Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo
A divulgação de notícias sobre pessoas que decidem por fim à própria vida é um tema polêmico na sociedade. De um lado, aqueles que consideram que a veiculação de suicídios possa incentivar o ato. De outro, os que acreditam que uma divulgação maior chamaria a atenção da sociedade para aquela que é a décima causa de morte no mundo. Em meio a essas questões, estão os profissionais da mídia, que se deparam com uma grande questão: como cumprir o dever de informar sem ferir a suscetibilidade do público?
A tragédia é tão silenciosa quanto a veiculação. Encontrar matérias referentes a suicídio nos principais informativos diários é incomum. No último dia 12, o ex-estudante de jornalismo Fábio Le Senechal Nanni, 26 anos, atirou-se do sexto andar de um prédio no bairro Cambuci, zona norte de São Paulo. Senechal era acusado pela morte do colega Rafael Azevedo, a facadas, em 2005, dentro da Universidade de São Paulo, onde ambos estudaram. Fábio sofria de depressão e TOC. Como herança, uma carta de duas páginas deixada à família – e não divulgada.
Fábio faz parte de uma estatística. No Brasil, cerca de 24 pessoas cometem suicídio por dia, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. O fenômeno é mais recorrente em regiões de maior desenvolvimento econômico, sendo que os índices mais elevados pertencem ao Rio Grande do Sul (11 suicídios para cada 100 mil mortes). A pergunta que fica é: onde estão essas tantas outras mortes trágicas que não aparecem nos jornais?
Em maio de 2008, uma série de reportagens no jornal Zero Hora abordou o suicídio. Carlos Etchichury, responsável pelas reportagens, sabia que não poderia simplesmente escrever sobre o assunto. Era preciso um cuidado especial, já que existem evidências suficientes para sugerir que o número de suicídios esteja vinculado a algumas formas de cobertura jornalística sobre o caso. “Tive um assessoramento para que as matérias fossem feitas. Discuti com psiquiatras o uso de termos nos textos. Não tive nenhuma restrição, a maioria me incentivou a escrever a abordar o assunto”, conta o repórter.
A percepção de que a mídia possa influenciar o suicídio é antiga. No século XVIII, o escritor e pensador alemão Goethe precisou vir a público se defender das acusações de ter induzido centenas de jovens ao suicídio por meio do livro Os sofrimentos do jovem Werther. No romance, o protagonista sofre de amor não-correspondido e decide acabar com sua vida. O episódio ganhou lugar na literatura médica com o nome de Efeito Werther. Nos tempos atuais, para prevenir o que hoje é chamado de “efeito imitação do suicídio”, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) desenvolveu, em outubro de 2009, a cartilha Comportamento suicida: conhecer para prevenir, dirigida aos profissionais da imprensa.

Goethe: da literatura para as cartilhas médicas graças ao "Efeito Werther"
Um dos aspectos apontados na cartilha da ABP é que o suicídio pode entrar em pauta em casos excepcionais. É relevante noticiar suicídios quando o autor é adolescente, quando há um homicídio seguido por suicídio ou quando as condições do ato são singulares. Exemplo claro é o caso do jovem porto-alegrense que se matou enquanto estava em uma sala de bate-papo na internet, em 2006. “É trágico, mas do ponto de vista jornalístico, é um caso fantástico”, opina o Etchichury.
A publicação de matérias que lidam com questões ligadas à vida e aos sentimentos humanos atinge o público. A dimensão desse impacto depende da maneira pela qual os fatos são noticiados. “É importante que os comunicadores compreendam que tudo que é veiculado na mídia toca a sociedade no ponto racional e no afetivo também”, alerta a professora de Comunicação e Psicologia da Unisinos Maria Luiza Cardinale. Para ela, a mídia influencia no comportamento humano: “O recheio de uma informação de impacto pode produzir um resultado imprevisível”, completa.
Detalhes mórbidos

Leila Lopes teve sua carta divulgada pela imprensa
“Não chorem, não sofram, eu estou absolutamente feliz! Era tudo o que eu queria: ter paz eterna com meu Deus e, se possível, com minha mãe”. A frase foi retirada da carta que a atriz Leila Lopes deixou para os familiares antes de cometer suicídio, em dezembro de 2009. A carta foi divulgada por decisão da família, que na época encarou como uma explicação aos fãs de Leila.
