Thaís Furtado
Jornalista, professora e coordenadora da agexCOM
Há algumas semanas, um texto do aluno de Jornalismo Lucas Barroso, publicado no espaço de colaboradores do Portal 3, teve uma repercussão muito grande. Alunos de Relações Públicas se sentiram ofendidos com o que leram. Dias depois da veiculação, durante um debate na minha turma de Doutorado, que aparentemente nada tinha a ver com o assunto, acabei pensando mais profundamente no que havia acontecido. Por que a polêmica? Por que um descontentamento tão grande?
Bom, vamos começar com o conteúdo de minha aula de Cultura e Imaginário. Depois da discussão sobre um texto de John Thompson sobre o que é cultura, os professores Karla Müller e Rudimar Baldissera nos apresentaram um vídeo de uma esquete da peça de teatro gaúcha Primeiro as Damas. Está no YouTube. O espetáculo é daquele tipo totalmente em alta hoje: a stand up comedy. Woody Allen começou sua carreira assim. Um ator sozinho no palco fica conversando com o público, normalmente interpretando um personagem. Foi o caso da cena que vimos. Era a caricatura de um velho, com mal de Parkinson e que dizia um monte de palavrões em inúmeras piadinhas que ironizavam a situação de ser velho.
Ao final da exibição, a professora Karla trouxe a seguinte questão: por que as pessoas acham graça de uma situação tão degradante? Ou seja, o espetáculo – talvez sem querer – acaba reafirmando preconceitos sociais, culturais. Por outro lado, a arte e a mídia são também espaços da crítica, do fazer pensar. Ou seja, a mídia – que nos interessa particularmente – acaba por ser ao mesmo tempo o espaço do reforço e da tensão em relação ao que está posto na sociedade. Até aí, tudo bem, mas existe um outro componente que pode ser analisado: o humor. Do que as pessoas acham graça? É claro que o humor está intimamente ligado à cultura da qual fazemos parte. Uma piada no Brasil pode não fazer nenhum sentido na Alemanha. Vários autores falam disso, inclusive os da Análise do Discurso francesa, pela qual tenho especial predileção. Só conseguimos dar sentido a um discurso ao interpretá-lo, o que só vai acontecer em relação a outros discursos, outras referências que temos.
Sem querer fugir muito do assunto, mas para exemplificar de forma bem simples, lembro dos outdoors criados pelo Cpers-Sindicato contra o governo Yeda Crusius. Eles mostravam um rosto apagado ao lado de frases do tipo: no dia tal você vai conhecer o rosto do autoritarismo. A campanha gerou muita discussão. Alguns dias depois, um motel de Porto Alegre, aproveitando a polêmica, fez um outdoor esteticamente igual à peça do Cpers, com um formato de rosto semelhante ao que aparecia no outro outdoor, também apagado, mas dizendo algo como: você vai conhecer o rosto do prazer. Motel tal. Ora, esse outdoor só faz sentido porque mobilizamos o interdiscurso, fazemos relação com o discurso anterior. Se alguém de fora da cidade visse aquela propaganda, jamais daria a ela o mesmo sentido que os porto-alegrenses.
Então volto à questão do humor. Só achamos engraçado aquilo que faz algum sentido para nós. Ou será que não? Bem, navegando muito superficialmente na Internet – me desculpem os pesquisadores que trabalham com isso e que certamente terão versões bem mais complexas sobre o que vou falar – li que existem três tipos de teorias sobre o humor: as da incoerência, as do alívio e as da superioridade. As da incoerência seriam referentes àquele humor mais óbvio: achamos graça quando uma coisa inesperada acontece. Uma pessoa cai, alguém diz algo inconveniente, enfim. Seria, portanto, uma espécie de quebra do sentido. O nonsense seria o ponto máximo desse humor, tão bem representado, por exemplo, pelo grupo inglês Monty Python. Aquilo não faz sentido nenhum, por isso é engraçado. Ou seja, mesmo que às avessas, a relação com o sentido se mantém.
As teorias do alívio têm um viés mais psicanalítico, freudiano. Uma piada obscena, por exemplo, pode provocar risos que liberam uma tensão acumulada pela repressão sexual. Seria uma remoção de barreiras, uma forma de driblar uma censura. E o assunto não precisa ser somente o sexo. O prazer com o riso pode vir de outras questões reprimidas. Quantas vezes pensamos em assistir a uma comédia no cinema apenas para relaxar, para liberar tensões? Todo mundo já fez isso. E existem ainda as teorias da superioridade. Muitas vezes, o riso é provocado por uma piada sobre os defeitos de alguém ou de um grupo. Bêbados, sovinas, gordos são alvo de brincadeiras. Elas provocam uma sensação de superioridade em quem está fazendo a piada. É claro que essas formas de humor se confundem, as sensações se somam e devem existir muitas outras maneiras de entender o humor. Mas meu objetivo aqui, no entanto, é apenas perceber a relação que existe entre humor e sentido.
