Sábado, 04 de Fevereiro de 2012
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  • O Que Resta do Pobre

    Lucas Barroso
    Estudante de Jornalismo

    Antigamente, o que restava do pobre era o orgulho. Era assim. Morria-se sem um vintém, pelo menos na literatura e nos “causos” que chegam aos nossos ouvidos, porém honrado. Naquela época. Naquele saudosismo dos velhos, que lotam as biroscas, que enchem a cara e incomodam os jovens com suas longas histórias. O orgulho está para o pobre como o dinheiro está para o rico. É algo que vale muito se apegar. Abraçar-se e levar consigo aos céus. E deverá ser assim para todo sempre. Não só no passado. Afinal, todo homem bem sucedido, leia-se rico materialmente, vendeu-se para sê-lo. Ora pelo sangue azul. Ora pela oportunidade que o fez homem bem-sucedido. A mesma oportunidade que fez o ladrão, é verdade. Idêntica. Ao pobre, muitas vezes, é fato, falta-lhe até mesmo a bendita chance de vender sua pura alma ao diabo… Mas, enfim, vão-se os anéis e ficam os dedos. É um consolo. Há sempre um provérbio que afaga o desafortunado. Há sempre uma razão para o fracasso do miserável: estar vivo e ser incorruptível. Se tudo se esvai no fim: saúde, família, sorte, boi, corda. Fica, no âmago do pobre, o orgulho. Como uma estátua de Vênus. Aos pedaços. Quase feia, mas, SIM, uma Vênus. Exposta na memória, na carne, nos ossos. Enfim, de verdade!

    A Velha Embalsamada na Fila do Banco

    Virou modinha. As pessoas mais novas, não de espírito, pegam nossos velhos pelos braços e os levam para as filas dos bancos. Têm até empresas que contratam velhotes para realizar serviços bancários. Eles são os office old mans. Uma nova profissão. Uma espécie de office-boys idosos. Agora, nossos velhos têm serventia. Só lhes faltam o walkman e os fones de ouvido. A intenção de tudo isso é “furar” a fila e abarrotar os caixas preferenciais das agências bancárias. Nosso tempo é de pressa. Estamos famintos por algo que nem sabemos o que é. E quem tem fome tem pressa. E quem tem de pagar contas idem. E sem muita filosofia, por favor! Mas teve uma moça cor de cuia, meio obesa, que pegou pesado. Ela arrastou, literalmente, até a boca do caixa uma velha pálida. Quase morta. Parecia embalsamada até. A dificuldade da anciã era tanta, que a gordinha teve de ajudá-la a esticar a mão até o bancário para, enfim, alcançar as notas de dinheiro e quitar a dívida. Aparentemente, ninguém estranhou, talvez seja hábito. Serviço realizado. As duas vão embora, ainda juntas, cruzam a porta giratória. Na rua, saem em direção opostas. Nem um tchauzinho. Nada. Uma provável free lancer, a velha.

    Uma Família que Não Faz Sexo

    O filho faz quatro anos de idade. No dia de seu aniversário resolve perguntar como nasceu e da onde veio.

    - Uma cegonha lhe trouxe, meu bem – disse a mãe.
    - E o pai como foi? – retrucou o guri.
    - Foi uma cegonha que trouxe ele também.
    - E você, mamãe?
    - A mesma coisa.
    - E a vovó que é velha?
    - Com ela foi igual. Porque não interessa a idade, meu filho…

    Inconformado, o garoto perde a paciência e finaliza.

    - Mas vem cá, mãe. Ninguém faz sexo nessa família?

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