Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
Adicionar

Adicionar

Não tem jeito de tiozão

Larissa de OliveiraEstagiária de Jornalismo

Era um hábito comum. Como a maioria dos aposentados, Luiz Carlos Pooter lia o jornal pela manhã. Em uma manhã de 2006, quando Pooter sentou-se em sua poltrona e folheou as notícias do dia, ele não imaginava que a partir daquele momento sua vida finalmente tomaria o rumo que sempre sonhou.

O que ele viu foi o anúncio de um novo curso que a Unisinos inauguraria no primeiro semestre de 2007: Formação de Produtores e Músicos de Rock. Era o que esse jovem de 52 anos estava esperando para retomar sua velha paixão, o rock’n’roll.

Pooter nasceu em Gramado em 23 de novembro de 1954. Mas pouco ficou na cidade para tomá-la como seu lar. Ainda pequeno, mudou-se para São Sebastião do Caí. A mãe, Giolástica Paulina, e o pai, Pedro Pooter, sempre trabalharam duro para sustentar os nove filhos.

Por este motivo, Pooter começou a trabalhar ainda muito cedo, aos 14 anos. Largou o Ginásio (que hoje equivale ao Ensino Médio) para ser office-boy nas conservas Oderich. A responsabilidade precoce, no entanto, não afetou sua criatividade nem seu gosto pela música, que já se mostravam presente desde aqueles tempos. Naquela época, Pooter deu início a uma coleção de vinil que hoje chega a cerca de 400 LPs.

Foi junto a um amigo que ele inventou, naquela idade, o seu próprio instrumento musical. Com a guitarra caseira, o autodidata aprendeu a tocar os primeiros acordes. Tirava de ouvido suas canções preferidas, hábito que o fez tornar-se muito bom de memória.

Era a década de 60 e Sargent Peppers, dos Beatles, bombava nas rádios. Através das ondas médias da Rádio Continental, de Porto Alegre, o menino do Vale do Caí conhecia o rock’n’roll vindo dos Estados Unidos e da Inglaterra. Logo, a paixão pela música fez com que os dois amigos montassem a banda Os Magnatas, e passassem a se apresentar nos bailes da cidade.

Depois de seis anos juntos, chegou um momento em que o seu gosto musical começou a destoar do de seus companheiros, que puxavam para o brega e a jovem guarda. Afinal, não se pode esquecer que este também era o tempo de Wanderléa e Ronie Von.

Pooter, então, passou a se apresentar frequentemente em festivais da cidade e também bailes, sem nunca deixar de trabalhar para ajudar a família. A vida regrada fez com que o rapaz que sonhava em ser um músico famoso percebesse que não seria fácil viver deste sonho.

O office-boy retomou estudos e passou em um concurso da Caixa Econômica Federal. Trabalhou em várias cidades do Interior e rapidamente assumiu a função de gerente. Apesar do bom emprego, seu coração batia mesmo era pela música. Em 1982, voltou a se apresentar em bailes, desta vez com a banda Flor da Serra. Depois de um ano de uma extensa agenda de apresentações, Pooter volta a abandonar a música para se dedicar ao trabalho.

“Nunca tive coragem de largar um emprego como
a Caixa Federal pra me dedicar à música”

Em dezembro de 1990, Pooter casou-se com Nádia, irmã de três músicos já conhecidos por ele dos bailes do Interior. Durante o casamento, passou por algumas bandas, como o Naftalina (de 1992 1994) e o Bakarath (2001 a 2003), com quem chegou a gravar um CD, mesmo que sua prioridade sempre tenha sido o trabalho como bancário, cuja renda era fundamental para suprir a família.

Espírito Roquenrol

Quem vê Pooter pelos corredores da Unisinos logo percebe que é um cara do rock. Suas roupas e seu jeitão provam que idade definitivamente é um estado de espírito.

Emanuele Spies
Luiz Poolter tem em torno de 400 LPs em casa e não baixa mp3

Em 2000, com o nascimento da filha e a aproximação de sua aposentadoria, Pooter começou a repensar toda sua vida. Formou-se em Administração em 2004, mas percebeu que havia levado uma vida burocrática e nunca havia tido coragem de abraçar o rock como seu ganha pão. Havia arriscado pouco e sentia que algo estava faltando.

Foi em um curso de preparação para aposentadoria que o fez ver que não poderia deixar sua rotina se esvaziar e que a partir daquele momento, sim, era a hora de retomar todos os sonhos que havia deixado para trás.

