Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Jornalismo » Reportagem-Jornal » Entrevista: Luis Fernando Verissimo

Entrevista: Luis Fernando Verissimo

William Mansque
Estagiário de Jornalismo

* Foto de capa: Andrew Sykes

“Quando a gente escreve com ironia nem sempre é lido com ironia”

O Portal3 entrevistou por e-mail uma das principais referências do humor no Brasil para discutir a recente polêmica sobre humoristas que teriam extrapolado o limite da brincadeira, ofendendo uma porção de gente. O porto-alegrense Luis Fernando Verissimo, 74 anos, criador do Analista de Bagé, das Cobras e da Velhinha de Taubaté, conta que ele próprio já se complicou ao usar a ironia.

Portal3 – Existe algum limite para o humor?
Luis Fernando Verissimo – Não deveria existir nenhum limite oficial, imposto. Agora, cada um escolhe seus próprios limites, as piadas que nunca faria. Depende do humorista.

Portal3 – Considerando que é apenas uma brincadeira, o humor ofensivo é válido?
Verissimo – Tinha um cômico americano que no fim das suas apresentações perguntava: “Tem algum grupo aqui que eu ainda não ofendi?”. O número dele era isso, era ser ofensivo e não poupar ninguém. E ele era muito engraçado e apreciado.

Portal3 – A pessoa que tenta fazer humor precisa tomar cuidado com certos temas?
Verissimo – De novo, depende do humorista. Se alguém é conhecido pelo seu humor ferino, o humor ferino já é esperado e os limites do permitido, ou do tolerado, se expandem.

Portal3 – Recentemente, o comediante e repórter do CQC Danilo Gentili foi duramente criticado por uma piada com judeus. Ao saber que moradores do bairro Higienópolis temiam a construção de um metrô na localidade, Danilo postou no seu Twitter: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”. O repórter do CQC foi repreendido por outros usuários do site, apagou a mensagem e pediu desculpas. Afinal, piada boa é aquela que não cria constrangimento?
Verissimo – No caso está-se brincando com a memória dolorida e com muita gente, e acho que em qualquer circunstância deve-se respeitar a dor alheia. Se o cara pediu desculpa, é porque não tinha se dado conta de que não fizera apenas uma piada, mas dera uma prova de insensibilidade.

Portal3 – Antes de publicar algo que envolva humor, você testa a piada com sua mulher ou seu cachorro?
Verissimo – Não.

Portal3 – Qual a frase engraçada que você mais gosta de citar?
Verissimo – Pra baixo todo santo ajuda. É o mais cínico de todos os ditos populares.

Portal3 – O jornalista Millôr Fernandes diz que deveria existir um sinal gráfico para indicar que um texto está sendo irônico. Como poderia ser esse sinal? Você já se complicou fazendo alguma ironia?
Verissimo – O problema é que quando a gente escreve com ironia nem sempre é lido com ironia. Já me compliquei, sim, escrevendo coisas tão absurdas que ninguém – era o que eu pensava – poderia levá-las a sério, ou não notar que era ironia, mas que muita gente levou a sério. Isto aconteceu mais de uma vez.

Portal3 – É comum que pessoas contem piadas de “mau gosto” entre amigos. No entanto, quando um humorista ou uma figura pública conta algo do gênero, muita gente critica. Você acha que há certa hipocrisia nessa atitude?
Verissimo – Sem dúvida. Nenhum de nós está livre de apreciar uma piada de mau gosto, se, além de infame, ela for engraçada, mas não gostamos de ouvi-la às claras, principalmente se for uma piada que reforce algum tipo de preconceito.

Portal3 – Piada é piada quando funciona. Mas o humor deve levar em conta o local onde vai circular? Daria para contar uma piada de gaúcho no CTG?
Verissimo – O humor gaúcho tem muito de autogozador, o próprio gaúcho supertradicionalista tem algo de autoparódia nos seus exageros. E ouvem-se muitos causos de gaúchos grossos barbaridade em CTGs.

Portal3 – Os norte-americanos parecem ser mais abertos a certos tipos de piadas politicamente incorretas do que os brasileiros. Algumas das coisas que se vê nos programas de lá dificilmente seriam bem aceitas aqui. O público brasileiro é mais conservador no humor?
Verissimo – Eu acho o contrário. Nos Estados Unidos é raro você ver, hoje, certos estereótipos – o judeu usurário, o negro não muito inteligente, o gay espalhafatoso – que ainda são comuns nos programas humorísticos brasileiros. O humor brasileiro é que é conservador, na medida em que conserva seu gosto por tipos que ainda são do tempo do circo, do rádio e do teatro de revista.

TAGS
, ,

27 de Junho de 2011 às 5:58 pm

Deixe um Comentário

© Copyright 2013, Agexcom