Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
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Sofrimento opcional

Raquel Piegas
Estagiária de Jornalismo

Dentes quebrados, alguns pontos na boca, um pé torcido inúmeras vezes, fraturas no braço direito, mais pontos na cabeça, no queixo. Esse é o saldo da minha infância. Tempo feliz de uma época pueril, interiorana, quando era necessário subir no pé de laranja para degustar a fruta até ficar com dor de barriga. Escalar muros era meu principal feito, correr atrás das galinhas que meu avô criava – e ainda cria – era uma das coisas mais divertidas do mundo. Algumas lembranças da minha época de criança permanecem em minha memória e na de alguns professores. Sem dúvida, comuns a muitas pessoas que hoje contam com a mesma idade que eu. Mas essas recordações poderiam ficar no obscuro da minha memória e ter dado lugar a outras.

Quando eu tinha cerca de três anos, meus pais já haviam adquirido uma estabilidade financeira. Eu, que até então fora criada pelos meus avós, agora teria uma babá. Lembro do nome dela: Sandra. Lembro do jeito dela. Lembro de cada detalhe daquela época. Mas não por ter sido agradável. Lembro de tudo porque Sandra bebia. Bebia e eu apanhava. Porque não queria comer, porque questionava, porque chorava, porque brincava, porque não brincava. Simplesmente apanhava. Sandra morava lá em casa, o pesadelo ficava no quarto ao lado. Nunca contei nada, sob a ameaça de que apanharia mais se contasse. Isso permaneceu por cerca de dois anos, até que me armei da coragem infantil e confessei tudo à minha avó.

Imediatamente meus pais tomaram providência. Eu lembro de tudo, mas não contarei os detalhes. Basta que vocês saibam que ela foi demitida naquela mesma noite de inverno. Não houve denúncia, eu não quis. Eu tinha medo. Meus pais ficaram com receio de que eu desenvolvesse um trauma irreversível. Que não quisesse ter filhos, que fosse uma criança violenta, que não alimentasse carinho por ninguém. Aconteceu exatamente o oposto. Não desenvolvi traumas, os maus tratos da infância surtiram efeito contrário em mim. E é por isso que hoje eu tenho loucura por crianças, elas enxergam em mim a “tia legal”. Sempre percebi isso, mas a afinidade se tornou mais evidente nos últimos sábados.

Como parte da “profissão repórter” que escolhi, há dois finais de semana visito uma vila de São Leopoldo, em busca de cases, depoimentos, fatos para um vídeo institucional. Lá há uma associação de moradores, na qual todo sábado crianças têm aula de dança. Eu me sinto em casa quando chego. Dezenas de pedacinhos de gente ao meu redor. Umas mais falantes, outras mais quietas e outras retraídas em um canto. Posso estar errada – e tomara que esteja – mas de certa forma eu sei por que algumas crianças se calam.

No Brasil, mais de 500 mil crianças sofrem maus tratos por ano. Os dados são de 2008. O número cresce, infelizmente. Eu faço parte das estatísticas de 1989 até 1992. Eu sou um número. Mas eu tive a sorte de nascer em uma família atenta, que acreditou na minha palavra de criança. Mas e aqueles que não tiveram ou não têm a mesma sorte que eu? Os que de alguma forma estão condenados a conviver com um estigma interior? Que por sofrerem maus tratos não acreditarão na família, nas pessoas, no carinho?

Talvez sejam essas as crianças que ficam retraídas em um canto. Ou quem sabe elas são as que correm para um abraço de um desconhecido, sabendo, mesmo que inconscientemente, que nada de pior vai acontecer a ela do que já aconteceu em casa?

Recorri ao assunto nesse espaço que me foi cedido não para comover quem lê o Portal3 ou para escancarar a minha vida de maneira exibicionista. Minha mensagem é mais pretensiosa.

Prestem atenção ao redor. Procurem explicações para as coisas. Dificilmente elas são o que parecem ser, por mais “frase de auto-ajuda” que pareça. Tenham subsídios para criticar, opinar, debochar ou o que quer que seja. Conheçam quem está ao lado de vocês. Faz bem. Afinal, as coisas acontecem. Comigo, com vocês. Cada um carrega uma história diferente. A arte está em tirar o proveito certo das vivências. Eu poderia ter minha memória cheia de ódio. Mas prefiro lembrar os dentes quebrados que tive pelo tombo que levei quando tentava alcançar o meu pai para enchê-lo de beijos.

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1 de junho de 2009 às 6:37 pm

1 Comentário para “Sofrimento opcional”

  1. Fabio disse:

    Muitos consideram literatura de auto-ajuda um lixao…

    Mas tem muita coisa boa, no segmento…

    Quanto ao texto, bem interessante..

    sobre tua infancia, acho que foi bem dentro da normalidade… :)

    so nao quebrei o braço e torci o pé, de resto, a mesma coisa..

    com uma cirurgia na lingua, ainda.. hhaahah

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