Quando ouvimos uma piada de português, por exemplo, achamos graça porque vemos sentido naquele discurso. É evidente que os portugueses não são burros. Uma pessoa que achasse isso realmente seria preconceituosa. Mas sabemos diversas histórias verdadeiras de portugueses que mostram que a forma de pensar daquele povo se difere um pouco da nossa, ou seja, existe uma ligação com o real, por isso faz sentido. E é aí que eu quero chegar. Existem estereótipos, ou imaginários, sobre vários grupos sociais. Baianos são lentos, gaúchos são machos, cariocas são malandros, enfim. É claro que nem todos os baianos são lentos, mas só conseguimos entender uma piada que trata dessa forma alguém que mora na Bahia porque ela tem uma relação com a realidade. É uma questão cultural.
Não teria sentido, portanto nem graça, se fizéssemos uma piada dizendo que os paulistas são lentos. A não ser pelo contraditório, pelo nonsense. Quando o Casseta e Planeta faz piadas de gaúchos gays, muitos ficam ofendidos. Ora, o que eles fazem é justamente brincar com um estereótipo, no caso o de que todos os gaúchos são machos. Todos sabem que existem gays no Rio Grande do Sul, aí a ligação com o real: nem todos os gaúchos são machos. Esse, no entanto, é um estereótipo (ao contrário da lentidão baiana, por exemplo) considerado socialmente – e talvez aí sim preconceituoso – positivo. Por isso a brincadeira, para ter graça, precisa ser feita com o seu oposto, com o inesperado. Já com a questão da velhice, exposta na peça gaúcha, o humor se dá pela sua ligação com o real. Por mais que se deva ter respeito pelos idosos e que a sociedade já esteja aos poucos se conscientizando disso, é evidente que ficar velho não é uma coisa boa. Se pudéssemos escolher, preferiríamos ficar sempre jovens. Então, as piadas sobre velhos só fazem sentido pela sua ligação com a realidade, mesmo que exista um forte imaginário sobre esta fase da vida.
E quais seriam os imaginários em relação às profissões? Quando se pensa em alguém da área da informática, por exemplo, a imagem que vem à cabeça é a de um nerd. Alguém da área do cinema deve ser meio louco e criativo. São imaginários. Só isso. Mas apesar de serem visões estereotipadas, elas têm alguma relação com a verdade, com o real. Senão não fariam sentido. E quais são os estereótipos dos jornalistas, dos publicitários e dos relações públicas? Chegamos, então, ao início desta discussão. O que o Lucas Barroso fez em seu texto foi brincar com os estereótipos das três habilitações mais tradicionais do curso de Comunicação Social. Provavelmente quem estuda o humor possa dizer que o seu texto pode ser explicado pelas teorias da superioridade – ele fala de “defeitos” das profissões – e da incoerência – é estranho um aluno que faz parte de uma comunidade criticá-la numa mídia universitária, mesmo que experimental. Mas podemos tentar entender por que essas piadas fazem sentido.
Uma das críticas dos alunos de RP foi que o Lucas “pegou mais pesado” com eles do que com as outras profissões. Vamos analisar os estereótipos por ele destacados. Em relação aos jornalistas, grupo do qual ele faz parte, Lucas escreveu:
Por que você escolheu o curso de Jornalismo?
a) Porque disseram que eu escrevo bem
b) Porque sou inteligente e vou mudar o mundo
c) Porque não estou nem aí para o dinheiro
d) Todas alternativas anteriores
Ora, o imaginário aqui é de um sujeito que acha que vai salvar o mundo, que se sente superior, que escreve bem e vive por idealismo, sem pensar no lado prático e realista da vida. São estereótipos socialmente considerados mais positivos, embora não sejam necessariamente. Lendo sobre Jornalismo Literário outro dia, vi como as profissões de escritor e jornalista iniciaram meio misturadas. Os intelectuais brasileiros – e no resto do mundo não foi diferente – utilizaram a imprensa para publicar suas ideias. Esse início da profissão deu ao jornalista uma imagem de idealista, mas ao mesmo tempo provocou frustração em muitos que escolheram esse trabalho, pois é evidente que ninguém consegue “salvar o mundo” seja lá do que for. Muito menos seguindo uma profissão cheia de constrangimentos e regras dentro de uma lógica produtiva. João Antonio, conhecido escritor-jornalista que fazia contos-reportagens, escreveu eu 1986: “Tenho dito, com algum rompante, que a profissão faz alcoólatras, jogadores, impotentes, solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa e do poder (…)”.
