Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

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O que aconteceu com o JB?

Lílian Stein
Estagiária de Jornalismo

“O Jornal do Brasil, coerente com sua tradição de pioneirismo e modernidade, se coloca mais uma vez à frente do seu tempo. A partir de 1º de setembro de 2010, passa a ser o primeiro jornal 100% digital”. Em anúncio oficial, foi dessa forma que a diretoria do JB divulgou o fim da circulação da versão impressa do veículo.

A partir de setembro, um dos mais importantes jornais brasileiros abandona o papel. Estará disponível apenas na internet. O acesso vai custar R$ 9,90 mensais

Supostas falhas de gestão, além do alto custo da folha de pagamentos – que beirava R$ 1,5 milhão –, ameaçavam a versão impressa. A direção do jornal chegou a encomendar uma pesquisa de opinião com o objetivo de verificar reações do público frente à possibilidade de o JB tornar-se totalmente eletrônico. A previsão era de que o resultado do estudo fosse divulgado em agosto, o que fez com que jornalistas, colaboradores e leitores fossem pegos de surpresa com o anúncio da última terça-feira, 13.

A professora de História da Comunicação Maria Luiza Cardinale Baptista, a Malu, define o fim do JB impresso como “uma perda” e credita a mudança ao custo de impressão. “É preciso pensar no peso de uma notícia impressa e de uma notícia em caráter virtual. Mesmo assim, acredito que o jornal não muda. O que muda é o suporte. Essa realidade vai acabar mudando a recepção de informações, que é diferente de acordo com o veículo”.

Malu cita o último livro do escritor Umberto Eco, Não contem com o fim do livro, e vê a modificação não como tendência: “A mudança não segue uma tendência jornalística. O que é tendência, na verdade, é a mescla. O que aconteceu com o JB envolve questões empresariais”.

A jornalista fala também do apego do leitor à versão impressa do conteúdo: “O fim do Jornal do Brasil impresso é uma perda. Talvez estejamos falando sob um ponto de vista romântico, mas o leitor gostar de dizer ‘o meu jornal’. Agora, ele não poderá mais falar ‘o meu JB’ ”.

“Um século de glória, duas décadas de agonia”

Após o anúncio da migração completa para o formato online, o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro divulgou uma nota na qual afirma que “a notícia de que o Jornal do Brasil vai deixar de circular é um golpe para toda uma geração de jornalistas que lá trabalharam ou simplesmente foram seus leitores”.

O sindicato marcou para a próxima quarta-feira, 21, uma manifestação em frente à atual sede do JB para tentar evitar o fechamento daquele “que já foi um dos mais importantes jornais da imprensa brasileira”.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo manifestou apoio ao protesto e destacou que, com a extinção do impresso carioca, que escreveu boa parte da história do nosso país, “fecha-se também mais um mercado de trabalho”.

Em entrevista à Rádio CBN, o jornalista Alberto Dines, que já dirigiu a Redação do JB e atualmente está no Observatório da Imprensa, definiu a atitude apenas como uma maneira de protelar o fim do jornal: “Esse recurso de virar online é uma forma de adiar a sua morte. A história do JB pode ser resumida em um século de glória e duas décadas de agonia”.

Presidente pede licença

O presidente do JB, Pedro Grossi Jr., pediu licença do cargo por tempo indeterminando. Grossi, que já havia se manifestado contrário à possível mudança de formato do periódico, afirmou discordar da extinção do jornal impresso decidida pelo empresário Nelson Tanure, acionista majoritário da publicação.

Em comunicado, Grossi reiterou seu descontentamento com a medida e anunciou o afastamento: “Considerando que isto contraria a razão pela qual fui contratado, solicito, sem perda de meus direitos, que o expediente do jornal e de todas as revistas não conste mais meu nome”.

História centenária

Fundado em 1891, o Jornal do Brasil sempre adotou postura pioneira: inovou por sua estrutura empresarial e parque gráfico, pela distribuição em carroças e a participação de correspondentes estrangeiros.

Nos anos 1950, o JB revolucionou o design de jornais no Brasil, promovendo uma reforma gráfica definida como uma das mais importantes e abrangentes que um jornal já havia experimentado no Brasil. O jornal eliminou os fios, implantou a diagramação vertical e valorizou os espaços brancos das páginas. Em junho de 1959, pela primeira vez, a primeira página saiu com os classificados em L.

O Jornal do Brasil chegou a alcançar uma tiragem de 150 mil exemplares diários, mas ultimamente, sua circulação caíra para 21 mil. O empresário Nelson Tanure, acionista majoritário do JB, anunciou o fim da edição impressa em um anúncio de duas páginas publicado nesta quarta, 13.

A Associação Nacional de Jornais, por meio de seu diretor-executivo, Ricardo Pedreira, manifestou-se contrária à medida, mas afirmou ser esse um caso isolado: “Lamentamos pelo passado do Jornal do Brasil como uma referência no jornalismo brasileiro e uma grande escola de jornalistas, mas isso ocorreu por equívocos empresariais. A circulação dos jornais no Brasil vem crescendo, à exceção do ano passado, devido à crise, mas em 2010 vai voltar a aumentar. No Brasil, há muito espaço para a leitura de jornais crescer”.

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16 de Julho de 2010 às 3:38 pm

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