Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

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Guerrinha aconselha: “Quem está começando tem que botar na cabeça que não sabe nada”

Guilherme Endler
Estagiário de Jornalismo

Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, está há 28 anos na RBS, onde atualmente trabalha como colunista de esportes no Diário Gaúcho, além de participar dos programas Sala de redação, na Rádio Gaúcha, e Bate bola, na TVCOM. Também é comentarista nas jornadas esportivas da rádio.

Colorado assumido, Guerrinha é conhecido pelo sarcasmo e pelo esforço de  imparcialidade, sempre presentes nos seus comentários. É um dos poucos jornalistas esportivos gaúchos reconhecidos e respeitados pelas duas principais torcidas de futebol, mesmo sendo identificado com o lado vermelho do estado.

Em junho deste ano, o comentarista envolveu-se em uma polêmica com Paulo Roberto Falcão, seu ex-companheiro de Rádio Gaúcha. Na época treinador do Internacional, Falcão acusou publicamente Guerrinha de tentar derrubá-lo do cargo. Em entrevista ao Portal3, o jornalista comentou o caso e revisou sua trajetória profissional. Confira.

Guerrinha é o terceiro entrevistado da série Papos & Pautas, em que estagiários do Portal3 conversam com grandes nomes do jornalismo gaúcho. Os entrevistados anteriores foram o editor do Jornal JÁ, Elmar Bones, e o editor especial de Zero Hora, Moisés Mendes.

Portal 3 – Como foi teu começo no Jornalismo?
Adroaldo Guerra Filho –
Comecei com 21 anos. Tinha um jornal da RBS chamado Jornal Hoje, que durou só oito meses. Foi criado para combater a Folha da Tarde, o que era um suicídio, a Folha da Tarde (do grupo Caldas Júnior) vendia para caramba, e o Jornal Hoje em oito meses não segurou o rojão, capotou. Daí eu saí da RBS e fui trabalhar na Folha da Manhã, que depois de um ano também fechou, porque não era rentável. Com isso, a maioria da equipe foi fazer o Correio do Povo. Na época, eu fazia turfe, não fazia futebol. Daí em 1983, vim para a Zero Hora e estou aqui desde então. Eu tinha 28 anos na época.

Portal 3 – Quando foste para o futebol?
Guerrinha –
Em 1995. Não é que antes eu não podia fazer, mas a verdade é que ninguém queria fazer turfe, e eu gostava, gosto até hoje. Curto muito, tive cavalo e tudo. Mas o turfe, ao contrário do futebol, não se renovou, né? As pessoas não levam as crianças para o joquéi, hoje ninguém sabe quando tem corrida. Então o turfe foi perdendo a força. A empresa resolveu que o turfe não valia mais a pena e pensou: “O que nós vamos fazer com o Guerrinha?”. Perguntaram se eu queria fazer futebol, e eu disse: “Sem problema!”.

Portal 3 – Começou como repórter?
Guerrinha –
Sim. Comecei como setorista, cobrindo o Inter e o Grêmio. Depois, quando criaram o Diário Gaúcho, o Cyro Silveira Martins Filho, que foi o idealizador da coisa, me chamou para ir junto, ser editor de esportes e colunista. Ali eu embalei. Sou colunista até hoje, mas não sou mais editor, porque é muito violento o negócio, sabe? O cara que vive o dia do jornal chega aqui às 13h30min para participar de uma reunião de pauta às 14h e só sai daqui com o jornal embaixo do braço. Hoje, o Diário roda às 22h30min, mas, na época, era à meia-noite, meia-noite e quinze. O sujeito fica morto, é uma vida de louco.

Portal 3 – O rádio veio quando?
Guerrinha –
Logo depois que fui para o Diário me chamaram para estrear um programa da Gaúcha. Eles estavam planejando o Falcão na Gaúcha, e ele (Falcão) disse que só aceitava fazer se eu fosse junto, porque queria um toque de humor no programa. Não levei muita fé. Falei que aceitava, mas que não ia dar certo. Nunca tive convicção que ia dar certo, porque eu nunca tinha feito rádio antes. Mas acabou dando certo mesmo!

