Da Graduação ao Doutorado, o Norte e o Nordeste se deixam abraçar cada vez mais pelos ares do sul. Na Unisinos, de cada quatro estudantes de Pós-Graduação na Comunicação, um vem de fora do Rio Grande.
Andrei Andrade
Estagiário de Jornalismo
25 de fevereiro de 2009. Após cumprir um desgastante banco de horas extras no trabalho, o estudante de jornalismo da Unisinos Rafael Cavalcanti finalmente embarcou no ônibus que 96 horas depois o deixaria em Salvador, Bahia. Mas não eram as maravilhas da capital baiana o motivo da demorada viagem. Chegando lá, ainda embarcaria em outra condução rumo a Maceió, para ser recebido 10 horas depois pela famÃlia em sua terra natal.
Quando deixou Maceió, Cavalcanti cursava o sexto semestre de jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Chegou a São Leopoldo no dia 1º de agosto de 2008, sob um frio “arretado” de 5°C. A ideia de estudar na Unisinos surgiu em uma visita ao Estado em 2007 para um evento acadêmico em Porto Alegre. Na ocasião, um professor recomendou a visita à universidade, que teria um bom ambiente de pesquisa e destacada infra-estrutura tecnológica. “Na UFAL o aparato tecnológico de laboratórios de rádio e TV deixam muito a desejar, além de não haver disciplinas de jornalismo online”, conta Cavalcanti.
Envolvido com a pesquisa em TV digital e com ações do Movimento Estudantil, o “Butigahn”, apelido trazido do nordeste e cujo significado nem o google reconhece, sustenta-se com R$ 300,00 mensais de uma bolsa de iniciação cientifica. Mora em uma república de estudantes e complementa sua renda esporadicamente como garçom em bares de São Leopoldo. Neste semestre, cursa uma única disciplina, de dois créditos: “Se quisesse me formar por aqui, passaria pelo menos dois anos cursando o sexto semestre”, brinca. Sua intenção é retornar para a UFAL no final de 2009 para terminar o curso, e depois regressar para o Sul em busca de uma bolsa de mestrado.
Assim como Cavalcanti, a Unisinos tem recebido a cada ano um grande número de estudantes de todos os cantos do Brasil – muitos deles vindos do Norte e Nordeste. Em terras gaúchas, absorvem um pouco dos costumes locais, reforçam o que consideram o melhor da sua cultura e voltam para casa cheios de história e experiências.
As escolhas de Evana
A paraense Maria Evana Ribeiro foi parar no curso de Jornalismo da Unisinos por conta de dois amores: o marido gaúcho e a fotografia. Natural de Bragança, interior do Pará, Evana já morava em Belém quando começou a trabalhar tirando fotos 3×4 e vendendo produtos da marca Polaroid. Quando atravessou os 3.973 quilômetros que separam a capital paraense de Porto Alegre, já tinha como projeto cursar Comunicação Social e dedicar-se ao fotojornalismo, fruto da paixão que aflorou após trabalhar tantos anos em lojas e laboratórios de fotografia.
No Estado desde 2001, Evana não perde a identificação com a cultura da sua terra. “Sempre que alguém vem de lá, peço cupuaçu, açaÃ, farinha de tapioca. E na minha casa ouvimos muito os ritmos de lá, como o carimbó e o siriá”, relata. Para quem vai ao Pará, ela recomenda que assista ao CÃrio de Nazaré, tradicional festa religiosa que ocorre anualmente, e visite o museu Emilio Goeldi, uma área de mata atlântica preservada, em pleno centro de Belém.
Ao conhecer a conterrânea Lorena Risse, colega do curso de Jornalismo, declarou que quando encontra alguém da sua terra, “quase sem notar a gente volta a ter o sotaque que tinha. É bom ver que outras pessoas fazem o caminho que a gente escolheu”. Atualmente, Evana faz estágio no setor de Comunicação da Secretaria de Justiça e Desenvolvimento Social do Estado. Na Unisinos desde 2001, a “gaúcha por adoção” admite estar adiando a formatura por não imaginar-se fora da sua segunda casa.
Inhame na casa de Luciano

A culinária de Luciano Correia faz sucesso no PPG
No Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), tão aguardada quanto a chegada de Luciano Correia são as especiarias culinárias de Aracajú trazidas pelo sergipano, que está no segundo ano de doutorado na Unisinos. Castanhas de caju, umbuzada, suco de jenipapo e manga-espada “do tipo que não tem no sul”, são só alguns dos produtos que fazem a festa de colegas e funcionários do 3º piso do prédio da Comunicação. Isso quando ele não convida os amigos para comer inhame cozido com linguiça e ovos fritos no apartamento alugado onde vive em São Leopoldo desde março de 2006.