Assim que saiu da Caixa Econômica Federal, em 2006, entrou em um curso técnico para guitarristas. Queria aprender os fundamentos da técnica que aprendeu sozinho e da forma mais curiosa o possível. Pooter sempre preferiu solar ao invés de simplesmente acompanhar a música. E foi a paixão por Carlos Santana que o fez aprender a técnica.

Era o início dos anos 80 e todo o guitarrista que se prezasse tinha que saber tocar Samba Pa Ti. Então Pooter, demonstrando mais uma vez a sua incrível criatividade musical, teve que inventar uma maneira de aprender a solar como Santana.

Ele teve a idéia de reduzir a rotação do LP do músico para conseguir decifrar, e decorar, nota por nota do solo. Como a rotação mais baixa do toca-discos era de 33rpm, ele teve de desgastar a roldana que fazia girar o prato para reduzir a velocidade. O resultado foi que Samba Pa Ti passou a ser ouvida em uma oitava a baixo, mas, ainda sim, mantendo seu tom. Pronto. Pooter conseguia entender as notas para poder reproduzi-las.

Escola do Rock

Apesar de finalmente estar concretizando um sonho, Pooter sabia que o ambiente no qual iria encontrar no curso de Rock seria diferente do que se espera que uma pessoa de sua idade freqüente. Mesmo assim, tinha a expectativa de conseguir se enturmar com todo mundo.

“Eu tinha consciência de que rock é uma coisa pra gurizada, que ia encontrar um monte de gente jovem, cabeluda e tatuada. Mas não me importei, era a hora de seguir meu sonho”

E foi o que aconteceu. Adorado pelos colegas e respeitado pelos professores, não tem quem não saiba quem é Pooter no curso de Rock da Unisinos. O que se ouve não é de se surpreender quando conhecemos sua história de vida. Organizado, dedicado, o primeiro a chegar e o último a sair das aulas são alguns dos elogios que seus colegas usam para descrevê-lo.

“Ele é praticamente o colega ideal. Todos respeitam o que ele tem a dizer, por isso ele informalmente foi eleito o porta-voz da turma diante dos professores”, conta Mário Ferreira da Silva, colega de Pooter e integrante da banda Sydburns, formada dentro do curso, da qual Pooter participa.

“Ele é um cara de iniciativa, bacana, além de muito dedicado. Sempre se senta bem na frente durante as aulas”, diz Lourenço de Souza.

Apesar da admiração dos colegas, Pooter não se ilude mais com a fama nem reserva muitas expectativas para o curso. Sua intenção ao ingressar na universidade não foi essa. A experiência de conhecer os bastidores do mundo do rock, fazer parte da evolução do mercado musical e aprender, estes, sim, são seus verdadeiros objetivos.

“Tenho despertado bastante interesse por gravações e o trabalho em estúdio. Mas se não der para eu viver disso, se eu não ganhar dinheiro, não me importa. Estou muito seguro e realizado por estar tendo a oportunidade de aprender mais sobre algo de que gostei a minha vida inteira”, conclui.

Saiba mais

Hoje, Luiz carlos Pooter toca nas bandas Sydburns, formada durante o curso de Formação de Produtores e Músicos de Rock, na Banda The Remembers, onde toca cover de rock das antigas e possui um projeto autoral com amigos de nome provisório Os Lordes, que já possui 10 músicas compostas.

Related posts:

  1. Novo jeito de fazer jornalismo
  2. Não tem jeito, sigo de licença
  3. É Preciso Dar Um Jeito

4 de setembro de 2008 às 3:21 am

3 Comentários para “Não tem jeito de tiozão”

  1. [...] * Reportagem originalmente publicada no site Portal3. [...]

  2. Dulce disse:

    É com prazer que deixo meu recado.
    A reportagem acima está ótima.
    Considerando ainda que o Pooter é meu irmão.
    Uma pessoa muito querida, dinâmica e esforçada.
    Abraço,
    Dulce

  3. JONES disse:

    Alo Luiz e Larissa, muito boa a materia e parabens ao Luiz por ter conseguido se aposentar ainda bem jovem e por sua opcao em continuar na luta em prol da musica e em busca de seus ideais. Me aguarde que ano que vem te sigo nessa trajetoria e certamente faremos alguns blues juntos.

Deixe um Comentário

© Copyright 2009, AgexCOM