Boêmios, fumantes, barbudos, assim era o imaginário que tínhamos dos primeiros jornalistas. E a maioria dos profissionais tem consciência desse imaginário. Mas o interessante é que o imaginário, assim como a realidade – e talvez por causa dela – também muda, se transforma. Hoje, esses estereótipos do jornalista já não fazem tanto sentido. Tanto. A profissão foi mudando sua imagem para o mundo. Para melhor? Não sei. Mas é uma mudança tão gradual que ainda existe um pouco de verdade nesse imaginário. Distante, mas existe.
Já os publicitários têm uma imagem de criativos, como escreveu Lucas:
Por que você escolheu o curso de Publicidade e Propaganda?
a) Porque eu sei mexer no Corel e no Photoshop
b) Porque sou gênio, carismático e engraçadinho
c) Porque vendi minha irmã numa rifa da escola
d) Todas as alternativas anteriores
São brincadeiras, mas que têm uma relação com a verdade. Quantos não são os alunos que entram no curso e dizem que publicitário é responsável por vender um produto, por exemplo? Quem nunca pensou que o publicitário é aquela pessoa que criativamente tenta achar somente as qualidades de um produto, esquecendo os defeitos? Ninguém nunca viu, no entanto, um publicitário vendendo algo. Nem nunca pensa nas inúmeras campanhas preventivas criadas pela publicidade quando vai descrever o que se imagina da profissão. Acredito que os publicitários tenham consciência dessa sua imagem.
E os rps? Bom, aí outros estereótipos são mobilizados. Vamos ao que o Lucas escreveu:
Por que você escolheu o curso de Relações Públicas?
a) Porque sou mulher, ora!
b) Porque não gosto de escrever nem mexer no Corel e no Photoshop
c) Porque gosto de festas e tenho uma agenda
d) Porque Jornalismo e Publicidade tinham muita concorrência
É evidente que não existem só mulheres relações públicas, mas basta entrar numa sala de aula do curso para ver que a grande maioria é de mulheres. Quando o Lucas fala que os rps não gostam de escrever ou de trabalhar com os programas de arte, ele está fazendo uma relação com as outras duas habilitações. E agora eu pergunto aos relações públicas: quantos, ao escolherem seus cursos, não pensaram que gostavam de comunicação, mas não queriam seguir as outras duas áreas? Queriam achar um outro caminho. Acharam em RP esse caminho. Mas preciso dizer que sou testemunha – já que tenho alunos de RP – de que muitos chegam em sala de aula dizendo que não gostam e não sabem escrever. Alguns têm pânico. Muitos mudam essa visão no meio do semestre, mas que ela existe existe. A mesma comparação se dá na última opção apontada por ele. É verdade que PP e jornal são cursos mais concorridos do que RP! No entanto, ele só está fazendo uma brincadeira com este estereótipo: o de que os alunos não sabem muito bem o que fazer na área da comunicação e acabam escolhendo RP.
A resposta que trata das festas e das agendas é a que mobiliza o estereótipo mais forte da profissão. Muitos alunos entram no curso dizendo que gostam de organizar eventos. É o imaginário. Portanto, o que o Lucas faz, na minha opinião, é provocar essa tensão com os estereótipos dos três cursos. Eu, que sou jornalista, mas dou aulas também para alunos de RP, lanço aqui um desafio: façam essa piada não ter mais graça. Pensem, nós só rimos do que o Lucas escreveu porque, apesar de tratar de um imaginário da profissão de RP, o texto tem uma ligação com o real. Senão ele não faria sentido. A vantagem é que o imaginário muda, os receptores mudam, portanto torço que chegue um dia que falar que rps só gostam de festa e não sabem escrever não faça sentido nenhum. Seja o mesmo que dizer que os paulistas são lentos. Assim como torço que chegue um dia que achar graça de piadas de velhos também seja impossível. Embora isso seja bem mais difícil.
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28 de Abril de 2009 às 3:07 pm
Olá Thais.
Coincidentemente, meu TCC foi sobre o humor, e abordou pontos bem específicos que tu mencionaste no artigo. e eu concordo com todos eles.
A questão é que, como o humor parte de uma relação de superioridade perante o objeto do qual se ri, o ato de rir de si mesmo torna-se uma ofensa. É muito mais fácil apontar o defeito dos outros do que olhar para os seus. Não duvido que os alunos de RP que se revoltaram com o texto do Lucas fujam do estereótipo da classe, e por isso a repúdia excessiva. Mas ao mesmo tempo, são incapazes de admitir as características do meio, o que é uma pena para um profissional de comunicação em que uma das suas atividades é identificar e lidar cm diferentes públicos, identificando perfis e características comuns.
