, sim. Cheguei lá e estava tudo devastado. Me senti bem por conseguir contar aquele drama de um jeito que até então não estavam contando. Depois desse dia, também cobri um tornado em São Francisco de Paula e outro em Antônio Prado, em que morreu uma criança num colégio. Foi uma coisa horrorosa, mas a tragédia está ali e tu tens que cobrir.

    Gosto de contar o drama humano. Um tornado não significa apenas a casa ou o patrimônio destruído, mas a memória destruída. Ele leva tudo, as tuas memórias, as tuas fotos, as tuas bugigangas. É isso que eu acho interessante.

    Mas o que gosto mesmo de fazer é a pauta não pensada. Para 2011, tenho como desafio tentar enxergar o que há por trás da Dilma Rousseff, por exemplo. Como funciona o governo, que poder é esse que está se instalando, como vai se comportar esse governo. Mas não vou focar na Dilma. Quero falar com as pessoas que conhecem ela e construir perfis a partir dos depoimentos dessas pessoas.

    Portal 3 – Tu também escreveste um perfil da Mafalda Veríssimo sem falar com ela…

    Moisés – Exatamente. Mas isso também não é um grande mérito. Gay Talese fez um perfil do Frank Sinatra sem falar com ele. Claro que ele é um gênio, mas em biografias não autorizadas, por exemplo, as pessoas não falam com o biografado, apenas com fontes secundárias.

    Portal 3 – Mas na época a Mafalda não gostou da ideia, né?

    Moisés – Ela não queria, mas, depois que saiu, gostou. Inclusive me telefonou para agradecer. Ela achava que estava morrendo e que eu estava fazendo o obituário dela. Eu fiz, ela adoeceu e eu guardei. Depois, publiquei quando ela completou 90 anos. Foi o Veríssimo (Luís Fernando) que me alertou. Um dia eu estava conversando com ele, e ele me perguntou: “Te lembras daquela matéria que estavas fazendo com a mãe e que não saiu? Pois ela está fazendo 90 anos”. Eu tinha tudo apurado, só atualizei algumas coisas e fiz o perfil da Mafalda. Gosto daquele perfil.

    Portal 3 – Quantas pessoas foram entrevistadas?

    Moisés – Ouvi muita gente. Gosto de ouvir muitas pessoas. Isso é uma coisa que os jornalistas percebem logo que começam a trabalhar: às vezes tu vais ouvir uma pessoa e sai do local sem nenhuma anotação, ou anotou e depois pensa que aquilo não serve para nada. Serve, sim. Com a Mafalda foi assim. Construí um perfil dela a partir do que os outros disseram e montei. Li as memórias do Erico, falei com as pessoas que conviveram com ela. Não tem mistério algum, só é preciso dedicação.

    “O repórter tem que ser inquieto. A burocracia
    da redação não deve deixá-lo se acomodar.”

    Portal 3 – É verdade que tu gostas de fazer entrevistas por telefone?

    Moisés – O que é o telefone numa redação? É uma tentação, porque, com ele, tu não precisas pegar o carro e ir falar com a pessoa. Não desprezo o telefone. Não só para pegar informação declaratória e mentirosa de político, mas ele é bom para dar um susto na fonte, porque tu pegas ela ali, na hora, ela não está te vendo. Acho bom o telefone.

    Fiz muita coisa do perfil da Mafalda por telefone. Entrevistei o José Lewgoy (ator), que me deu informações fantásticas sobre ela. Talvez, se eu sentasse com ele, ele se dispersasse e não me desse uma boa entrevista. Ao vivo, existe a possibilidade de dispersão, e, por telefone, tu focas naquilo e a fonte te dá a informação que tu queres. Por isso gosto de telefone.

    "O repórter tem que ser inquieto, tem que ser um 'mala' para o editor de jornal." Foto: Ana Paula Figueiredo

    Portal 3 – Mas perde um pouco dos gestos e observação.

    Moisés – Perde um pouco da observação porque às vezes uma pauta é 99% de observação, é perceber o que está acontecendo, compreender a paisagem. No caso do José Lewgoy, não era necessário descrever o momento. O que me interessava é que ele falasse da Mafalda. Ele começou a falar e não parou mais. Mesmo com um político, às vezes tu o pega no telefone, e ele não tem como te enrolar, aí tu podes ser mais incisivo na pergunta do que na frente dele.

    Portal 3 – O perfil da Gisele Bündchen também surgiu de uma entrevista por telefone, certo?