Correia tem longa trajetória nas redações da capital sergipana e de São LuÃs, no Maranhão, onde foi diretor de jornalismo da TV Mirante, afiliada da Rede Globo. Também foi apresentador, e exibe com orgulho no DVD a entrevista que fez com Lula em 1989, em seu programa na TV Sergipe. Quando decidiu fazer mestrado na Unisinos, o que pesou foi a vontade de conhecer outra cultura, mesmo depois de ter morado em quase todos os Estados do Nordeste. Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), ele pensa em retornar para Aracaju em 2011, quando concluir o doutorado, levando do Sul CD’s de música gaúcha e costumes como o churrasco, o chimarrão – para tomar no frio – e a graspa, que para ele “é boa a qualquer momento”.
Receber pessoas do Brasil todo é um dos ingredientes principais do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos. O conceito máximo de avaliação da Coordenação Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de NÃvel Superior (CAPES) ajuda a despertar o interesse de quem opta pelos cursos de mestrado e doutorado que a universidade oferece. Um em cada quatro estudantes matriculados no programa em 2009/1 nasceu fora do Rio Grande do Sul. Vinte são naturais dos Estados do Norte e Nordeste. O Piauà é o que mais exporta estudantes para a Unisinos: são seis neste semestre.
Uma das últimas a deixar as praias rumo ao vale, a publicitária Rafaela Barbosa trocou a agência de publicidade que criou em Teresina (PI) pela vida acadêmica. A vontade de ser professora foi o que motivou a mudança do mercado para a universidade. Natural de Caxias, interior do Maranhão, chegou a São Leopoldo no último dia 16 de março para assistir à primeira aula no mestrado. Ainda sem arriscar comentários definitivos sobre os gaúchos, confessa que a primeira impressão que teve foi a de ser um povo “mais frio e reservado”, embora de cultura e educação fáceis de reconhecer.
Transitoriedade
O pesquisador e coordenador do curso de pós-graduação em Juventude da Unisinos, Dr. Hilário Dick, aponta dois motivos principais para o que define como transitoriedade da juventude. Em primeiro lugar, a tendência do jovem de deixar a famÃlia. “A rua é a famÃlia do jovem contemporâneo”, afirma. Em segundo lugar, a busca pela formação, onde ela possa estar. “A universidade surgiu na Idade Média e as pessoas percorriam longas distâncias em busca da melhor formação. A idéia de campus surge naquela época. Viaja-se hoje pela formação não mais por necessidade, já que há universidades em todos os lugares, mas por excelência”. Dick lamenta que o perfil do jovem viajante mudou muito nas últimas décadas: “Infelizmente, a busca do jovem que deixa o lar não é mais a de buscar o bem social ou o bem do outro. A aventura hoje dá lugar a certeza, e o jovem só parte em busca do que está garantido para ele”, destaca.
“Esta convivência com estudantes de outros Estados é fundamental para a formação pessoal do aluno, por ser a comunicação um exercÃcio de educação continuada, onde é preciso estar sempre acrescentando coisas na bagagem que carregamos”, afirma o coordenador do curso de jornalismo da Unisinos, Edelberto Behs. “Conhecer outras culturas, entrar em contato com o outro é uma forma de ampliar os horizontes. Por isso, quando alunos me dizem que querem estudar no Maranhão, na Amazônia ou no Alemanha, eu digo na hora: vão”.
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7 de Abril de 2009 às 4:42 pm
Gostei dessa matéria. Assim a gente conhece mais os colegas. Sabes que tenho uma baita simpatia por este povo que vem de fora se aventurar neste pampa de meu Deus.
Parabéns pela reportagem ficou excelente como eu previa hehe. Texto bem escrito e agradável à leitura. A Agex recebeu um bom repórter, parabéns.
Sucesso!
Poxa Andrei, esqueceu logo de mim, que sento do teu lado?! Ts, ts… Seria um ponto de vista diferente de alguem que se criou por aqui, quer viver ainda muito por aqui, mas que sempre retorna à sua terra todos os anos. Acredite, é um sensação estranha que só quem se muda ainda pequeno é capaz de explicar, assim como a visão e o tratamento das pessoas do lugar que escolheu para viver, já que nunca será como se houvesse nascido por aqui.
Comentário a parte, adorei a máteria. Parabéns!
Ganhamos um grande repórter aqui no Portal.
colega vc trocou a mata atlantica pela amazonia,o museu de Belém é um pedaço da amazonia,ok! mas ficou muito boa a reportagem
O pessoal do Portal 3 vai começar a pensar q o Andrei me contratou pra elogiar os textos dele, mas, fazer o q, adorei a matéria! Vamos nos unir para desbancar os jornais da nossa Serra?! rsrs! Mais uma estrelinha pra ti, amigo, segue a diante.
Parabéns, Andrei! Primeira matéria sua que leio aqui no portal. Muito boa!!!
Pena que o Walter teve que trocar a Unisinos pela Puc. Ele era mais um representante do Pará por aqui.
A Unsinos tende a atrair gente de tudo quanto é canto, mesmo…
Abraço da colega que representa o sudeste, hehe.
Eu comi o inhame que o Luciano fez… delÃcia!
bah… muito legal Andrei. Unisinos lugar de todos os povos.
O Rafael da primeira foto parece o Mionzinho! hauhauhauha