A divulgação de cartas deixadas por suicidas não é frequente. Para o jornalista Paulo Gleich, a publicação dos escritos da atriz foi uma consequencia. “O caso da Leila Lopes já começou atrapalhado. A morte dela já foi divulgada como suicídio antes de se confirmar a causa. Foi um passo adiantado da mídia, e ela teve que dar continuidade quando as evidências de suicídio vieram à tona”.
Na época, foram divulgados detalhes da cena. Ao lado do corpo, embalagens vazias de medicamentos e comida com veneno de rato. “Uma coisa é abordar o suicídio como um problema, estimulando uma discussão em torno do suicídio. Outra bem diferente é noticiar uma morte em detalhes, levantando hipóteses. Pode se tornar um prato cheio pra quem está passando por dificuldades”, opina Gleich.
Temor x Omissão
Em dezembro de 2004, a tragédia do jovem Felipe Klein, que cometera suicídio em abril do mesmo ano, ganhou as páginas do Jornal Já. Fruto de um mês de apuração, a matéria rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo ao repórter Renan Antunes de Oliveira.
Antunes faz parte do time de repórteres que acredita que o suicídio deve ser tratado como notícia comum. Alvo de críticas na época da veiculação da reportagem, o repórter conta que foi chamado de sensacionalista e oportunista, mas rebate os que dizem que a veiculação da matéria poderia ter influenciado jovens a cometerem suicídio. “A questão da influência é uma discussão atrasada e inválida. O máximo que pode acontecer é um pai ler a história de um suicida e perceber que, se o filho é parecido, ele talvez possa ajudar”.
A questão, na opinião de Paulo Gleich, não pode ser tão simplificada assim. Acreditando que noticiar suicídios traz poucos benefícios a sociedade, o jornalista crê na influencia que atos drásticos podem exercer sobre as pessoas. “Dizer que só sem mata quem quer é partir do pressuposto que o ser humano tem controle sob suas inquietações. Há pessoas que poder ser afetadas por notícias desse tipo por já possuírem problemas”.
Entre o justo cuidado e a omissão, é possível buscar um meio termo. “Sempre que tiver que abordar o suicídio, eu prefiro dar uma página inteiracom prestação de serviços do que um balaio de cinco linhas, quase que me desculpando com o leitor por ter publicado a matéria”, conta Etchichury que ressalta a precariedade dos meios de comunicação nesse sentido. “A mídia tem o papel de cobrar e não usa seu poder abrangente para isso, ficando no silêncio”.
É fato que a mídia pode ser encarada como um auxílio na justiça e na sociedade. Porém, em assuntos delicados como o suicídio, é importante pensar em uma relação custo-benefício. Qual seria o custo social de tornar público casos de suicídio e qual o benefício político que poderia trazer no que diz respeito ao desenvolvimento de políticas sociais que auxiliam no tratamento de suicidas em potencial? Para Maria Luiza, o impacto da veiculação atinge mais a sociedade que as autoridades, e o resultado final é imprevisível. “A forma de apresentar as medidas drásticas que culminam no suicídio como um espetáculo é desnecessária. Não contribui em nada para que a pessoa aprenda a viver melhor e não agrega valor informativo ao ser humano”.
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6 de Maio de 2010 às 5:20 pm
Que dizem os psicólogos? Há um entendimento DENTRO DOS VEÍCULOS de que noticiar suicídios influencia novos casos. No entanto, os estudiosos da mente humana estão divididos – vide pesquisas mundiais. Divulgando somente a “opinião” dos jornalistas podemos estar perpetuando um mito.
Controverso. Segue link de um manual para jornalistas, publicado pela OMS:
http://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_media_port.pdf
Parabéns pela reportagem. Um assunto pertinente e obscuro que deve ser discutido, implicando no papel do jornalista na sociedade. Muito bem escrito.
Pessoal, segue aqui uma cartilha orientada para profissionais da imprensa, cujo nome é: Comportamento Suicida: Conhecer para prevenir.
É bem legal e vale a pena dar uma olhada!
É diferente do que o colega indicou post acima!
Belo texto
A matéria poderia ter um plus com a CVV( Centro de Valorização à Vida), com sede em Poa. Esta Instituição atende uma demanda imensa de suicidas, além de trabalhar com voluntariado qualificado e preparado em seus cursos de formação!
ótima matéria, parabéns!