    Moisés – Sim. Fiz um perfil da Gisele quando ninguém no Brasil sabia quem era ela, nem eu. Quem teve a ideia foi a Sandra Simon, editora do caderno Donna na época. O Donna estava mudando, e ela queria uma pauta diferente para marcar a mudança. Ela me disse: “Faz uma matéria com a Gisele Bündchen”. Eu respondi: “Não sei quem é Gisele Bündchen”. Ninguém sabia. Ela já era famosa lá, mas não aqui. Fui atrás, falei com o pai dela.

    Portal 3 – Antes não houve um problema porque já haviam escrito em ZH coisas de que ela não tinha gostado?

    Moisés – O correspondente Chico Reis (então em Nova Iorque) tinha escrito que a Gisele namorava todo mundo, e ficou chato para a família. A família disse: “O cara colocou no jornal que a Gisele está ‘dando’ para todo mundo”. Tive que negociar com o pai dela, fui a Horizontina. Quando cheguei lá, fiquei sabendo que ela estava em Porto Alegre. Consegui falar com ela porque os pais ajudaram. Falamos ao telefone durante duas horas. Aí tem outra coisa: falar ao telefone com uma Gisele Bündchen, que fala pelos cotovelos, é tudo de bom. Depois, falei com ela na rua, quando ela foi comprar um aparelho de ginástica para a irmã. O Kadão (Ricardo Chaves, editor de Fotografia de ZH) fez fotos dela, mas no telefone ela já havia me dito tudo que o eu queria. Duas horas, não aguentava mais (risos). Gosto desse perfil, também.

    Portal 3 – Tiveste que insistir muito para conseguir conversar com ela…

    Moisés – O repórter tem que ser inquieto, tem que ser um “mala” para o editor de jornal. Já fui editor e sei o que é isso. O repórter tem que ser um estorvo dentro de uma redação. O repórter acomodado, que só pega pauta do editor do jornal está apenas cumprindo ordens. Mas o repórter tem que ser inquieto. A burocracia da redação não deve deixar um repórter se acomodar.

    Quem é inquieto acaba tendo sorte. Um ano depois do 11 de Setembro, as pessoas largaram livros com dedicatórias por Porto Alegre, para lembrar a data. Largaram livros em bancos, esquinas, e outras pessoas pegavam. Pensei em fazer algo sobre isso, mas achava que não ia encontrar um desses livros. Imaginei que era uma boa idéia contar a história de alguém que acha livros na rua, como um lixeiro, um catador.

    Fiquei sabendo que havia dois caras numa esquina perto de onde eu moro, eles estavam sempre por ali catando lixo. Quando cheguei, puxaram o livro Fábulas de Esopo. Dois caras, um barbudo e o outro careca, começaram a falar de literatura. Era uma coisa tão maluca que não acreditei. Eles falavam de literatura como se fossem professores, sabiam tudo.

    Eles eram inteligentes, bem informados, declamavam poesia. Era completamente surreal. Uns caras cultos, atirados ali. Não quiseram me dizer de onde vieram, mas nem me interessava, porque assim a matéria ficou mais fantástica.

    Peguei o livro de um deles. Havia uma dedicatória. Era um dos livros largados no 11 de Setembro. Não acreditei. Já tinha achado os personagens e o cara tinha o livro que eu estava procurando. Daqui a pouco, começaram a discutir, porque um passou a destratar o outro dizendo que Esopo era nada, que era um autor infantil. Eles começaram a discutir literatura na minha frente, algo completamente doido. Contei essa história em uma página do jornal. Quem leu aquilo pensou que eu inventei. Mas é assim que acontece, tem que ter sorte. O repórter, na rua, tem sorte. Dentro da redação, não.

    Portal 3 – Como foi a matéria do caso do rapaz do ônibus 174?

    Moisés – Saiu a história do rapaz e todo mundo falou dos meninos de rua. No início já saiu que eles eram sobreviventes da Chacina da Candelária. Fui atrás da moça que era uma espécie de protetora deles.

    Portal 3 – Tu chegaste a ir para lá?

    Moisés – Não. Fiz por telefone, para ver como telefone funciona. Fiz uma página central na Zero Hora contando a história dessa mulher, a protetora. Ela me deu as informações, e construí a história de quem era aquele guri. Já sabia que ele era sobrevivente da Candelária. O meu mérito foi conseguir entrevistar a mulher ali, na hora, logo depois do acontecido Ela estava muito emocionada.

    Portal 3 – Tudo feito por telefone.

