Marina Matias Corte
Estagiária de Jornalismo
Zero Hora anexou a sua edição dominical do último dia 17 um caderno especial de 16 páginas chamado Filho da Rua. Nela, a repórter Letícia Duarte e o fotógrafo Jefferson Botega acompanham três anos da vida de Felipe (nome fictício), 14 anos, que está na rua desde os cinco. O que parece ter chamado mais a atenção dos internautas, no entanto, não é a história do garoto, mas a pauta escolhida pelo jornal, que levou inclusive estudantes de jornalismo a discutirem ética nas mídias sociais.

Fotógrafo Jefferson Botega e repórter Letícia Duarte assinam reportagem especial (Foto: Blog do Editor)
Mesmo antes de ter sido publicada, a reportagem foi alvo de críticas pelos internautas. Na última quarta-feira, 13, Zero Hora publicou uma chamada em vídeo para a reportagem especial no Blog do Editor. Foram mais de 40 comentários, vários deles de crítica, nos quais internautas indignados reclamavam por Letícia não ter feito nada para mudar a realidade de Felipe.
Entre os comentários está o de Luciana, que critica o suposto posicionamento dos jornalistas da Zero Hora: “Lamentável essa reportagem, lamentável esse vídeo. Falta total de humanidade. Isso não é forma da imprensa se posicionar, tampouco uma forma decente de cobertura jornalística”.
Outra internauta, chamada Fran, diz que a Zero Hora deveria ter interferido na vida de Felipe, o tirando da rua: “Não sou sensacionalista, e acho que o jornal tem sim a obrigação de mostrar estes fatos à sociedade e principalmente às autoridades. Mas pôxa vida hein ZH? Três anos não é tempo demais? No meu ponto de vista, creio que houve descaso por parte do jornal também, que acompanhou a situação durante três anos e simplesmente manteve o menino na rua durante este período todo, apenas para ter mais “detalhes” de uma realidade que sabemos ser horrível. Lamentável a situação e decepcionante a atitude de um jornal tão conceituado”.
Em entrevist ao Portal3, Letícia observa que as críticas foram “pré-matéria”, fruto de uma ideia do que seria a reportagem. “A impressão que eu tenho é que as pessoas não tinham noção de como uma reportagem dessas era feita”, diz. Segundo a jornalista de 31 anos, os internautas teriam ficado com a impressão de que a equipe de reportagem estava apenas esperando uma tragédia, quando, na verdade, existia toda uma rede de proteção social cuidando do caso de Felipe. Consequentemente, depois que a reportagem foi publicada, as criticas foram substituídas por elogios; agradecimentos emocionados de quem se sentiu tocado pela história de Felipe.
Letícia e Jefferson começaram a acompanhar Felipe em março de 2009. Caçula de seis irmãos, o menino começou a fugir de casa cedo: tinha apenas cinco anos. Hoje, aos 14, já é um veterano das ruas.
Felipe teria saído dos braços da mãe em busca do pai. Depois, descobriu os prazeres de ter seu próprio dinheiro (que ganhava pedindo esmola), e poder comprar doces e refrigerantes. Mais tarde, começou a usar Crack; aos oito anos, já pedia para ser salvo da droga. Quando cresceu e o rosto de menino se foi, precisou contornar a falta de esmolas e começou a roubar.
Os números também contam a história de Felipe: foram 105 encaminhamentos ao Conselho Tutelar; cinco programas sociais; nove encaminhamentos da Promotoria da Infância e da Juventude e três do Juizado da Infância e da Juventude; sete internações em clínicas de desintoxicação; três abrigos diferentes e quatro escolas. Letícia enfatiza que a reportagem foi produzida com autorização do Juizado da Infância e da Juventude da Capital, que já vinha atuando no caso.
Nesta segunda-feira, 18, o Grupo RBSpromoveu uma edição do Painel RBS, no qual especialistas e representantes do governo, do Judiciário e do Ministério Público discutiram alternativas para “o drama dos meninos das esquinas”, transmitido pela TVCOM, Rádio Gaúcha e site www.painelrbs.com.br.
18 de Junho de 2012 às 6:19 pm