Portal 3 – Em que ano foi isso?
Guerrinha –
Lá por 2000 ou 2001, não lembro direito. Lembro que a estreia foi num 1º de maio, mas o ano não guardei muito. No último ano em que eu fiquei com o Falcão, o Kenny Braga entrou de férias no Sala de redação e me chamaram para ficar no lugar dele por 30 dias. Quando acabou esse período, me falaram que eu não ia mais sair, e acabei sendo efetivado. Já estou há seis anos no programa.

Guerrinha trabalha há 28 anos na RBS.

Crédito foto: André Feltes/Diário Gaúcho

Portal 3 – Tu pensavas em fazer TV, ou foi algo inesperado que nem o rádio?
Guerrinha –
Também jamais havia pensado em fazer televisão. A RBS tinha um programa chamado Lance final, que ia ao ar todos os domingos, ao vivo, depois do Teledomingo. A ideia do programa era botar alguém identificado com o Inter e outro com o Grêmio para fazer debates. Era apresentado pelo Pedro Ernesto Dernadin e tinha participação do Cacalo e do Ibsen Pinheiro

Mas o Ibsen ia concorrer a um cargo eletivo, então o Nelson (Sirotsky, presidente do Grupo RBS) me chamou para fazer um piloto. Eu não achava boa ideia, porque ia ter que me identificar como Colorado e, como eu era editor de esportes, seria ruim para o jornal, né? Quando o Nelson me perguntou se era melhor eu ser colorado na RBS ou isento em outro lugar, eu respondi na hora: “Que horas eu tenho que estar lá no estúdio?” (risos)

Portal 3 – No fim acabou dando certo também…
Guerrinha –
Sim. Fui lá fazer o piloto no outro dia, ainda com a esperança de que não ia dar certo. Achava que não ia ficar legal. No Rio Grande do Sul, a gente tem algum cuidado, porque aqui não tem meio termo: Ou tu é azul, ou tu é vermelho.

E é difícil de lidar com esse negócio. É claro que todos nós temos um time, mas é difícil de admitir, o público cobra muito aqui. Então fui lá fazer o piloto e fiz uma baita esculhambação. Fiz todas as coisas que eu costumo fazer normalmente, porque eu sou assim mesmo, sou gozador, sou sacana. Pensei que, com todas as bobagens, o programa não ia ser aprovado, mas no mesmo dia o homem me ligou dizendo que era aquele perfil mesmo que ele estava procurando. Então acabei ficando. Logo depois surgiu o Bate bola, onde estou até hoje. Mas, dos três veículos, ainda prefiro o jornal impresso.

Portal 3 – Por quê?
Guerrinha –
Porque nele, se tu falar bobagem, arruma-se. No rádio ou na TV, se tu disser m****, já era. Aí já prepara o advogado porque vai dar encrenca (risos). Até hoje, não me incomodei nem em rádio nem na televisão. Mas o jornal é melhor.

Portal 3 – Como tu disseste, é muito difícil para um jornalista esportivo reconhecer abertamente que é torcedor de determinado time. Como tu conseguiu te identificar com o Inter e, mesmo assim, ser respeitado pela torcida gremista?
Guerrinha –
A receita é muito simples: tu tens que saber, em primeiro lugar, separar a tua condição de profissional da de torcedor. Isso é fundamental. Em segundo lugar, tens que fazer o que eu acho ainda mais importante: quando tu vais agir como profissional, não podes enxergar o futebol com o coração, só com os olhos. É que nem quando tu criticas o teu filho. Por mais que ame o meu filho, tenho que admitir quando ele erra. Uso essa mesma regra com o futebol. Outra coisa que pesa muito: eu não sou antigremista. Não tenho alegria quando o Grêmio perde, tenho alegria quando o Inter vence. Além disso, se tu falas a verdade, as pessoas entendem que tu estás falando como profissional e não como torcedor. Acho que é muito simples. Mas respeito e entendo quando os profissionais não querem abrir o time do coração, justamente pela rivalidade, que ainda existe. Acho que é muito difícil conseguir o respeito da torcida adversária como eu consegui. Inclusive recebo muitos e-mails de gremistas pedindo: “Pelo amor de Deus, nos ajuda!”.