    Moisés – Tudo por telefone. Entrevistei o Raymundo Faoro (importante jurista, historiador e sociólogo brasileiro) um pouco antes dele morrer, e fiz a página central da Zero Hora. O geógrafo Milton Santos foi outro com quem fiz entrevista assim. Logo depois ele morreu, e publiquei a entrevista inédita. Falar com um cara desses é uma barbada. Telefone é bom por isso também, pois o entrevistado já tem o conhecimento, ele sabe o que tu queres. Esses dois caras estavam morrendo, tinham câncer, e deram entrevista falando de projetos e planos, uma coisa fantástica. Eles já estavam condenados, mas mostravam que queriam viver.

    “A pauta nunca é o que tu pensas.
    As coisas se oferecem para ti de uma forma
    completamente diferente do que tu imaginavas.”

    Portal 3 – Quais os nomes no jornalismo atual que admiras?

    Moisés – Essa sempre é uma pergunta perigosa, porque se pode esquecer alguém. Mas gosto do Kadão, que é um gênio, um baita parceiro. Da nova geração, gosto do Chuchu (Carlos Etchichury), também de ZH. Acho que é o melhor repórter da nova geração.

    Por convivência dentro do jornal, admiro como profissionais e colegas o Nilson Souza, que é editor de opinião da ZH, o Olyr Zavaschi e o Clóvis Malta, que são editorialistas e meus parceiros de ambiente, ficamos na mesma sala. São as pessoas mais dignas que conheço.

    Tem um monte de gente dentro da redação. Mas da velha geração é o Kadão, e da nova, o Chuchu. Parece que o jornalismo se renova, as pessoas ficam entrando e saindo. Vocês, estudantes, vão pegar todo esse período do jornalismo que eu não sei o que é, mas que deve ser bom. Como vai ser exatamente eu não sei, mas o jornalismo na internet deve ser bom.

    Portal 3 – Qual tu achas que é a maior desvantagem em ser jornalista hoje em dia?

    Moisés – A bronca hoje é saber o que vai acontecer com o jornalismo. Ninguém sabe.

    Portal 3 – E o lado bom?

    Moisés – O grande lance de ser repórter é ser surpreendido toda vez que sai para a rua para fazer alguma coisa. A pauta nunca é o que tu pensas, as coisas se oferecem para ti de uma forma completamente diferente do que tu imaginavas. As personagens estão te esperando, e é comum frustrar ou furar uma pauta. O melhor de tudo é sentir que a pauta é maior, muito mais surpreendente do que o imaginado. Isso que é fantástico. Então, se tu tens uma ideia, a dica é ir a campo, que tu serás surpreendido.

    Portal 3 – Quais características um bom repórter deve ter?

    Moisés – Inquietação, que vale para qualquer área, mas vale mais para o jornalismo. Se não for inquieto, não vai ser repórter. O repórter deve estar sempre em volta do editor, porque editor se acomoda no planejamento, na coisa previsível. O repórter é o pauteiro do jornal. Alguém pode planejar a edição, mas quem vai surpreender e oferecer ao leitor o que ninguém está pensando é o repórter que foi para a rua. A característica de hoje vai ser a do futuro, sempre.

    “No Brasil o jornal impresso não está
    desaparecendo porque as coisas são tardias
    por aqui. Ainda há espaço para crescer.”

    Portal 3 – O que tu pensas dessa mudança que ocorreu na maneira de fazer jornalismo? Foi uma mudança um pouco brusca, porque, na tua época, era preciso sair da redação para ir atrás da pauta.

    Moisés – Passei pelo jornalismo de tipografia na Gazeta, em que a matéria era escrita letra por letra. Era preciso usar uma madeira e imprimir letrinha por letrinha. Sou desse tempo. Passei pela linotipo, de fazer composição a chumbo. Cada linha era como uma barrinha de chocolate, com as letras. Passei pela impressão offset. Agora cheguei ao jornalismo online. Passei por tudo. Maluco isso, né? Só não peguei jornalismo na caneta e a época do jornal de poste, escrito a mão. Mas peguei todo o resto do processo e, sinceramente, não sei o que vai acontecer. Talvez possa ser algo bom, mas realmente não sei.

    Portal 3 – Em relação a conteúdo, tu achas que houve mudança?

    Moisés – Acho que o que muda mais é o formato. E, claro, o jornalismo não é mais romântico como antes. Não vamos mudar o mundo. Achei que eu ia mudar o mundo, derrubar a ditadura e fazer com que tudo fosse mais justo. Pensei um monte de coisas boas. Hoje não há mais essa coisa ingênua de dizer que o jornalismo pode mudar algo.