Belo texto. Grande abraço.
Bem pensado Thaís! Seria bom se todos (da comunicação ou não) ao lerem qualquer texto refletissem sobre a informação e a intenção do texto antes de deixarem críticas tão duras e impensadas. Ah, e um pouco de humor também ajuda!
Thaís acho que o teu argumento não é tão válido para afirmar que o estereótipo de RP é esse, pois essa é uma visão de alunos de início de curso, se tu conhecer os alunos de RP, não os que entraram agora e sim os que estão no 5°,6°,7° e 8° semestre, vai ver que esse estereótipo não faz sentido algum. Pois não faz parte do nosso meio e esses tipo de comentários nos ofende, por este motivo houve tantos comentários por parte dos alunos de RP, pois somos formandos e sabemos do nosso potencial, muitos até sabem lidar com o Corel ohhh que milagre né?! Todos que comentaram o post do Lucas já estão no mercado, será que basta para mostar que o estereótipo está mudando?!
Respondendo ao Piero sem sobrenome – Acho que está na hora de mudar sua visão pré-conceituosa, pois nenhum aluno de RP que respondeu o post do Lucas se enquadra no perfil do estereótipo citado.
Mas quem é tu pra falar sobre a nossa capacidade? Ahhhh tu se encaixa no estereótipo do jornalista, acha que é Deus e sabe tudo…acertou em cheio Lucas!
Abraços
Prezada Priscila;
Creio que tu interpretaste meu comentário acima de maneira errada. Mas eu repito, caso não tenha entendido: disse que os RPs que repudiaram o texto do colega o fizeram porque não se enquadram nos estereótipos antes citados. Se você se preocupasse menos com o meu sobrenome e mais com a leitura, isso talvez não tivesse acontecido.
Eu particularmente não tenho preconceito nenhum com as RPs. Fico até feliz em saber que tem gente na profissão que até usar o Corel Draw sabe! Afinal, quem mais iria diagramar os flyers das festinhas super hypes organizadas por elas? Pena que ainda não lançaram para o Corel uma atualização que inclua o botão “senso de humor” em suas funções. Mas um dia a tecnologia chega lá, eu creio!
Ah, quem acha que é Deus são os publicitários. Os jornalistas têm certeza.
Mais um pouco de humor nesta discussão …. Para se acharem deuses, os jornalistas precisam da publicidade para dizer isso e se vender !!!
Pô, Sérgio! Mas ninguém compra um jornal ou revista só pra ver propaganda, não é? (ok, revista e canal Polishop não contam…)
Indico Televisão Subliminar de Joan Ferrés.
Ele explica o estereótipo em um de seus capítulos, que é uma tendência simplificadora de intepretação.
Quando crianças pensamos ambiguamente: isso é bom ou isso é ruim. O estereótipo lida com isso, esse livro é interessanttíssimo para entedermos um pouco sobre como e porque o estereótipo existe e funciona….
“Os estereótipos contribuem
para potencializar a sensação de que se tem controle da realidade, de
que esta pode ser conhecida, entendida, explicada, dominada.” (Joan Ferrés)
De fato, o estereótipo como ironia é humor.
Parabéns pelo texto Thaís!
Ainda não acredito que tenham pessoas que não sabem rir de si mesmo. Vão morrer velhos e caquéticos. Quem defende tudo com unhas e dentes e não aceita brincadeiras alheiastem que parar e pensar um pouco. Assim como falam mal dos jornalistas, e muitos de nós sempre ri com as piadinhas, por que com os outros cursos não pode ocorrer?
Olá, Thaís! Sou estudante do 7º semestre de Relações Públicas e gostaria de parabenizá-la pelo texto. Faço, ao mesmo tempo, referência ao comentário da Pauline, que foi muito oportuno. Certamente, farei outro comentário mais aprofundado na sequencia, já que hoje só passei para elogiá-la. Adoro o humor e admiro a capacidade de abstração, tão essencial nos dias de hoje. Com essa capacidade, impossível não concordar com as tuas palavras!
Priscila, o nome do texto polêmico do Lucas era: “Questionário para recém aprovados no vestibular de Comunicação Social”. Veja: RECÉM APROVADOS NO VESTIBULAR… Logo, não enquadra-se nesse questionário estudantes que estão no 5º, 6º, 7º e 8º semestre. Capich?
A propósito, quem aqui não ri de piada sobre estagiário? E creio que a maioria que aqui comenta faz parte dessa classe, não?