Portal 3 – Como começou a tua paixão pelo turfe?
Guerrinha –
Meu pai gostava muito de turfe, foi um grande rádio-ator, um homem de sucesso na profissão e ele nunca foi muito fanático por futebol. Mas gostava muito de corrida de cavalos. Ele me levou com nove anos para ver os cavalos correrem, e eu fiquei fascinado com aquilo, com as cores, com a velocidade dos cavalos, e ali peguei gosto pela coisa. Depois, com 14, 15 anos eu já ia ao jóquei sozinho e apareceu uma chance de trabalhar no turfe, na rádio 1.120, eu comecei a narrar corrida de cavalos, e acho que fazia bem. Tanto acho que fazia bem que, depois que a rádio abandonou o turfe, fui locutor oficial do Jockey Club por mais 12 anos. Narrava sábado, domingo e segunda, sempre. Adoro cavalos.

Portal 3 – Que herança trouxeste dessa época como narrador de turfe?
Guerrinha –
O turfe é uma coisa diferente, porque tu tens que descobrir o que o cavalo sente. Ele não fala se ele está com dor, se está disposto, se ele quer correr, tu tens que descobrir isso. Então o turfe me ajudou muito nas coisas que uso hoje, me ajudou a separar a razão da emoção.

Portal 3 – Hoje o que te dá mais emoção: uma partida de futebol ou uma corrida de cavalo?
Guerrinha –
(pausa) Tem partidas de futebol que me dão muita emoção, mas eu gosto do futebol bem jogado. Tive um azar na minha vida: ver os bons jogarem. Esse é o grande problema. Dizem que sou exigente com os volantes do Inter, mas tenho bronca com eles porque vi o Falcão jogar. Se eu não tivesse visto ele jogar, eu ia achar que o Claiton e o Edinho jogam uma barbaridade. Não jogam nada, não sabem nada. Eu vi os bons jogarem, eu vi Pelé, vi Garrincha, esses caras todos. E não tem nada como o espetáculo que é uma partida de futebol bem jogada. Mas tem que ser bem jogada. Muitas vezes, na maioria delas, eu fico com pena da bola, acho que ela sofre. Mas a corrida de cavalo também me dá emoção, dá uma adrenalina diferente, porque ali envolve aposta, envolve dinheiro. É diferente a adrenalina.

Portal 3 – Muitos estudantes de Jornalismo ingressam no curso sonhando em trabalhar com esportes. Que dica tu daria para alguém que quer começar nessa área, onde existe muita concorrência?
Guerrinha –
Insistir. Na vida tudo é insistência. Além disso, o cara que vai começar tem que botar na cabeça que ele não sabe nada. Esse é o primeiro mandamento. A humildade é a receita da coisa. O conhecimento vai avançar conforme tu começas a trabalhar, mas não dá para começar achando que já sabe tudo, porque tu não vai chegar a lugar nenhum. Hoje, com 56 anos, posso te dizer, com certeza, que não sei tudo. Eu aprendo todo dia. Muitos desses meninos que estão começando ouvem um programa esportivo e botam na cabeça: “Pô, esse cara do programa não sabe nada, eu é que sei”. Quem pensa assim não vai chegar a lugar nenhum, tem que ter humildade. E tem que ter insistência. Se tu queres ser isso, luta para ser isso. Depois, se tu entrar e não gostar, bom, vai fazer Economia, vai fazer Palavras-cruzadas, Horóscopo, tudo bem. Mas luta pra ser o que tu queres, porque tem espaço, sim. Os bons ficam… Os ruins, não.

Portal 3 – Qual foi o maior aprendizado que o jornalismo te trouxe?
Guerrinha –
Ouvir. O jornalista é igual médico, né? Não tem feriado, não tem domingo, não tem p**** nenhuma. Às vezes tu estás numa festa, por exemplo, e ouve alguma coisa interessante. Tu és jornalista naquele momento. A partir daquela informação, a pessoa vai atrás, vai checar. Às vezes, o grande furo está aí. Não está no ambiente do futebol, mas sim fora dele. Então tu tens que estar sempre com o ouvido limpinho e com os olhos arregalados, porque as coisas acontecem. O bom do jornalismo é quando as coisas te surpreendem. Sei lá, supondo que pegou fogo na praça. Todo mundo sabe que pegou fogo na praça, vai todo mundo para lá. Então, tu és um a mais a dar essa noticia, certo? Tu tens que estar sempre antenado para tentar saber coisas que os outros não sabem. Se tu souberes coisas que os outros não sabem e utilizar bem essa informação, tu vais ganhar notoriedade. E ganhando notoriedade, tu vais ganhar espaço. E ganhando espaço, tu vais crescer.