    No entanto, há jornalistas fazendo coisas interessantes. O Julian Assange (do caso Wikileaks) tirou o jornalismo da inércia. O cara disse que havia coisas acontecendo e ninguém estava sabendo, perguntou por que não haviam ido atrás. Conseguiu um jeito de ir. O Wikileaks é um dos casos mais importantes de jornalismo em meio século. Ainda pode sair muita coisa a respeito disso. Dizem que existe uma estrutura mafiosa no sistema financeiro que quebrou a economia dos países ricos há dois anos. Como é que eles funcionam? Esses documentos vão mostrar isso? Mostrar esse tipo de coisa faz parte do dever do jornalismo.

    Portal 3 – O jornal impresso perde com a internet?

    Moisés – Existe aquela tese de que nada na vida é linear, as coisas não acontecem num avanço linear. Nos Estados Unidos e na Europa vários jornais desapareceram. No Brasil não está acontecendo isso porque, como as coisas são tardias por aqui, ainda há muito espaço para o jornal impresso crescer.

    A Zero Hora cresce, a tiragem dos outros jornais aqui do estado é alta. Todos têm boa tiragem. O Correio do povo tem uma boa tiragem. Os outros jornais se mantém, como Jornal do comércio e O sul, que o gaúcho gosta de ler.

    Acho que o jornal impresso ainda vai sobreviver por bastante tempo. Nos últimos anos houve uma valorização do conteúdo impresso, que parece impor mais respeito, mais credibilidade. Parece estar acima da hierarquia do jornalismo.

    Por outro lado, a internet é guerrilha. Um cara sentado em frente ao computador pode produzir um site realmente bom, e tem gente fazendo isso. Nos Estados Unidos tem blogueiro pautando os grandes jornais. Os caras saíram das redações e pautam os jornais. É um caminho, inclusive para os veteranos.

    “Quem lê ficção está
    com tudo. Tem que ler.”

    Portal 3 – O que tu gostas de fazer quando não está trabalhando?

    Moisés – Gosto de desenhar, pintar, sou metido a desenhista. Aliás, pinto e desenho desde criança.

    Portal 3 – O que gostas de ler?

    Moisés – Gosto de literatura. Aprecio livros de jornalismo, mas gosto mais de ficção. Aliás, estudante de jornalismo deve ler mais ficção do que teoria. Teoria é bom para saber como se trabalhava, já que temos um novo jornalismo. Mas é preciso ler ficção.

    Se tu lês Machado de Assis, Balzac, Jorge Amado, Erico Verissimo, vai aprender a escrever com aqueles autores. Por exemplo, tu podes pensar que uma narrativa como Os sertões, pela qual sou apaixonado, é velha. Ela é, mas te mostra como o autor conta a história, e isso tu trazes para o hoje. É importante que o profissional domine a fantástica habilidade de descrever. Quem lê ficção está com tudo. Tem que ler.

    Portal 3 – O que estás lendo agora?

    Moisés – Estou começando a ler um livro do Celito de Grandi sobre o caso Kliemann. O livro é bom, tem pesquisa, tem tudo ali. É uma versão da história, mas é bom. Todo mundo conta uma versão de um fato.

    Portal 3 – Já pensaste em escrever algum livro?

    Moisés – Já escrevi um romance que coloquei no lixo. Depois disso nunca mais fui além das minhas anotações. Tenho um monte de coisas anotadas em casa, mas nunca precisei. Tenho um projeto, que é escrever uma história sobre o Paulo Sant’Ana. Já tenho muitas coisas reunidas. Convivo com ele todos os dias, então já tenho um bom material. Mas a história dele eu não tenho, as coisas de infância… Ele fala pouco disso, não se abre muito. Mas é um projeto.

    Portal 3 – Ele sabe disso?

    Moisés – Sabe. Ele sabe que tomo notas porque às vezes me flagra querendo saber alguma coisa. Ele diz: “Tu estás querendo saber tal coisa porque tu achas que vai escrever a meu respeito”.

    Portal 3 – Já pensaste em trabalhar em outro veículo, além de jornal?

    Moisés – Não. Tu tens que saber onde é tu és bom. Eu faço o que sei fazer.

    Portal 3 – Chegaste a pensar em fazer outra coisa que não o Jornalismo?

    Moisés – Nunca pensei. Mas, depois de me aposentar, gostaria de desenhar, pintar, fazer essas outras coisas de que eu gosto. Nada com dedicação profissional, é claro. O que sei fazer é escrever.

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    9 de Março de 2011 às 3:00 pm

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