Portal 3 – Como é o ambiente do dia a dia no estádio e a convivência com os jogadores e dirigentes?
Guerrinha –
É uma convivência boa. Quando eu comecei no futebol, eu aprendi que toda entrevista tem que ser precedida por alguma coisa que tire a atenção do entrevistado. Tu não podes chegar para o cara e dizer: “Pô, cara, falaram que tu és uma m****”. Ele vai te dar uma resposta que vai ser como um tiro no teu peito. Tu tens que conversar. “Bah, e aí, como anda a tua família e coisa e tal?”, “Pô, o que tu achaste de domingo? Aquele time dos caras nem era tudo isso, né? A gente podia ter ganho”, sabe? Daí pronto, liquidou. Daqui a pouco o cara te diz coisas que tu jamais imaginaste.

Portal 3 – Tu já conseguiste alguma declaração importante desse jeito?
Guerrinha –
Sim. Naquele ano em que o Gauchão foi decidido em dois Gre-Nais, e o Ronaldinho deu um balãozinho no Dunga, sabe? Arranquei

Guerrinha: "O bom do jornalismo é quando as coisas te surpreendem."

Crédito foto: André Feltes/Diário Gaúcho

uma declaração do Dunga nesse estilo. Depois do treino, a gente estava conversando, e ele falou assim para mim: “Vou pegar o Ronaldinho no domingo, ele é maldoso e sempre entra por cima da bola”. Eu botei no jornal. No dia seguinte, deu uma baita repercussão.  Foi todo mundo atrás do Dunga, querendo saber se era verdade. E eu tinha certeza que ele ia desmentir. Mas não, ele assumiu e ainda repetiu que ia pegar o Ronaldinho. Foi aí que eu vi o verdadeiro caráter do Dunga, sabe? Sei que muitos reclamam que ele é duro com a imprensa, mas não tenho nenhuma queixa dele. Eu sempre trabalhei muito bem com o Dunga.

Portal 3 – Como tu lidaste com as acusações que o Falcão fez publicamente contra ti, dizendo que tu querias derrubar ele do cargo?
Guerrinha –
Na verdade, isso aconteceu porque o Diogo Olivier me ligou para perguntar qual era a chance do Mário Sérgio vir treinar o Inter, porque todo mundo sabe que o Mário é meu irmão, né? E eu disse que não tinha nenhuma chance, porque ele estava em recuperação de uma cirurgia de joelho. Não tinha nenhuma chance mesmo. E o Diogo me disse: “Ah, eu vou botar na minha coluna que ele está sendo cogitado pelo Inter”. Falei que a coluna era dele, e não minha. E ele botou. Então o Nando Gross, que é muito amigo do Falcão, disse para ele (Falcão) que essa história era uma campanha minha para tirar ele do cargo.

(Pausa)… E o Falcão acreditou. Em vez de pegar isso aqui (mostra o celular), que foi feito para ligar… Pô, liga para mim e pergunta que bobagem é aquela. Eu ia falar que não tinha nada a ver, para ele tocar ficha no trabalho dele. Mas não. Ele estava acuado também, né? E foi lá e falou aquilo.

Portal 3 – Tu chegaste a falar com ele sobre isso?
Guerrinha –
Nunca, nunca. Ele que tinha que falar comigo, ele que fez a barbeiragem, não fui eu. Eu não fiz campanha para o Mário Sérgio nem na primeira vez que ele veio. Nunca fiz campanha para treinador no Inter. A única vez em que eu falei sobre treinador com dirigente foi a favor do próprio Falcão. Liguei para o Siegmann, que é meu amigo, e disse para ele resolver logo aquela história, porque ia ser legal, o cara (Falcão) é ídolo e tudo. Mas hoje nem quero mais assunto com o Falcão. E ele mostrou o caráter dele. Não para mim, mas na entrevista de despedida, e principalmente no (programa do Sportv) Bem, amigos, em que ele chutou o balde contra a instituição. Não podia ter feito isso, isso é burrice. Todo clube que pensar em contratar o Falcão e quiser informações sobre ele vai ligar primeiramente para o Sport Club Internacional. O que os caras vão dizer?

 

 

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18 de Agosto de 2011 às 5:35 pm

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